
A chegada de novas montadoras e tecnologias redesenhou o comportamento de quem compra carro no País. Durante a abertura do palco Mobility Now, no Automotive Business Experience | #ABX26, a Accenture apresentou dados inéditos da pesquisa “Consumidor Automotivo Brasileiro 2026”. O levantamento, que ouviu 1.750 pessoas em processo de compra de um veículo zero-quilômetro em todas as regiões do Brasil, traça o impacto direto da eletrificação, dos serviços conectados e da automação na decisão de compra.
O painel reuniu Andrea Cardoso, diretora-executiva e líder do setor automotivo da Accenture, e Juan Sanchez, diretor da consultoria para a indústria automotiva. Os executivos destacaram que o mercado nacional vive um cenário de hipercompetitividade com a expansão de novas marcas chinesas e a diversificação de catálogos.
Efeito dos novos entrantes: fidelidade despenca para 17%
O avanço na oferta de veículos nos últimos dois anos — com salto expressivo no volume de marcas e versões nas faixas entre R$ 150 mil e mais de R$ 300 mil — fragilizou a lealdade às marcas tradicionais. Segundo o relatório, apenas 17% dos proprietários se dizem fiéis à marca, dispostos a comprar exclusivamente um novo modelo da mesma montadora que já possuem.
Na contramão, 48% estão em situação de churn (não consideram repetir a marca atual) e 35% mostram-se abertos a alternativas de concorrentes.
“Esses novos entrantes definiram um outro patamar de tecnologia e posicionamento de preço”, pontuou Andrea Cardoso.
Eletrificação lidera intenção, mas conhecimento técnico ainda é barreira
A transição energética desponta como a principal tendência de propulsão do setor automotivo brasileiro até 2035. Atualmente, veículos com algum nível de eletrificação representam entre 15% e 18% das vendas no mercado interno, patamar que ainda posiciona o Brasil em estágio inicial frente a polos consolidados como Europa e China.
Ainda assim, mais de 50% dos entrevistados planejam adquirir um modelo eletrificado nos próximos três anos. A maior preferência recai sobre os modelos recarregáveis (EV, PHEV, REEV), que superam 30% da intenção.
Apesar do interesse crescente, há um gargalo de informação: apenas 35% dos consumidores afirmam compreender com clareza as diferenças entre híbridos leves, convencionais, plug-in e elétricos, enquanto 48% já ouviram falar das nomenclaturas, mas admitem não saber distingui-las.
“Devemos usar outros mercados como espelho para a transição. A comunicação é essencial para as montadoras diante do baixo conhecimento do consumidor, e aproximar o cliente da concessionária faz toda a diferença”, avaliou Juan Sanchez.

Carro conectado e automação abrem nova fronteira de receita
Além do trem de força, serviços digitais e recursos de auxílio à condução despontam como alavancas de rentabilidade para as montadoras.
A pesquisa revela que cerca de 60% dos entrevistados têm disposição para contratar pacotes de conectividade por assinatura mensal, com ênfase nos clientes dos segmentos médio e premium.
As quatro modalidades de serviços mais desejadas são:
- Segurança patrimonial: rastreamento, geofencing e alerta de movimentação não autorizada;
- Wi-Fi a bordo;
- Diagnóstico veicular: monitoramento preventivo e saúde dos sistemas;
- Sustentabilidade: planejamento de recarga, consumo e práticas de eco-driving.
A propensão a pagar também se repete no campo da segurança ativa: 45% dos brasileiros aceitariam investir R$ 5 mil ou mais por pacotes de direção semiautônoma (ADAS). Frenagem autônoma de emergência, câmeras com visão de 360 graus, monitoramento de atenção do condutor e piloto automático adaptativo (ACC) lideram a lista de prioridades, interesse que é 2,4 vezes maior na faixa de preços acima de R$ 300 mil.

Ambidestria e inteligência artificial na estratégia das marcas
Para navegar nessa transformação simultânea de produto e modelo de negócios, as fabricantes precisarão equilibrar presente e futuro.
“Todo mundo vai ter que aprender a trabalhar com uma ambidestria estratégica: desenvolver e testar novos modelos de negócios e tecnologias enquanto entrega as metas de curto prazo”, destacou Cardoso.
A executiva completou afirmando que o avanço tecnológico interno será indispensável: “A inteligência artificial é uma ajuda real para dar eficiência e agilidade a esse movimento da indústria”.