Não são muitos os engenheiros que tiveram as oportunidades do jovem Gustavo Fiod Schiavotelo, depois de se formar em eletrônica pela Poli, na USP. Em 1997 ele começou a trabalhar na Ford, como trainee em desenvolvimento de produto, e logo depois foi enviado à matriz da corporação, em Dearborn, Estados Unidos, para contribuir no desenvolvimento dos chicotes elétricos do Fiesta e EcoSport. Os chicotes reunem cabos e conectores para interligar componentes, como mostra a foto na capa desta edição.
Depois dessa experiência Gustavo tornou-se engenheiro sênior responsável por sistemas elétricos de veículos da plataforma C (do Focus) e, em 2005, assumiu a função de supervisor de engenharia elétrica no desenvolvimento de produto, baseado em Camaçari, na Bahia, onde a Ford produz a maioria de seus veículos brasileiros.
Ao longo da carreira que o levou a participar diretamente de projetos decisivos para a virada da Ford no País ele aprendeu rapidamente que a eletrônica passa a dominar aplicações para as quais nem mesmo era cogitada. “Com tantas novidades às vezes nos esquecemos que a eletrônica há pouco tempo tornou o carburador peça de museu e tornou possível criar o sistema flex” — salienta.
Especialista em sistemas de infotainment, Gustavo conta que até recentemente havia uma preocupação apenas em sincronizar o celular com o carro, mas o conceito avançou em várias frentes de forma extraordinária. Sistemas avançados de reconhecimentos de voz e displays sensíveis ao toque permitem ao motorista conectar-se a diversas funções do carro e ao mundo externo sem distração. Não é preciso consultar a agenda para fazer ligações nem fazer manualmente a sintonia fina do rádio ou buscar a faixa de uma música. O usuário dá ordens ao sistema para telefonar e recebe via Internet todo tipo de informação, sobre o carro, tráfego e atividades diárias.
O pacote de tecnologias Sync está por trás do recém-lançado My Ford Touch, coordenando o sistema de voz e as funções disponíveis nas telas LCD bem à frente do motorista. Concebido como um sistema multimídia, o Sync agregou climatização e navegação, inicialmente com orientação por voz, via celular e provedor de serviços. Hoje é possível até plugar um modem 3G na porta USB para navegar na tela LCD ou usar um sistema de mapas com GPS. As funções celular, navegação, áudio e climatização do Sync, cada qual em um canto da tela, podem ser acessadas por voz ou toque.
Novas possibilidades foram desenvolvidas, como personalizar o sistema para cada usuário por meio da chave de acesso. A chave de um adolescente pode ter limitações no volume de som ou na velocidade permitida. O novo display traz também interface para sistemas como controle de tração, câmaras para melhorar a visão externa, troca de unidades de medida e linguagem, sensores de estacionamento, compensação do volume do rádio em função do ruído do vento.
No Brasil
O mercado sul-americano está atrasado em relação a Europa e Estados Unidos, mas há muita inovação migrando para cá. “O Focus comercializado aqui equivale ao europeu” — assegura Gustavo, esclarecendo que a montadora pode trazer novidades sempre que houver demanda. Aqui o MP3, Bluetooth e USB estão se tornando padrão. Virá depois comando de voz, como no Focus. As novidades aparecem em geral como opcionais, principalmente no caso dos carros mais simples.
Os engenheiros brasileiros da Ford participam de projetos mundiais na área de eletrônica, discutindo arquiteturas, sistemas e componentes adequados. As demandas em cada região são levadas em conta no projeto global. A montadora desenvolve muitos de seus produtos dentro de casa, mas há sempre parceiros importantes nos projetos.
“No caso da eletrônica a evolução é rápida e precisamos estar atentos a atualizações frequentes no projeto, mesmo na véspera do lançamento de um carro. Procuramos tornar os sistemas flexíveis e aptos a receber melhorias” — afirma Gustavo, esclarecendo que no Brasil os avanços são feitos por mudanças em hardware. Nos Estados Unidos já é comum fazer a atualização pelo software.
Globalização
“Olhamos o negócio como um todo na hora de desenvolver sistemas e componentes veiculares. É preciso olhar a oferta e a demanda local de componentes, impostos, custo do frete, inovação e obsolescência, soluções compartilhadas com outros projetos, problemas logísticos envolvidos no caso de importações. Sempre que possível preferimos o fornecedor local” — afirma o engenheiro.
Gustavo diz que não é mais possível cada região do globo projetar sistemas e componentes para si mesma: “É indispensável compartilhar, alinhar especificações, otimizar recursos. Muitas vezes as soluções que procuramos já estão disponíveis em algum centro de tecnologia lá fora. Trabalhamos em concerto global, com bastante interação entre grupos” — finaliza.