O preço do carro é um valor direto, o primeiro a saltar aos olhos. Neste quesito, o carro a Diesel leva desvantagem, pois apresenta custo ligeiramente superior ao similar ciclo Otto (gasolina). O passo seguinte é calcular os custos operacionais (combustível e manutenção) e aí está o pulo do gato do motor Diesel: ele é mais econômico e durável. Isso significa que roda mais quilômetros por litro de combustível e seu motor é robusto.
Em relação ao consumo, automóveis a gasolina consomem em média 36% mais combustível que um modelo similar a Diesel com injeção direta de combustível, sistema Common Rail e controle eletrônico. Com álcool esse número sobe para 58%.
Os veículos convertidos para GNV apresentam consumo médio 37% maior quando comparados com os carros a Diesel, sendo que a conversão para o GNV gera perdas de mais de 10% nos valores de torque e potência dos motores, isso para não mencionar o espaço ocupado pelos cilindros, que normalmente encontram no bagageiro do veículo a sua colocação preferencial.
Os dados técnicos e valores citados são demonstrados nesta tabela, onde podemos, também, observar uma estimativa do custo (R$/100 km) para os diversos combustíveis:
Combustível Consumo l/100km
Diferença em consumo
Custo R$/l (5) Custo R$/100km
Vantagem
em custo
diesel(1) 5,8 Referência 2,010 11,66 Referência
gasolina(2) 9,1 + 36,0% 2,480 22,48 48,1%
álcool(3) 13,9 + 58,4% 1,388 19,35 39,8%
GNV(4) 9,2 + 37,0% 1,585 14,59 20,1%
(1) Mégane 1,5l dC (76 kW / 103PS) – Fonte: Leitfaden zu Kraftstoffverbrauch und CO2
(2) Mégane 1,6l 16V (82 kW / 112 PS) – Verband der International Kraftfahrzeugehersteller e.
V. – VDIK
(3) Fonte: NETZ Engenheiros Associados
(4) m³/100km – R$/m³ – dados comparativos de consumo
(5) Preço médio Brasil – período: de 28/06/2009 a 04/07/2009
Para se garantir a plausibilidade dos dados e chegar a esta conclusão, foram considerados os valores de consumo na Europa de um automóvel equipado com motor Diesel ou Otto e os preços dos combustíveis conforme valores oficiais da Agência Nacional de Petróleo (ANP).
Um frotista, que nestas circunstâncias roda 50 mil km por ano, gastaria R$ 5.830 com Diesel. Com gasolina, o custo subiria para R$ 11.240. No álcool, gastaria um pouco menos: R$ 9.675; enquanto no GNV, a conta ficaria mais próxima, porém, no caso, há o investimento inicial da adaptação do veículo e motor, que seria algo equivalente ao maior preço do carro Diesel.
Assim, hoje o carro Diesel seria financeiramente mais interessante para quem usa o carro de forma intensiva, como, por exemplo, taxistas, frotistas e empresas.
A Petrobras está investindo maciçamente na melhoria do combustível, tanto Diesel quanto gasolina, principalmente para retirar o enxofre. Isso é muito bom para o meio ambiente e para a sociedade em geral. Associada à legislação brasileira para emissões, que entrará em vigor a partir de 2012, a medida vai garantir um salto na qualidade do ar das grandes metrópoles, independente dos motores em circulação. Os níveis de gases nocivos, emitidos pelos motores de combustão interna e que deverão ser aplicados para atender a estes níveis de emissões, estarão muito próximos, principalmente para veículos de passeio e independente do ciclo térmico do motor.
Tanto o carro a Diesel quanto a gasolina apresentam hoje tecnologia para garantir níveis mínimos de emissões de gases poluentes. Por isso, a sociedade deve focar a discussão não apenas em gases poluentes, mas na condição da matriz energética já que, num futuro próximo, devemos considerar também a economia de combustível e o uso cada vez maior de combustíveis renováveis.
O Brasil tem uma vantagem muito grande quando se fala em combustíveis renováveis. Devido à proibição ao carro a Diesel, o desenvolvimento de combustível renovável para os motores Otto saiu na frente, porém agora com a eletrônica controlando os motores de ciclo Diesel e aplicando-se o que foi aprendido com o ciclo Otto, abre-se uma oportunidade excelente também para o Diesel. Neste campo, várias iniciativas promissoras já estão em andamento. O biodiesel já é uma realidade compondo uma mistura com o Diesel mineral semelhante ao álcool na gasolina. Existem várias iniciativas em andamento como, por exemplo, o Diesel de cana-de-açúcar.
Assim, precisamos repensar realmente a nossa postura em relação à liberdade de escolha da tecnologia que queremos usar em nosso dia-a-dia. Não há sentido em proibir uma tecnologia que pode acrescentar vantagens àquelas já conquistadas pela nossa sociedade em relação aos meios de transporte e motores de combustão interna. A realidade mudou e o cenário macroeconômico brasileiro também. Hoje é muito diferente daquele de quase 33 anos atrás. Nós, brasileiros, ainda não podemos, por livre arbítrio, decidir que tecnologia queremos utilizar, pois existe a proibição do carro Diesel no Brasil. Será que não devemos ter o direito à livre escolha?
*Rubens Avanzini é coordenador da Comissão Técnica de Tecnologia Diesel da SAE BRASIL