Nunca fez tanto sentido o mantra empresarial que diz ser fundamental saber prever riscos para a sobrevivência de qualquer negócio. Faltou essa sabedoria e agora ninguém parece encontra-la novamente. Ao divulgar os primeiros números de desempenho da indústria já contaminados pela pandemia de coronavírus no Brasil, a Anfavea admitiu que o resultado de 2020 já está comprometido, a queda de vendas e receitas será severa, mas não revisou suas projeções, que feitas em janeiro apontavam para um ano de crescimento e prosperidade para o setor no País. O motivo alegado para a falta de previsão é a falta de previsibilidade do momento, segundo justificou o presidente da associação dos fabricantes de veículos, Luiz Carlos Moraes.
Na verdade, não faltam previsões, mas nem todas são divulgadas. No caso da Anfavea, que representa a ponta de um setor responsável por quase 5% do PIB nacional, suas projeções balizam o mercado, tornam-se em parte autorrealizáveis. Por isso, sem fugir muito da realidade, quase sempre as estimativas da entidade costumam puxar os resultados para a direção que apontam. Daí o receio de se estimar um resultado ruim sem ter muita certeza do que vai de fato acontecer.
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PROJEÇÕES PIORAM A CADA DIA |
Na falta de projeção oficial da Anfavea, algumas consultorias já fizeram algumas. A Bright, ainda na antessala da crise, projetou queda de 3% no mercado de veículos leves e retração de 4% na produção em relação a 2019, mas na semana seguinte, quando todas as fábricas e concessionárias já estavam paradas para cumprir medidas de isolamento social, a consultoria logo reestimou que o mergulho seria mais profundo, com vendas caindo 13,5%, para 2,3 milhões de unidades, e produção recuando 16,5%, para 2,3 milhões.
Já a IHS Markit, que publica regularmente seu forecast no Portal Automotive Business, precisou esperar um pouco mais para apurar os números, ainda muito voláteis, que por enquanto apontam para contração em torno de 25%, o que significa mercado perto de 2 milhões de automóveis e comerciais leves.
E assim, a cada vez que se olha para o futuro, os números parecem piorar, deixando no ar a impressão que os analistas temem pelo que estão vendo, assim vão reduzindo moderadamente suas projeções, com certa dose de cautela para não puxar o mercado ainda mais para baixo, e torcida para que o pior não aconteça.
Antonio Filosa, presidente da FCA Latam, no fim de março já tinha ouvido previsões que iam das “mais otimistas”, que segundo ele apontavam para queda nas vendas de 35% este ano, e as “mais pessimistas”, que indicavam contração de 60%. “Eu pessoalmente acho que 40% seria o número mais aceitável”, disse Filosa.
Se o mercado continuar no rumo que tomou nas duas últimas semanas de março, quando a média de emplacamentos por dia útil baixou de 10 mil a 11 mil no início do mês para apenas 1,4 mil no fim, é possível sim esperar pela “queda razoável” das vendas de veículos apontada por Filosa na casa dos 40% em 2020.
Calcula-se que em abril, com fábricas e concessionárias fechadas, o ritmo deve continuar igual ao do fim de março. Portanto, não se espera mais do que 20 mil emplacamentos no mês. Em maio, esse número pode subir um pouco, digamos, para 30 mil – isso se as medidas de isolamento começarem a ser relaxadas. Em junho, com a economia em frangalhos e o comércio reaberto, pode fazer algum sentido apostar em algo como 100 mil licenciamentos. E nos seis meses restantes do ano é possível esperar a média de 150 mil/mês. Contando com os 558 mil veículos já vendidos no primeiro trimestre, somando tudo o total seria de 1,6 milhão de unidades emplacadas em 2020, o que revelaria uma contração de “apenas” 42% na comparação com 2019.
Talvez seja isso que a Anfavea e alguns analistas prefiram não enxergar neste momento – ou coisa pior. Ninguém previu tamanha destruição, mas independentemente de qualquer previsão que se faça agora, o fato é que o País e o mundo estão na UTI, a queda já é muito grande, a recuperação levará muito tempo – e lamentavelmente muitas vidas e empresas jamais serão recuperadas. A mão invisível do mercado desapareceu, as políticas neoliberais de nada adiantarão para salvar o que restará das economias. A sociedade deve se preparar para novos tempos de dificuldades, maiores ou menores de acordo com a capacidade das nações de ajudar suas populações – e isso é muito previsível desde já.