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Fábrica de Resende e Consórcio Modular completam 25 anos de uma ideia revolucionária
Linha de produção da VWCO em Resende: operação compartilhada com oito fornecedores

VWCO 40 ANOS | 14/04/2021 | 13h00

Fábrica de Resende e Consórcio Modular completam 25 anos de uma ideia revolucionária

Parceria com fornecedores viabilizou novo conceito de produção e garantiu sustentação ao crescimento da Volkswagen Caminhões e Ônibus

PEDRO KUTNEY, AB

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“Sucesso é o triunfo da colaboração.” A frase de Luis Pasquotto, presidente da Cummins Brasil, define o bem-sucedido modelo de produção do Consórcio Modular, que há 25 anos uniu a Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) e seus principais fornecedores na fábrica de Resende (RJ), inaugurada em novembro de 1996. Pasquotto participou dessa “história de sucesso da colaboração” em todos os seus quase 30 anos na Cummins, fornecendo motores para a Powertrain, uma empresa em sociedade meio a meio com a concorrente MWM, criada especialmente para montar o trem-de-força nos veículos dentro da linha da VWCO.



Este texto faz parte da série especial de reportagens sobre os 40 anos da Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO)
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Unindo o fabricante com fornecedores e compartilhando atividades, a VWCO conseguiu viabilizar investimentos que dificilmente faria sozinha. Dessa forma, garantiu seu futuro que parecia bastante incerto no fim de 1994, quando foi encerrada a sociedade entre Ford e Volkswagen na Autolatina envolvendo as operações das duas empresas no Brasil e na Argentina. Na época, as unidades industriais de cada uma regressaram ao controle de seus respectivos donos originais, mas a VWCO ficou sem fábrica, pois desde 1990 compartilhava a mesma linha de produção de caminhões da Ford na antiga planta do Ipiranga, em São Paulo. A VWCO seguiu fabricando seus veículos lá, mas precisava pagar à ex-sócia por unidade produzida.

Foi então que, a partir de uma cisão, o conceito de união e parceria foi elevado a um nível jamais visto antes na indústria automotiva global. Em um processo decisório de rara rapidez no setor, apenas alguns meses depois do fim da Autolatina a VWCO arrumou não um, mas sete sócios, todos já antigos fornecedores, para construir uma nova fábrica, compartilhar suas tecnologias e participar de um inédito processo de produção no Consórcio Modular, planejado e inaugurado em apenas dois anos.


Roberto Cortes, presidente da VWCO: um dos arquitetos do Consórcio Modular

Roberto Cortes, hoje presidente da VWCO, com o fim da Autolatina podia escolher entre voltar para a área financeira de sua empresa de origem, a Ford, ou ficar na Volkswagen e embarcar num projeto totalmente inédito de uma fábrica de caminhões que ainda estavam se consolidando no mercado. A opção foi por abraçar o desafio e ajudar a criar um empreendimento sem precedentes no setor, que de tão bem-sucedido e inusitado, 25 anos depois, ainda gera muita curiosidade e muitos convites para Cortes dar palestras e aulas inaugurais para falar sobre o Consórcio Modular, em instituições como as universidades de Cornell, Oxford, Columbia, MIT, Insper e FGV..

“Fizemos tudo a partir de um papel em branco. Participei desde a concepção até a implantação do Consórcio Modular. Na minha área financeira o objetivo foi fazer tudo com pequena exposição da empresa e baixo custo. Os especialistas em produção desenharam o modelo da fábrica e os especialistas em compras escolheram os parceiros. O mais importante é que conseguimos colocar o sistema para funcionar e provamos que deu certo”, recorda Roberto Cortes.



Patrocínio


UMA NOVA FÁBRICA A TOQUE DE CAIXA



O inédito modelo de produção que envolvia os fornecedores na montagem dos veículos foi apresentado pelo então vice-presidente global de compras e produção da Volkswagen, o engenheiro basco José Ignacio López de Arriortúa – acusado de roubar planos parecidos da época em que trabalhou na General Motors. O fato é que até então ninguém tinha tentado nada parecido, por isso surpreende a rapidez com que tudo foi planejado e realizado.


A construção da fábrica de Resende e a planta nos dias de hoje: impulso produtivo à VWCO

Em junho de 1995 o local da nova fábrica já estava escolhido e contratado, com terreno e infraestrutura oferecidos sem custos pelo município de Resende, na região Sul-Fluminense do Rio de Janeiro, que também concedeu isenções fiscais em conjunto com o Estado.

Tudo correu a toque de caixa: já em 1º de novembro do mesmo ano, em um galpão alugado junto ao terreno da futura planta, foi instalada uma linha de montagem provisória para testar os fluxos e treinar processos a serem aplicados na nova unidade, já em trabalho conjunto com alguns dos fornecedores que iriam se integrar ao Consórcio Modular.


A linha de produção provisória para testar o Consórcio Modular em 1995 e a inauguração da fábrica de Resende em 1996: apenas um ano de construção

Apenas um ano depois a fábrica estava inaugurada e operante, com capacidade para montar 30 mil veículos/ano – que subiu para 50 mil em 2005 e 100 mil/ano a partir de 2008. Nos primeiros 10 anos de operação foram fabricados 300 mil caminhões e chassis de ônibus em Resende, mais que o dobro de tudo que a empresa fez em seus primeiros 15 anos nas fábricas de São Bernardo do Campo e depois no Ipiranga com a Ford na Autolatina.

SALTOS PRODUTIVOS



Desde seu primeiro ano de atividade a planta de Resende e todos os sócios do Consórcio Modular vêm registrando avanços exponenciais de produção e do número de modelos, com ampliações e modernizações a cada nova família de produtos.

A capacidade saltou de 30 mil para 50 mil/ano em 2005, quando entraram em produção as linhas de caminhões leves Delivery e os semipesados e pesados Constellation. O potencial avançou para 100 mil/ano a partir de 2008, seguindo o crescimento da demanda do mercado brasileiro – o pico produtivo ocorreu em 2011, com 83,1 mil caminhões e chassis de ônibus produzidos.


O milionésimo caminhão produzido em 40 anos: 870 mil foram em Resende

No fim de 2020 a VWCO somou mais de 1 milhão de veículos produzidos em sua história, sendo cerca de 870 mil em Resende. O marco foi alcançado junto com o início da produção de mais uma nova família de caminhões, desta vez os extrapesados Meteor, que trouxeram investimentos da ordem de R$ 500 milhões para ampliar e modernizar a fábrica, que entrou na era da Indústria 4.0, com adoção de modernas tecnologias de manufatura digital que automatizaram a maioria dos processos, todos interconectados em rede de dados.


Linhas de produção de Resende: modernizações trouxeram mais automação de processos

Com a chegada dos Meteor, a área de armação das cabines recebeu mais de 70 novos robôs, somando 130, e assim todo o processo de 2,8 mil pontos de solda foi 100% automatizado. Pouco antes de sair da pintura, cada cabine recebe um chip de identificação que transmite para a rede de controle de manufatura em nuvem todas as etapas do processo de montagem de cada unidade. Na linha de montagem, as cabines agora são transportadas por carrinhos AGVs, guiados automaticamente por faixas magnéticas no chão e interconectados pelo sistema de manufatura 4.0.

RELACIONAMENTO ÍNTIMO PRODUTIVO



Adilson Dezoto começou trabalhando no galpão de testes e está na planta de Resende desde o dia um da inauguração, na época como empregado da Maxion, um dos participantes do Consórcio Modular que fornece os componentes estruturais e monta os chassis dos caminhões e ônibus fabricados em Resende. O engenheiro foi contratado pela VWCO em 1998 e hoje é vice-presidente de produção e logística e membro do board de direção da empresa, tendo acompanhado cada ano de operação e evoluções da fábrica.


O vice-presidente de produção e logística Adilson Dezoto: desde o dia um na fábrica de Resende

“O Consórcio Modular mudou o modelo de se fazer fábricas, até hoje nunca copiado integralmente. Construímos em Resende uma fórmula ideal para empresas não verticais. Conseguimos produzir com baixos custos e qualidade equivalente aos melhores exemplos do grupo. Dividimos os processos com os fornecedores, que passaram a ser parceiros não só para nos vender componentes, mas para trazer suas tecnologias para dentro da operação”, destaca Adilson Dezoto.



“Não se trata mais de uma relação entre fornecedor e cliente. Fomos fornecedores desde o primeiro caminhão em 1981. Depois de 1995 nos tornamos parceiros de negócios. Nossa empresa não tem nenhuma parceria nesse nível em qualquer outro lugar do mundo. Até surpreende o fato de o modelo não ter sido replicado por ninguém até hoje, porque é uma fórmula vencedora”, relata Adalberto Momi, vice-presidente da Meritor América do Sul, que tem na VWCO o seu maior cliente na região, para o qual já foram vendidos mais de 1 milhão de eixos trativos.


Meritor tem área para montagem de eixos no parque de fornecedores de Resende

A Meritor participa do Consórcio Modular desde os primeiros testes de produção no galpão montado em 1995. Hoje a empresa mantém 200 empregados alocados diretamente na operação da VWCO em Resende, que além dos postos na linha de montagem de veículos, desde 2013 tem uma planta no parque de fornecedores em área vizinha à fábrica, onde já foram montados mais de 200 mil eixos.

A Maxion também é fornecedora desde os primeiros caminhões VW e tem o mesmo tempo de casa em Resende, onde hoje mantém 300 funcionários dedicados à montagem estrutural de chassis. “Temos um relacionamento de confiança que agrega valor para ambas as empresas. É um modelo sem semelhante com qualquer outro de nossos clientes, mas muito eficiente. A proximidade faz diferença, mitiga conflitos, agiliza soluções e permite adotar evoluções tecnológicas mais rapidamente”, afirma Renato Brighenti, vice-presidente de operações e vendas da Maxion Structural Components.

“Nossas empresas têm histórias parecidas, com origem na Alemanha e matriz no Brasil, tivemos de desenvolver aqui toda a nossa tecnologia. Participamos da história da Volkswagen Caminhões e Ônibus desde os primeiros veículos, em 1981. Já fornecemos mais de 600 mil motores e essa parceria só cresceu”, lembra José Eduardo Luzzi, presidente da MWM Motores, participante do Consórcio Modular desde sua inauguração em sociedade com a Cummins na Powertrain, que hoje tem 169 empregados dedicados à operação de Resende.


Produção do motor MAN D26 na MWM: contrato de manufatura para a VWCO

Mas a VWCO significa bem mais para a MWM: é o maior cliente da empresa, que compra perto de metade da produção da fábrica de Santo Amaro, em São Paulo, onde atualmente 375 dos 1,3 mil funcionários da empresa se dedicam à fabricação por contrato de manufatura dos motores MAN D08 (desde 2011) e D26 (desde o fim de 2020), que equipam exclusivamente caminhões e ônibus VW. A parceria tende a se estreitar ainda mais a partir do meio de 2021, quando está prevista a conclusão da aquisição da americana Navistar, proprietária da MWM, pelo Traton Group, holding à qual pertence a VWCO junto com MAN e Scania.

A VWCO também é o maior cliente da Cummins, que já forneceu mais de 400 mil motores à empresa e atualmente equipa com seus propulsores diesel perto da metade dos caminhões e ônibus produzidos em Resende. “Somos um exemplo de parceria bem-sucedida entre duas empresas inovadoras, que ajudou ambas a evoluir com agilidade. Nossa sociedade na Powertrain funciona muito bem e temos um bom futuro a explorar”, afirma Luis Pasquotto, presidente da Cummins.


Área de encaixe do trem-de-força: processo executado pela Powertrain, sociedade entre Cummins e MWM

JUNTOS, CADA UM NO SEU QUADRADO



“O Consórcio Modular pode ser visto como o Brasil e seus estados, cada um com seu território e suas especialidades”, compara Adilson Dezoto. “A montadora dá a visão de volumes e todos os parceiros atuam em suas áreas para atingir os objetivos”, resume. Segundo o vice-presidente de produção e logística, o modelo funciona desde o princípio há 25 anos em harmonia entre os participantes, com decisões colegiadas discutidas em reuniões constantes, ao menos uma vez por mês com a participação direta dos presidentes das empresas.

“Pessoas e empresas ficam juntas por tanto tempo porque se respeitam. Assim conseguimos criar com os parceiros uma cultura única voltada à excelência, qualidade e inovação”, afirma Dezoto. O Consórcio Modular criou um relacionamento sólido e longevo entre a VWCO e sete empresas em Resende (hoje são oito) e desde a inauguração em 1996 até agora houve apenas duas mudanças: em 2006 a Delga foi substituída pela Aethra na estampagem e armação de cabines; mais recentemente, em 2019, a Continental deixou a linha de montagem de cabines e em seu lugar entrou a Kroschu.

AS FUNÇÕES DE CADA EMPRESA DO CONSÓRCIO MODULAR VWCO

AETHRA – A empresa produz ferramentais e as chapas estampadas (prensadas) das cabines dos caminhões VW em sua fábrica de Belo Horizonte (MG), que de lá são enviadas para a armação de cabines (soldagem) em Resende. A Aethra também participa dos projetos da VWCO, desde a concepção de novos veículos, construção de protótipos e testes estruturais, bem como desenvolvimento de ferramentas de estamparia.

CARESE – A empresa do Grupo Einsenmann administra a área de pintura da fábrica de Resende, onde as cabines dos caminhões recebem tratamento anticorrosivo e são pintadas.


A cabine de pintura do Consórcio Modular de Resende: área administrada pela Carese

MAXION – A divisão de componentes estruturais do Grupo Iochpe estampa longarinas e travessas em Cruzeiro (SP), que são enviadas para montagem da estrutura de chassis na planta da empresa localizada no parque de fornecedores da VWCO em Resende. Os conjuntos são sequenciados conforme a ordem de produção e encaminhados para a fábrica ao lado, no primeiro posto da linha de montagem, onde funcionários da Maxion também agregam aos chassis dutos de fluídos de freios e combustível, antes de passar o veículo à próxima estação.

MERITOR – A empresa recebe eixos trativos pré-fabricados em Osasco (SP) e faz a montagem em sua planta no parque de fornecedores da VWCO em Resende, agregando partes de outros fornecedores como Suspensys, Freios Master, Dana e American Axle. Os kits traseiros e dianteiros são encaminhados de forma sequenciada à fábrica para montagem de eixos e suspensão nos chassis, agregando também todo o sistema de exaustão (escapamento), freios e cubos de roda.

POWERTRAIN – A sociedade entre Cummins e MWM fornece motores diesel fabricados por ambas aos veículos VW e na linha de Resende faz a montagem do trem-de-força, agregando aos chassis motor, transmissões (fornecidas por Eaton, ZF e Allison), sistema de arrefecimento (radiador) e chicotes elétricos.

REMON – Faz o fornecimento e montagem de rodas e pneus. É a segunda empresa na linha de Resende do Grupo Iochpe, que em 2012 criou a Maxion Wheels com a compra das fabricantes de rodas Fumagali (ex-Arvin Meritor) e da Hayes Lemmerz, então dona da Remon em sociedade com a Bridgestone/Firestone, participante do Consórcio Modular desde 1996.

KROSCHU – Em 2019 a empresa substituiu a Continental na operação de acabamento de cabines, agregando todos os equipamentos de fornecedores de bancos, revestimentos, volante, painel, eletrônicos e quadro de instrumentos, entre outros.


Área de montagem de cabines da Kroschu no Consórcio Modular de Resende

SUSPENSYS – A empresa do grupo Empresas Randon já era antiga fornecedora da VWCO. Em 2020, tornou-se a oitava empresa parceira do Consórcio Modular. A Suspensys recebe componentes de sua matriz em Caxias do Sul (RS) e faz em Resende a montagem de suspensões pneumáticas em uma área dentro da fábrica. Os conjuntos seguem sequenciados para a Meritor na linha de montagem, que os agrega aos eixos.



Tags: Volkswagen Caminhões e Ônibus, VWCO, 40 anos, história, indústria, fábrica, Resende, 25 anos, Consórcio Modular, investimentos, produtos, Grupo VW, Traton.

Comentários

  • Wanirde Souza

    OSr. Roberto Cortês apenas se esqueceu de mencionar que o projeto de “consórcio modular” adotado pela VW Caminhões à época se tratava de um projeto originário da GM e que foi “trazido” para a VW pelo Sr. José Ignacio López de Arriortua, mais conhecido como Iñaki Lopez, que foi alto executivo da área de compras da GM. Esse processo veio a ser adotado dentro do projeto Blue Macaw da GM, para a montaglgem da fábrica e a produção do Celta em Gravataí/RS. O “roubo” desse projeto pelo Sr. López, quando veio a se tornar o todo poderoso na VW do Brasil, gerou a sua demissão é um processo milionário, onde a VW teve indenizar a GM. Me recordo muito bem dessa história, pois no meu primeiro dia de trabalho na VW do Brasil, em 13 de dezembro de 1996, o Sr. igñaki López foi defenestrado.

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