Depois das dispensas de trabalhadores se avolumarem, os sindicatos trataram de ir à ofensiva, com paralisações e a determinação de ir à greve. No momento, as negociações entre patrões e empregados se estendem a dezenas de empresas de autopeças e muitas delas tomaram a iniciativa de conversar isoladamente com os sindicatos de trabalhadores. Segundo o Estadão de domingo, 92 indústrias da capital negociam direto com seus empregados e o sindicato dos metalúrgicos.
Fazem parte do menu de discussões o cancelamento de horas extras, a instituição de bancos de hora, férias coletivas, redução de jornada, suspensão do contrato de trabalho através dos mecanismos do FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador, afastamento de pessoal com contrato temporário e, afinal, demissão pura e simples.
A Fiesp já defendeu o direito às demissões e tocou num ponto nevrálgico das conversações: a redução de jornada com o correspondente corte de vencimentos. Grande parte dos sindicalistas sequer admite a possibilidade de discutir esse ponto. Para esses dirigentes, não cabe ao trabalhador pagar o pato diante da crise. Afinal, argumentam, as empresas engordaram o caixa e os lucros com a maré alta no ano passado.
Para o setor automotivo a crise chegou rápido e se alastrou. A partir de outubro o cenário no mercado de trabalho se inverteu e tirou o poder de negociação dos profissionais do chão de fábrica e até dos especialistas que eram disputados a peso de ouro para o desenvolvimento de produtos e gestão de operações.
Somente em dezembro as montadoras de veículos e máquinas agrícolas afastaram 3.208 pessoas. Algumas das explicações para a queda no contingente foram a queda de atividade no setor, o excesso de estoque nos pátios, a previsão de dificuldades nas exportações.
Agora já existe um temor de desmanche das equipes de profissionais automotivos de nível superior e de técnicos que dedicaram anos à sua formação. A situação lembra os anos 80, quando se forjou na área de serviços para infra-estrutura a expressão ‘engenheiro que virou suco’. Empresas e carreiras foram pulverizadas.
Com projetos de veículos e fábricas e investimentos na área de tecnologia adiados, as empresas de engenharia que prestam serviços a montadoras e ao supply chain também amargam um período de dificuldade. “Só vão adiante agora os projetos realmente estratégicos” – explicou Alvaro Costa Neto, diretor da Multicorpos, que atende o setor.
Se o Brasil quer manter sua relevância no setor automotivo e manter as portas abertas para a retomada, terá que dar atenção especial aos profissionais do setor – desde o chão de fábrica até os doutores da engenharia e tecnologia. Proteger o emprego será também uma forma de proteger a indústria.