Rota 2030 é pouco inclusivo e não terá impacto no curto prazo

Letícia critica configuração do Rota por ser pouco inclusivo e não conter medidas para competitividade global (foto: Luis Prado)

Por SUELI REIS, AB
  • 28/08/2018 - 15:21
  • | Atualizado há 2 months
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    O Rota 2030 vai ter um baixo impacto na indústria automotiva nacional e nenhum impacto no curto prazo. Essa é a visão defendida pela consultora e sócia-diretora da Prada Assessoria, Letícia Costa, que encerrou os trabalhos do no Workshop Planejamento Automotivo 2019, realizado por Automotive Business na segunda-feira, 27, em São Paulo. Para ela, uma política industrial deveria considerar toda a cadeia e da maneira como está configurada, falta inclusão ao programa, principalmente de empresas de tier one, que investem tanto quanto as montadoras.

    “O governo ainda não entendeu como funciona a indústria. É um programa muito modesto, não abrange toda a cadeia. Está muito focado em montadoras. É um programa ruim? Não. Ajuda a conquistar investimentos das matrizes, mas não é o Rota 2030 que vai trazer o grande avanço”, disse Letícia.

    Ela alerta para o fato de que a proposta da política industrial, que ainda está em análise pela Câmara, contempla medidas de curto prazo e que está longe de endereçar questões que deveriam fazer parte da pauta da competitividade e da inserção da indústria local no cenário global.

    “O Rota 2030 continua sendo Rota 2020; há incentivos limitados para híbridos e elétricos. Quando se fala em P&D hoje, estamos falando de ultrapassar fronteiras tradicionais. Exemplo disso é que não dá para falar de mobilidade sem incluir grandes e novos players que não são tradicionais na indústria automotiva – aqui estamos falando de Google e Uber, só para citar alguns. E o Rota 2030 não inclui isso.”

    Outro problema, segundo ela, é a pouca clareza sobre medidas que contemplam o setor de autopeças. “Há uma proposta de um fundo com recursos dos ex-tarifários para as autopeças, mas o problema não é tanto o valor, mas sim como ele será e se será acessado. Havia algo semelhante no Inovar-Auto, mas nunca se viu esse dinheiro”, disse.

    Segundo Letícia, no médio prazo, pode-se esperar um impacto moderado, uma vez que o programa deve exigir mais equipamentos de segurança nos veículos. Já no longo prazo, a consultora alerta que alguns desafios permanecem para a indústria. Ela indica que as empresas precisam começar a planejar imediatamente qual o papel e a qual posição querem ter no novo contexto tecnológico mundial, que não é mais uma visão de futuro, mas sim uma realidade palpável.

    A evolução da transformação digital potencializa essa necessidade de mudanças, provoca Letícia. Ela exemplifica que só o carro elétrico vem mudando de forma exponencial algumas áreas muito tradicionais da cadeia e a maneira como elas estão estruturadas. Há de se considerar que montadoras não têm expertise com baterias, por exemplo, e que fornecedores de motores a combustão tendem a diminuir seu fluxo. A conectividade, por outro lado, tem trazido para a indústria um incontável número de parcerias entre montadoras e empresas especializadas em tecnologia, big data e inteligência artificial, entre outras frentes.

    “O fato é que apesar de ninguém saber qual é o futuro, não se pode dar o luxo de não se mexer. Neste contexto tecnológico, a grande pergunta é ‘Quem será o dono do cliente?’ Em suma, vamos ter mudanças importantes e quem não se preparar para este tsunami de transformações, vai ficar na rabeira. E sabemos que cinco ou seis anos é um tempo muito curto para mudar o negócio.”