Segunda onda está pior em casos de infecção, mas não em termos econômicos

Fernando Machado Gonçalves, economista do Itaú Unibanco: economia anda de lado

Por WILSON TOUME, PARA AB
  • 04/03/2021 - 14:41
  • | Atualizado há 2 months
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    Em apresentação no AB Plan 21 Near, evento on-line realizado por Automotive Business na quarta-feira, 3, Fernando Machado Gonçalves, superintendente de pesquisa macroeconômica do Itaú Unibanco, afirmou que a economia brasileira está se adaptando à situação atual, e que as projeções da instituição não contemplam o risco de uma nova queda na atividade econômica do País. No fim do ano, a economia deve apresentar crescimento em relação a 2020.

    “A segunda onda está sendo pior em termos de números de casos de infecção, mas não em termos de impacto econômico, então a economia está se adaptando de maneira relevante e a atividade econômica no Brasil não está sendo derrubada por essa segunda onda”, declarou Gonçalves. O especialista lembrou, contudo, que se a projeção elaborada pelo banco não indica queda, também não mostra crescimento. “A economia está andando de lado”, afirmou.

    De acordo com o estudo apresentado por Gonçalves, a desaceleração no processo de vacinação no Brasil preocupa, mas ele entende que essa situação está prestes a mudar. “A partir de março, acreditamos que vai ocorrer uma aceleração na vacinação no Brasil, a oferta de vacinas vai crescer muito fortemente e isso vai se refletir na atividade econômica muito em breve”, disse.

    Especificamente sobre o mercado automotivo, Gonçalves afirmou que a tendência é de que o setor deve apresentar estabilidade no decorrer do ano – o que mantém factível a projeção de crescimento de 15% feita pela Anfavea para 2021. No início do ano, o crédito deu sinais de retração, mas o economista do Itaú Unibanco não acredita que isso seja uma tendência. “É uma volatilidade natural, uma vez que antes o crédito apresentou forte recuperação no fim do ano passado”, explicou. Da mesma forma, a inadimplência segue em níveis muito baixos, mostrando que esse não deve ser um fator para dificultar o acesso ao crédito.

    APOSTA NO TETO DE GASTOS



    De acordo com as análises feitas pelo Itaú Unibanco, o País deve registrar crescimento de 4% no PIB no fim deste ano e de 2,5% em 2022. Se confirmado, esse resultado quase vai anular a queda do ano passado, que foi de 4,1%. Mas as condições para que essa previsão se concretize não são agradáveis. A taxa de desemprego, por exemplo, deve se manter elevada durante um bom tempo (ainda por volta de 14%) e, segundo o analista, isso é um dos fatores que vai permitir manter a inflação sob controle, pois o desemprego em alta “vai impedir que haja uma dinâmica salarial adversa”.

    Da mesma forma, um novo auxílio emergencial deve ser criado, com duração de quatro meses e valor de R$ 300, como sinalizam as fontes ouvidas pelo banco. Mas, ao mesmo tempo em que o novo programa deve ajudar as pessoas em condição de vulnerabilidade, ele gera preocupação com a situação fiscal, o que pode impactar a taxa de juros. “A maioria dos países está discutindo a redução dos gastos do governo, e aqui a gente fala sobre aumentá-los”, observou Gonçalves. Assim, se por um lado o auxílio é fundamental para permitir que o País atravesse essa segunda onda, por outro lado existe a preocupação com que o aumento dos juros possa anular parte desse estímulo.

    Com relação ao câmbio, a projeção feita pelo Itaú Unibanco indica que o dólar será cotado em R$ 5 no fim do ano, e a previsão de recuperação da moeda brasileira só não é mais otimista por conta das incertezas fiscais provocadas pelo auxílio emergencial. Os juros vão subir, e devem chegar a 5% no fim do ano, pois o Banco Central terá de agir para controlar a inflação – que seguirá impactada pelo custo dos alimentos, refletindo as cotações em alta das commodities. As perspectivas, aliás, já indicam que a taxa de inflação já beira o limite superior da banda de tolerância do Banco Central. “A gente acredita que na reunião dos dias 16 e 17 de março, o Banco Central já eleve a taxa Selic para 2,5%”, disse Gonçalves.

    Essas previsões, no entanto, são baseadas em algumas premissas, como Gonçalves deixou claro. A primeira é de que haverá aumento na oferta de vacinas já a partir de março em todo o País, com uma forte aceleração no programa de vacinação, e a segunda é de que, mesmo com a criação de um novo auxílio emergencial, o teto de gastos será respeitado.