Sem acordo, Renault fecha turno e demite 747; empregados entram em greve

Assembleia na porta da fábrica da Renault em São José dos Pinhais (PR): 747 demissões e decisão por greve

Por PEDRO KUTNEY, AB
  • 21/07/2020 - 18:00
  • | Atualizado há 2 months, 1 week
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    Texto atualizado e complementado às 23h de 21/07

    Após tentar sem sucesso na semana passada acordo com os trabalhadores para abrir um programa de demissões voluntárias (PDV) na fábrica de São José dos Pinhais (PR) com o objetivo de reduzir em 800 pessoas o quadro de 7,2 mil funcionários da unidade, a Renault decidiu não esperar mais. Na terça-feira, 21, a empresa informou que unilateralmente vai fechar o terceiro turno e, com isso, demitirá 747 empregados da produção. O ritmo dos três turnos já era bastante lento, com 70% de redução de jornada.

    A decisão foi anunciada 24 horas antes do prazo de 72 horas que Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba (SMC) havia dado à empresa para fazer nova proposta aos trabalhadores. Em vez da contraproposta, vieram as demissões com menos benefícios do que os previstos na oferta rejeitada de PDV. A reação sindical foi imediata, com a convocação de assembleia, realizada no fim da tarde da terça-feira, que colocou em votação e segundo a entidade aprovou “por unanimidade” a realização de greve por tempo indeterminado, até que a empresa volte a negociar para reverter os cortes de pessoal.

    “A Renault do Brasil informa que desde o início da pandemia, em março, aplicou soluções de flexibilidade como férias coletivas e a MP 936 (redução de jornada e salários) para o enfrentamento da crise da Covid-19. Com o agravamento da situação, queda das vendas [da marca] em 47% no primeiro semestre e a falta de perspectiva de retomada do mercado, a Renault buscou negociações com o sindicato e vem nos últimos 50 dias trazendo propostas para a necessária adequação da estrutura fabril. Após realizar todos os esforços possíveis e não havendo aprovação das medidas propostas, não restou outra alternativa que, em 21 de julho, anunciar o fechamento do terceiro turno e o desligamento de 747 colaboradores da produção do Complexo Ayrton Senna”, diz a nota oficial da empresa.

    “Queremos deixar nosso repúdio pela forma que esta empresa está agindo, mesmo recebendo incentivos fiscais do governo do Estado para gerar e também manter empregos. Infelizmente não é o que a direção atual desta planta está pensando. Vamos nos manter em estado de greve, em assembleia na porta da fábrica, até que a Renault reveja essa decisão e volte a negociar conosco”, afirmou o presidente do SMC, Sérgio Butka.

    RETIRADA DE BENEFÍCIOS



    O PDV proposto na semana passada previa o pagamento de 1,5 a 4 salários extras (dependendo do tempo de casa de cada funcionário), primeira parcela de R$ 8,5 mil do programa de participação nos resultados (PPR) e extensão de vale-mercado até o fim do ano e do plano médico até junho de 2021. Como a proposta foi rejeitada em assembleia na sexta-feira, 17, agora os funcionários serão desligados involuntariamente com benefícios bem menores.

    Segundo a Renault, além das verbas rescisórias normais, serão pagos dois salários extras que equivalem ao período de estabilidade de dois meses após a adoção de jornada prevista na MP 936. A empresa concederá vale-mercado integral só até outubro próximo e o plano de saúde para titular e dependentes será garantido até dezembro. Também será oferecido um programa de orientação para a recolocação.

    Desde o início da crise instalada pela pandemia de coronavírus, a Renault está entre as marcas que mais perderam vendas e vem enfrentando resistência do sindicato e de seus trabalhadores em aprovar ajustes para adequar a produção da fábrica ao Paraná à realidade de demanda reduzida que, na avaliação da empresa, deverá perdurar por longo tempo. Sem acordo, a empresa decidiu impor suas necessidades.

    ESTRATÉGIA GLOBAL DE CORTES DE CUSTOS



    A Renault acrescenta ainda que o enxugamento do quadro de funcionários e da produção na fábrica do Paraná “também está alinhada com projeto de redução de custos anunciado pelo Grupo Renault em maio”, que envolve cortes de € 2 bilhões nos próximos três anos, com a diminuição da capacidade global de produção de 4 milhões para 3,3 milhões veículos/ano, fechamento de fábricas e demissão de 15 mil pessoas no mundo (4,6 mil só na França).

    A empresa é a segunda montadora a anunciar demissões desde o início da crise da pandemia de coronavírus. A primeira foi justamente sua sócia de Aliança, a Nissan, que também adota programa global de cortes de custos e em 22 de junho anunciou o fechamento de um dos dois turnos de produção na fábrica de Resende (RJ), com a demissão de 398 pessoas.