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Afinal, o que é mobilidade urbana?

Sociedade | 14/03/2021 | 16h30

Afinal, o que é mobilidade urbana?

Sete especialistas contam qual é a importância do tema mesmo em um contexto pandêmico e tratam dos desafios brasileiros

GIOVANNA RIATO, AB



Nos últimos anos as discussões sobre mobilidade ganharam espaço nos espaços mais inusitados. De repente, grande parte das empresas quer oferecer soluções de mobilidade. E não faltam razões para o interesse repentino.

Há uma convergência de movimentos em torno do assunto: o avanço do debate sobre cidades inteligentes; a revolução tecnológica da indústria automotiva, que precisa fazer produtos cada vez mais eletrificados e automatizados; a mudança do comportamento das pessoas; a pressão de governos e órgãos públicos por soluções mais sustentáveis; a explosão de startups de compartilhamento de carros e de corridas – o tal do ride-hailing.

No centro de tudo, a mobilidade virou um tema de interesse geral. Empresas dos mais diversos segmentos passaram a, orgulhosamente, se autodenominar provedoras de soluções para esta área. São fabricantes de veículos, instituições financeiras, desenvolvedores de tecnologia: todo mundo quer um lugar ao sol no promissor mercado em ascensão.

Já que a proposta do Mobility Now é justamente tratar das novas oportunidades para desenvolver negócios e soluções para a mobilidade, adequadas à realidade brasileira, a reportagem convidou sete especialistas no assunto, com diversas bagagens e pontos de vista, para explicar, afinal, o que é mobilidade e porque é importante tratar do tema neste momento:




O QUE É MOBILIDADE?



Afinal, do que falamos quando falamos de mobilidade? Para uma palavra usada com tanta frequência, uma série de significados e conceitos possíveis. Vitor Del Rey, cientista social, pesquisador da mobilidade na FGV (Fundação Getúlio Vargas) e presidente do Instituto Guetto, traz contexto ao termo:

“Mobilidade urbana é a oferta de deslocamento em segurança, conforto e solidez, de pessoas e bens na cidade. O objetivo é desenvolver atividades econômicas e sociais em regiões de aglomeração urbanas”, diz Del Rey.



A consultora e diretora da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), Silvia, concorda e acrescenta que, no contexto das cidades, o conceito engloba todo e qualquer movimento das pessoas, com qualquer tipo de modal e até a pé, sem nenhum veículo.

Segundo ela, mais recentemente ganhou força a discussão da mobilidade urbana sustentável, que acrescenta à esta busca principal o foco em redução do impacto ambiental. “Todas as soluções e modais de transporte são permitidas dentro deste escopo”, diz.

Para Rodnei Bernardino de Souza, diretor do negócio Veículos no Itaú Unibanco, a mobilidade é o que garante o funcionamento do mercado de trabalho, da logística, além de permitir o acesso das pessoas aos lugares em seus momentos de lazer.

“Com o avanço dos debates em torno do tema, a procura por novas soluções como alternativa ou complemento para o deslocamento das pessoas vem evoluindo nos últimos anos, sobretudo nos grandes centros urbanos”, diz o executivo do Itaú Unibanco.



Entre os exemplos, estão as soluções oferecida pela própria instituição financeira, que desde 2011 tem um serviço de bicicletas compartilhadas em diversas capitais brasileiras e, no fim de 2020, anunciou a chegada do Vec Itaú, sistema de carros elétricos compartilhados em São Paulo, que começa a rodar em fase de testes neste ano.

MOBILIDADE É FERRAMENTA PARA ACESSAR OPORTUNIDADES



Para Jessica Lima, doutora em Engenharia de Transportes e professora da Ufal (Universidade Federal de Alagoas), mais do que o deslocamento de um ponto a outro, mobilidade significa acesso a oportunidades.

“Não nos deslocamos por pura e simples vontade. Ao ir de um lugar e ir para outro queremos acessar oportunidades de lazer, de trabalho, de educação... Por isso, no contexto urbano, precisamos trabalhar estes dois conceitos em paralelo: o da mobilidade e o da acessibilidade”, esclarece Jessica.



Mateus Silveira, head de inovação de produto, infoentretenimento e conectividade da Stellantis para a América do Sul, concorda que a circulação nas cidades está intimamente ligada ao acesso:

“Gosto muito do conceito de Leonardo da Vinci, que dizia que as cidades são organismos vivos nos quais pessoas e bens materiais precisam circular para manter a saúde urbana. Pessoas e bens precisam se mover para garantir a efervescência de oportunidades que faz uma cidade prosperar”, analisa Silveira.



O presidente da SAE Brasil, Camilo Adas, traz mais abrangência à discussão. Ele lembra que a possibilidade de ir de um ponto a outro é o que conecta e une as pessoas. “O movimento é inerente à vida. A mobilidade é a ação prática que nos permite viver”, diz.

EM PLENA PANDEMIA, TEMA GANHA RELEVÂNCIA



Há um consenso entre os especialistas: mesmo no contexto pandêmico, tratar da mobilidade nas cidades é um tema essencial para o Brasil. “É provável que o conceito de mobilidade nunca tenha sido tão evidente quanto agora”, diz Silveira, da Stellantis.

“A pandemia e o isolamento social estão provocando mudanças profundas na circulação de pessoas e de mercadorias. A discussão em torno da mobilidade ganhou uma escala que vai além do planejamento urbano, incorporando uma dimensão geopolítica e dando visibilidade à interdependência entre os países”, aponta o executivo.



Adas, da SAE Brasil, lembra que o momento traz para a mobilidade o desafio global da mudança climática, já que o transporte é responsável por perto de 25% das emissões de gases do efeito estufa. E, neste aspecto, o Brasil tem uma vantagem: “A nossa matriz energética está entre as mais renováveis entre vários outros países. Discutir o tema no Brasil é fundamental para manter nossa indústria como parte atuante no jogo global”, diz.

Jessica, professora da Ufal, lembra ainda que o Brasil tem um histórico de falhas no desenvolvimento de um sistema de mobilidade – algo que pode começar a ser corrigido agora. “Somos um País muito desigual que, nos últimos 50 ou 60 anos, pautou a discussão sobre mobilidade quase exclusivamente no automóvel, o que agravou mais a situação”, diz. Segundo ela, o movimento reforçou a falta de acesso a oportunidades que as pessoas com renda mais baixa já enfrentavam.

Fabio Kon, pesquisador do tema e professor de Ciência da Computação da USP (Universidade de São Paulo) diz que corrigir este desequilíbrio é a questão mais urgente envolvendo a mobilidade neste momento:

“A prioridade deve ser na melhoria da infraestrutura para as camadas mais desfavorecidas da população, que é justamente a que gasta mais tempo e parcela maior dos seus recursos para se locomover”, diz Kon.



O momento é este, avalia Jessica: há uma série de municípios no Brasil que devem ter urbanização acelerada nos próximos anos. “É a hora de pensar neste aspecto de como as cidades vão crescer, de que forma os fluxos de deslocamento de pessoas vão acontecer. Precisamos evitar que isso se desenvolva de forma caótica e desordenada”, diz.

Para isso, a especialista recomenda combinar no desenho das cidades um contexto favorável ao deslocamento não motorizado e um transporte de massa efetivo e sustentável. “Precisamos priorizar a mobilidade ativa, como a caminhada e a bicicleta, seguida do transporte público de massa, de carga e, por fim, automóvel”, avalia. Segundo ela, este pe o caminho para escalar o potencial da mobilidade de gerar acesso às oportunidades no Brasil. Uma receita desafiadora, mas promissora.



Tags: mobilidade, transporte, oportunidade, mobilidade urbana, mobilidade inclusiva.

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