
De alternativa ao transporte público, passando por ferramenta de lazer até instrumento de trabalho. Mais de 34 milhões de motocicletas, motonetas e ciclomotores rodam atualmente no Brasil. Só que na garupa deste número superlativo, que corresponde a quase 30% da frota circulante nacional, vem os desafios de mobilidade e, de quebra, de segurança.
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Este foi um dos temas em discussão na trilha Mobility Now do Automotive Business Experience – #ABX24. Mediado pelo jornalista Eduardo Pincigher, o painel reuniu Alexandra Morgilli, gestora de tráfego da Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET), e Rafael Lourenço, gerente de relações institucionais da Yamaha, que debateram a relação entre motos e mobilidade.
“Nós vivemos hoje em um cenário das grandes capitais que, infelizmente, o transporte urbano não é uma opção adequada. A motocicleta entra como uma excelente ferramenta de substituição desta situação. Aquela pessoa que tem pressa de chegar quer agilidade e não fica presa no trânsito. É uma excelente ferramenta para o cidadão exercer seu direito de ir e vir”, afirma Lourenço, que aponta para outra questão.
“A motocicleta se transformou em uma ferramenta de trabalho para milhões de brasileiros e ela também gera, se a gente for pegar somente o Polo Industrial de Manaus, no Amazonas, são mais de 16 mil empregos diretos gerados pelas nossas plantas. Quando você extrapola isso para a cadeia de fornecedores, redes de concessionários, esse número é muito maior. A motocicleta tem um papel de inclusão econômica e social também bastante relevante”, completa.
Motos são solução para mobilidade, mas segurança preocupa
Alexandra Morgilli, da CET, corrobora essa premissa. Porém, diz que o período pós-pandemia mudou drasticamente a relação da população com veículos duas rodas e agravou outro problema: a segurança.
“Nós percebemos que a maneira de consumir das pessoas mudou muito e que aumentou demais o transporte de pequenas cargas e de pessoas por motocicleta. Então, existe essa necessidade de nos adaptarmos para prestar um bom serviço para a população também nesse aspecto”, explica Morgilli.
A CET diz que promove algumas iniciativas no Estado de São Paulo, como 200 km de corredores exclusivos para motocicletas (o projeto-piloto das famosas faixas azuis), cursos de pilotagem e seminários.
“A gente está tendo esse desafio de conseguir algumas ações específicas para a moto no momento em que o Brasil todo está enfrentando essa mudança e, meio despreparado, vê também subir a alta dos sinistros envolvendo motociclistas. Queremos que as pessoas utilizem as suas motocicletas com segurança”, afirma a gestora da CET.
Em 2023, mais de 1,2 milhão de motociclistas foram hospitalizados por causa de acidentes. Segundo o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS), quase 120 mil condutores de motos morreram entre os anos de 2012 e 2021 – 33 óbitos por dia.
Formação e educação
Os palestrantes do #ABX24 são unânimes em dois pontos: de melhorias em formar novos motociclistas, mas também na educação.
“Acho que onde a gente pode agir com mais efetividade é no pilar da educação. Porque a informação muitas vezes não muda a conduta. Muitas vezes a gente passa informação para o motociclista do que é o correto e, infelizmente, continua agindo de forma incorreta”, diz o executivo da Yamaha, que ainda aponta outros dois pilares para melhorar os índices, como a própria engenharia de tráfego (conservação das vias, sinalização…) e a segurança dos produtos (ABS, controle de tração…).
Um recente levantamento da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) aponta que, dos 34,2 milhões de proprietários de motocicletas, motonetas e ciclomotores registrados no País, 17,5 milhões não têm habilitação na categoria. Isso representa 53,8% do total. Ou seja, mais da metade.
“A formação hoje é fraca para o que eles vão encontrar na rua, para a realidade. Isso vai desde o exame para se tirar a habilitação até o próprio treinamento, que na realidade não há treinamento. O cara sobe em cima da moto e começa a fazer a entrega”, relata Alexandre Morgilli, gestora de tráfego da CET.
“Infelizmente, com os aplicativos que a gente está vendo, são pessoas muito jovens. Motos exigem conhecimento. Não é que qualquer um pode subir e sair andando. Ela não dá chance para o erro”, finaliza.
