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Mobilidade elétrica não é só questão tecnológica, mas também política
Para participantes do evento, mobilidade elétrica exige mais do que a simples eletrificação da estrutura atual

Conjuntura | 19/03/2021 | 12h42

Mobilidade elétrica não é só questão tecnológica, mas também política

Especialistas debateram políticas públicas, mudanças de cultura e previsões para o futuro em evento do Fundep em parceria com o InovaBra Habitat

VICTOR BIANCHIN, AB



Mais do que um desafio tecnológico, a ascensão da mobilidade elétrica é uma questão política. Esta foi uma das conclusões de debate realizado pela Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep) em parceria com o InovaBra Habitat na quinta-feira, 18.

O encontro reuniu quatro especialistas para debater o futuro dos carros elétricos no Brasil: Eduardo Javier Muñoz, CEO da Bravo Motor Company, Erwin Franieck, mentor de pesquisa, desenvolvimento e inovação na SAE Brasil, Gábor Deák, diretor de tecnologia do Sindipeças (entidade que representa os fornecedores de autopeças e componentes) e Braz de Jesus Cardoso Filho, professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A moderação ficou a cargo de Janayna Bhering Cardoso, executiva de Negócios e Parcerias da Fundep.

O HORIZONTE PARA A REDE DE RECARGA E O CONSUMO DE ENERGIA



Entre os temas em debate, estavam algumas preocupações práticas com o novo cenário. “A primeira coisa que podemos esperar é uma mudança no perfil do consumo de energia”, afirmou Braz Cardoso. “É razoável imaginar que o consumo cresça com os veículos elétricos. Imagino que a gente pague valores diferentes pela energia elétrica em diferentes horas do dia, desincentivando o consumo em determinadas horas”, projetou. Gábor Deák reforçou que, mais do que técnica, a questão é política:

“Antes de mais nada, é preciso haver um posicionamento nacional, envolvendo todos os setores interessados, para definirmos um programa de como crescer homogeneamente”, defende.



Segundo o especialista, sem uma política abrangente para a mobilidade elétrica, a situação será de “crescimento espasmódico, com avanços em alguns lugares e em outros não”.

Muñoz disse que não prevê a conversão dos postos de combustível atuais em estações de carregamento elétrico porque faz muito mais sentido ter estes novos pontos em locais de estacionamento.

“É importante começar a entender que a mobilidade elétrica não é a eletrificação da mobilidade que temos hoje”, afirma.



E complementa: “É outra tecnologia e, portanto, precisa de tratamento diferente. Será uma mudança de cultura, é o equivalente à chegada dos smartphones na comunicação”, comparou ele. O CEO ainda afirmou que a eletrificação é uma questão de saúde pública. “Nós temos 8 milhões de mortos por contaminação do ar no mundo por ano”, lembrou.

QUESTÃO LEGISLATIVA



Uma das grandes preocupações dos especialistas é como o governo deve tratar a legislação a respeito dos carros elétricos. “Temos que olhar pro Brasil de modo diferente de como olhamos para o mundo porque aqui já temos um equilíbrio de carbonização bem definido”, afirmou Erwin Franieck. “Os incentivos para a eletrificação devem respeitar as características que o país tem. Precisamos levar em conta o etanol e o biodiesel. Por isso, vejo que precisamos criar um marco regulatório que mostre o caminho para todos que estão nesse jogo”, argumentou ele.

Eduardo Muñoz frisou a importância de políticas de incentivo. “O ideal é o que a Califórnia fez ao subsidiar a eletrificação e penalizar a as atividades mais poluentes”, afirmou.

“Acredito que países como o Brasil precisam se concentrar em liberar tributos. A única forma que nós temos de promover a atividade é deixar de taxá-la para que possa concorrer de uma forma mais justa. E seria importante começar a penalizar as emissões”, elencou.



Gábor Deák pediu cuidado com o discurso de que toda a mobilidade será eletrificada. “A previsão é de que, por volta de 2040, você tenha metade dos países eletrificados e metade com outras soluções. Existe mercado para ambas as opções”, disse, afirmando que os veículos elétricos atualmente atendem apenas as demandas por distâncias curtas.

“Há atividades em que a eletrificação é um problema sério. Nós somos um país continental e precisamos transportar mercadorias por todo o território. A autonomia do veículo elétrico não atende”, diz Deák.



A fala do especialista defendeu a preservação do setor de mobilidade a combustão, que é consolidado no Brasil. “Na Europa, a tendência é a eletrificação, mas não acho que as montadoras e as autopeças estejam contentes, elas estão sofrendo uma imposição do governo. O que nós defendemos no Brasil são mudanças ordenadas visando autonomia, emprego, custo, mão de obra e tudo mais”, afirmou.

Os painelistas do evento concordam que é necessária uma parceria bem definida entre o governo e entidades privadas para impedir que o mercado de elétricos cresça de forma desordenada.

O evento completo está disponível no YouTube:



Tags: mobilidade, eletrificação, carro elétrico, política, legislação, duardo Javier Muñoz, Bravo Motor Company, Erwin Franieck, SAE Brasil, Gábor Deák, Sindipeças, Fundep.

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