Automotive Business
  
News Mobility Now

Mobility Now

Ver mais notícias
E se carros autônomos rodassem na avenida Paulista? Simulador mostra impacto da tecnologia

Mobilidade | 20/07/2021 | 18h25

E se carros autônomos rodassem na avenida Paulista? Simulador mostra impacto da tecnologia

Software criado na USP e já usado pela CET pode orientar decisões sobre novas linhas de metrô, ciclovias e tráfego de carros

NATÁLIA SCARABOTTO, AB



Qual seria o impacto no trânsito da Avenida Paulista, uma das principais vias de São Paulo, se existisse uma faixa exclusiva para carros autônomos? Essa possibilidade é estudada por cientistas da USP a partir de um simulador de mobilidade urbana. Com a ferramenta é possível avaliar também o impacto de novas linhas de metrô, ciclovias e diversas possibilidades para o trânsito em grandes cidades.



O InterSCSimulator é um código aberto para prever cenários de cidades inteligentes em grande escala. O software funciona a partir da inserção de dados sobre uma determinada cidade (como o mapa das ruas de São Paulo) e dados complementares sobre o deslocamento de cada tipo de veículo, trânsito e população. Com todas essas informações em códigos, o simulador consegue determinar quais impactos de mudanças para o tráfego, melhores rotas de viagem, locais congestionados, entre outras funções.

AUTÔNOMOS PODEM REDUZIR EM 50% O TEMPO DE DESLOCAMENTO



Em parceria com o MIT - Massachusetts Institute of Technology, os pesquisadores da USP simularam a criação de uma faixa exclusiva para carros autônomos na Avenida Paulista. Os resultados mostram que, apenas com essa medida, seria possível reduzir em 50% o tempo de deslocamento para ir de uma ponta a outra da via.

Tornar isso realidade, no entanto, seria complexo. A significativa redução do tempo da proposta dependeria de algumas mudanças importantes: criação de faixa exclusiva para autônomos, inteligência dos veículos para andarem em pelotões e sincronização do tempo de todos os semáforos da avenida.

O professor de Ciência da Computação da USP Fábio Kon, um dos envolvidos no projeto, conta que o simulador da USP foi criado para estudar como a computação pode melhorar a vida e a mobilidade urbana nas grandes cidades.

“Entendemos que o simulador é importante para reproduzir o comportamento da mobilidade na cidade para fazermos experimentos e desenvolvermos ideias. Não seria possível colocar sistemas na cidade inteira, teria um custo enorme e precisaria de milhares de pessoas controlando o software. Com a tecnologia podemos fazer tudo usando computadores dentro da universidade.”



Segundo Kon, o maior diferencial do software em relação aos programas similares disponíveis no mercado é a sua capacidade de suportar uma grande base de dados, como a movimentação de 14 milhões de pessoas em São Paulo, que os pesquisadores utilizam atualmente.

“A simulação de bicicletas é rápida porque são alguns milhares, mas para simular o deslocamento de milhões de pessoas precisamos de um computador de alto desempenho que aguente uma base de dados tão grande. Demoramos 12 horas pra simular um dia na cidade de São Paulo”, explica o professor.

SIMULADOR PODE ORIENTAR DECISÕES DA CET



Em parceria com a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET), o simulador foi implementado para analisar a mobilidade urbana de bicicletas em São Paulo, por meio de dados sobre o perfil de ciclistas.

O estudo fez uma comparação entre as viagens da Pesquisa Origem Destino 2017 e as contagens de fluxos de bicicletas realizadas pela CET. Também podem ser utilizadas informações de outras bases de dados, como o Bike Sampa e da Yellow.

Um dos resultados mostra que as vias com mais viagens de bicicletas de São Paulo são a avenida Brigadeiro Faria Lima (bairro Pinheiros) e o cruzamento entre a avenida Santos Dumont com a rua Rodolfo Miranda (bairro Bom Retiro) com mais de 4.500 viagens. Além disso, foi possível entender também que 50% dos ciclistas percorrem distâncias por volta de 3 km, com mediana de 20 minutos.

Os resultados foram publicados em um artigo científico, mas a colaboração pode continuar. Segundo explica Kon, a CET já possui um simulador comercial, mas tem interesse no programa da USP que pode ser utilizado para testar a viagem de milhões de pessoas por dia.

Por enquanto, o sistema só pode ser utilizado por programadores, mas para os próximos meses deve ganhar uma versão interativa para qualquer pessoa acessar e fazer suas próprias simulações com mobilidade urbana de bicicletas em São Paulo.

CIÊNCIA DEVE ORIENTAR POLÍTICAS DE MOBILIDADE



Se uma faixa exclusiva para carros autônomos ainda parece um pouco distante da realidade, o professor Kon ressalta que o simulador é uma ferramenta importante que pode orientar políticas públicas mais palpáveis, como a construção de uma nova linha de metrô ou a criação de uma nova faixa de ônibus.

“O software pode auxiliar o gestor público tomar decisões mais inteligentes em políticas de mobilidade. Por exemplo, quando São Paulo for construir uma nova linha metrô é possível analisar os impactos de diferentes propostas a decisão com base científica e não apenas no ‘chutômetro’ como muitas vezes é feito hoje”, explica o especialista.



Fábio Kon ressalta que é essencial que o Brasil desenhe políticas de mobilidade baseadas em critérios científicos. “Em vários outros países, os cientistas estão atrelados à gestão da cidade para ajudar nas decisões e temos batido nessa tecla aos poucos aqui no Brasil também porque hoje as políticas públicas são pautadas mais pensando no que vai ser melhor para eleger um político. Temos que mudar essa mentalidade.”



Tags: Mobilidade urbana, simulador, bicicletas, carros autônomos, trânsito, políticas públicas, tráfego.

Veja também

Mobility Now