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Internacional | 21/05/2013 | 15h30

Autopeças sob pressão da globalização na Colômbia

Abertura econômica do país ameaça indústria local em busca de competitividade

PEDRO KUTNEY, AB | De Bogotá, Cali e Medellín (Colômbia)

“O TLC (tratado de livre comércio) com a Coreia não trabalha para mim.” Afixada na porta da gerência de uma fábrica na região metropolitana de Medellín, segunda maior cidade da Colômbia, a frase resume o sentimento do setor automotivo colombiano em relação à contínua abertura comercial do país – no caso, o acordo com a Coreia é o 15º entendimento bilateral firmado, que prevê a redução constante de impostos de importação no horizonte de dez anos. O dono da sala que expõe o pensamento é Andrés Pérez Linaza, gerente geral da Faaca, que fornece anualmente 110 mil sistemas de ar-condicionado automotivo, 70% deles para montadoras na Colômbia e no vizinho Equador. “Nunca dissemos ao governo que não queremos competir com outros países, mas precisamos fazer isso em condições iguais”, explica Linaza. Ele enfatiza a falta de incentivos oficiais à indústria, câmbio desfavorável (o peso é a moeda que mais se valorizou sobre o dólar em anos recentes) e logística desvantajosa, “que elimina qualquer benefício com fretes caros e estradas ruins”.

A indústria de autopeças da Colômbia é a terceira maior da América Latina, ficando atrás só do Brasil e México. Estão presentes alguns fornecedores globais, como Michelin, Goodyear, Dana, Yazaki, Saint Gobain e Johnson Controls (que comprou participação na colombiana MAC, maior fabricante de baterias da América do Sul). Também existem grandes grupos nacionais, como Fanalca, Faaca, Multipartes e Chaid Neme. Mesmo assim, estão ainda longe de atender a demanda da produção nacional, com montadoras que trabalham em média com apenas 35% de componentes nacionais (o mínimo legal exigido).

Embora o mercado colombiano tenha dobrado de tamanho em meia década, com grande potencial de crescimento futuro devido ao baixo índice de motorização (apenas 78 veículos por mil habitantes, contra 198 por mil no Brasil), o volume ainda é baixo, somou 316 mil unidades emplacadas em 2012, das quais apenas 35% foram montadas na Colômbia, os outros 65% foram importados – outro resultado da abertura comercial. As exportações também não decolaram: da produção de 150 mil veículos no ano passado, só um quarto foi exportada. Portanto, as montadoras locais compram pouco dos fabricantes de autopeças nacionais, porque produzem pouco com grande quantidade de itens estrangeiros.

Em 2012, as vendas diretas às linhas de montagem de cerca de 40 fornecedores instalados na Colômbia somaram US$ 576 milhões – a maior compradora foi a General Motors, com US$ 311 milhões e 54% do total, seguida pela Renault, com US$ 155 milhões e 27%. Mas as linhas de montagem colombianas importam quatro vezes mais, em torno de US$ 4 bilhões, para fazer seus veículos – boa parte dessas peças, US$ 1,2 bilhão em 2011, vem de zonas francas instaladas dentro de fábricas na própria Colômbia.

O mercado de reposição é importante, gira em torno de US$ 1,5 bilhão em peças por ano. As exportações de componentes estão estáveis nos últimos anos e totalizaram US$ 460 milhões no ano passado, grande parte para o aftermarket – principalmente pneus da Michelin e Goodyear, ambas instaladas em Cali, que representam quase metade das vendas externas do setor. O maior cliente é o Equador, com 25% dos negócios, e o Brasil é o segundo, com 18%.

AMEAÇA EXTERNA

“A abertura comercial está nos destruindo. A Argentina protege seu mercado, o Brasil também, nós não, abrimos para todo mundo. Isso mata a indústria e o país está compensando o déficit na balança comercial com exportações de petróleo e minérios”, avalia Fernando Reyes, vice-presidente de engenharia da Fanalca, grupo com diversas operações no setor automotivo em Cali, Bogotá e Medellín, incluindo montagem de motos Honda, carrocerias de ônibus Superpolo (em associação com a brasileira Marcopolo), além do fornecimento de grandes partes estampadas e sistemas de ar-condicionado.

“Para quem como nós tem o negócio focado no fornecimento direto às fábricas de veículos a situação atual é a mais difícil que já vivi em 40 anos neste setor. Para as montadoras é mais simples, basta importar, já para os fornecedores a situação é complicada”, completa. Reyes cita o caso da maior compradora de peças da Colômbia e também líder de mercado, a General Motors, que domina 27% das vendas de carros na Colômbia, mas reduziu a produção de 87 mil veículos em 2011 para 64 mil em 2012 e as encomendas indicam pouco mais de 40 mil este ano. A empresa demitiu recentemente cerca de 450 empregados e atualmente opera em um só turno de produção.

“No cenário atual, podemos chorar ou fabricar lenços. Queremos fabricar os lenços”, resume Camilo Angulo, da Acolfa, associação de fabricantes de autopeças que reúne 40 fornecedores diretos das montadoras, 63% deles localizados na região de Bogotá. “A abertura comercial é preocupante, mas nos traz a obrigação de evoluir para uma indústria de classe mundial. A salvação para o setor automotivo da Colômbia é exportar, precisamos abrir nichos de exportação, porque só o mercado interno não nos sustentará”, avalia. “Temos um programa de exportações já há dois anos, mas sem incentivos e financiamento de longo prazo é difícil progredir. Hoje só exportamos 10% de nossa produção de autopeças”, contrapõe Reyes, da Fanalca.

“Temos chances de exportar para ajustar os volumes que podem faltar em outros mercados emergentes”, avalia Linaza, da Faaca, uma joint venture entre grupos empresariais da Colômbia e Venezuela. “Temos preço, mas a questão logística é complicada. Precisamos superar esse problema para aumentar exportações”, opina Carlos Lodoño, gerente comercial da Multipartes, empresa de 45 anos de controle familiar localizada em Cali, que tem no portfólio automotivo mais de 2 mil itens, principalmente faróis, lanternas e retrovisores para carros, ônibus e motos.

A Multipartes reflete bastante bem o que acontece com a maioria dos fabricantes colombianos de autopeças. Cerca de 35% do faturamento vem do fornecimento direto às linhas de montagem e o resto vem do mercado de reposição, incluindo exportações para 11 países. “Vemos na reconversão industrial das montadoras (leia aqui) uma oportunidade de aumentar o fornecimento direto, mas para isso precisamos desenvolver engenharia local e criar homologação internacional dentro do país, que hoje é feita fora”, diz Lodoño.

BUSCA DE COMPETITIVIDADE

Até o fim desta década, os fabricantes de autopeças colombianos querem dobrar os negócios externos do setor para US$ 1 bilhão, com a ampliação dos embarques para todos os países americanos, incluindo o aftermarket do Brasil, Estados Unidos, México e Argentina. Para isso, boa parte das apostas do governo está em seu Programa de Transformação Produtiva, desenvolvido pelo Ministério do Comércio, Indústria e Turismo da Colômbia, que começou a ser colocado em prática em 2011, com investimentos da ordem de US$ 250 milhões, basicamente para melhorar a formação profissional e promover inovação tecnológica.

Este ano começou a ser montado o Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Indústria Automotiva (CDTIA), que terá laboratórios, pista de provas e centro administrativo em Cali, onde antes funcionava um antigo hipódromo. O investimento de US$ 60 milhões será financiado com incentivos fiscais e pelas empresas interessadas, montadoras e fornecedores reunidos na Acolfa e Andi, a associação dos empresários colombianos. Com custos divididos entre os sócios, a meta é dar poder de desenvolvimento local e homologação ao setor automotivo nacional, reunindo sob o mesmo teto pesquisadores e técnicos de empresas, universidades e instituições nacionais e internacionais.

Para este ano o CDTIA já tem três projetos em andamento. O primeiro deles é a construção do centro de homologação e provas, patrocinado pela GM e pela fabricante de baterias MAC. O segundo é o desenvolvimento local de ferramental matriz para estamparia (hoje 70% são importados), liderado pelos fornecedores Fanalca e Trimco e a própria Acolfa. O terceiro é o protótipo de um ônibus elétrico para rodar nos corredores urbanos, que tem como patrocinador principal a MAC. Outras 25 propostas estão na fila, com perspectiva de desenvolvimento no médio prazo.

Esta é a quarta da série de cinco reportagens especiais sobre a indústria automotiva colombiana preparadas com exclusividade para o Brasil por Automotive Business. Entre os dias 28 de abril e 4 de maio de 2013 o jornalista Pedro Kutney viajou ao país a convite da Proexport Colômbia, para realizar visitas às principais fábricas de veículos e autopeças, além de encontros com executivos e representantes de entidades empresariais e agências locais de desenvolvimento.

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Tags: Colômbia, indústria, autopeças, montadora, fábricas, investimento, veículos.

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