
As transformações tecnológicas têm ditado os novos rumos do setor automotivo não só para montadoras, mas também para os seus fornecedores. Os principais sistemistas do mercado nacional estiveram no ABX 2026 para contar um pouco a respeito das mudanças pelas quais passam a indústria em termos de conectividade, eletrificação e concorrência com chineses.
Para Gaston Diaz Perez, presidente e CEO da Bosch, o momento atual é de transformação, puxada principalmente pelos modelos produzidos na China. “Os chineses, se você olhar tecnologicamente o que eles estão trazendo nos carros deles, têm mais tecnologia do que os players tradicionais aqui no Brasil. Isso traz uma pressão para os outros aumentarem o conteúdo tecnológico”, disse.
O executivo explica que essa demanda por conteúdos com mais tecnologia avançada é um desafio para fornecedores que eram acostumados com a oferta de peças mais tradicionais. O cenário fez com que a Bosch investisse cerca de R$ 1 bilhão para duplicar a capacidade de produção de eletrônica, de ECUs, e de computadores, além de trazer ao Brasil as primeiras linhas para a produção de motores elétricos.
No caso da Mahle, esse cenário dá oportunidades para novas estratégias. O CEO Eduardo Luiz Spilla explicou no evento que a companhia hoje opera com uma estratégia de produtos baseada em três grandes pilares: motores a combustão de alta eficiência, eletrificação e gestão térmica dos veículos.
“Essa modificação vai trazer tecnologias para o país. Na gestão térmica, por exemplo, hoje existem módulos como o thermal management module, que integra uma série de equipamentos para se comunicar com o software do veículo, para fazer a gestão térmica. É uma função existente no veículo onde o conforto térmico da cabine, a gestão da bateria e a gestão térmica do motor a combustão são integrados”, disse.
Novas exigências para peças mecânicas
Wilson Brício, CEO da Zen, relata que a empresa acabou de passar por um ciclo de investimentos de cerca de R$ 150 milhões em tecnologia de produção e transformação mecânica. “Nós não estamos ainda na área de sistemas eletrônicos, mas nós sabemos que as plataformas que nós temos vão precisar também de componentes mecânicos, só que esses componentes virão com novas exigências, pelo menos é o que nós estamos vendo com os projetos que nos são apresentados”, comentou durante o evento.
Ele explica que a Zen tem se preparado para as transformações do setor por meio de três frentes estratégicas: aprimorar o que já existe, expandir para áreas adjacentes nos negócios da empresa, aproveitando novas tecnologias como a inteligência artificial, e desenvolver novos negócios na área de serviços.
As mudanças, no entanto, não são só tecnológicas, mas também nos negócios. Marcelo Moraes, vice-presidente da Lear Corporation, afirmou que a tecnologia oferecida anda lado a lado com o modelo de negócio. “Tem players novos no mercado com um ritmo novo, uma visão nova de produto e você tem que acabar se adaptando para responder a essa demanda.”
Diversificação para crescer no mercado
Já Anderson Pontalti, CEO da Frasle Mobility, relembrou que a companhia iniciou um movimento de diversificação em 2015, quando viu que a eletrificação começava a ganhar força na indústria. Foi quando a empresa ampliou a atuação para componentes que fariam parte dessas transformações e da transição energética.
“A partir daquele momento, a gente tinha que pensar em peças que se beneficiariam com a eletrificação e aí a gente entrou em muitos segmentos de produto. O nosso negócio não é eletrônica, não é conectividade, não é sensoriamento. Nosso negócio é tirar peso do veículo através de estruturas de compostos, estruturas nano embarcadas, com uma pegada de carbono favorável”, disse.
Essas novas atuações também passam pela competitividade do mercado e pela força da engenharia nacional. Spilla cita o Tech Center da Mahle no município de Jundiaí como um exemplo. O espaço foi nomeado como Centro Global de Desenvolvimento de Biocombustíveis.
No caso da Bosch, a Flex House, o centro de biocombustíveis da companhia, completou 23 anos. Hoje, além disso, a operação no Brasil com o centro de competência global para o agro faz com que o país também conquiste uma posição relevante no cenário mundial, se tornando um dos três hubs globais da marca. “Nós normalmente recebíamos os elementos da Alemanha, implementávamos no Brasil e vendíamos para os clientes um carry-over de tecnologia, hoje está acontecendo o processo contrário”.
Ao mesmo tempo, a indústria de fornecedores no Brasil precisa apertar o passo para alcançar a mesma velocidade que o mercado demanda. No cenário mundial, o país também precisa conquistar espaço e Brício pontua que problemas em termos de fornecimento na China acabaram criando uma oportunidade nisso. “Nós estamos trabalhando muito forte para trazer essas oportunidades para dentro de casa. Quando você vai brigar com o chinês, é bem complicado, mas também temos a força da nossa marca.”
Processos estão cada vez mais velozes na indústria
Já Marcelo Moraes afirmou que a presença da Lear no mundo permite interagir com clientes em diversos países e compartilhar projetos, além de adaptar tecnologias desenvolvidas em um mercado para outros países. Ele conta que parte da competitividade no setor começou a depender da velocidade de novas tecnologias e produtos chegando nos mercados.
Apesar da conquista de espaço no Brasil e no mundo, ainda é necessário velocidade e condições adequadas para competir com a tecnologia que vem de fora. “A gente tem que avaliar se realmente as condições de competição são corretas, são iguais. Eu acho que tem bastante trabalho para ser feito, buscar processos melhores, buscar aprender mais, olhar oportunidades de mercado”, disse o vice-presidente da Lear.
Pontalti, da Fras-le Mobility, chamou a atenção para a rapidez dos processos. “O que preocupa é sempre a equidade de forças. Nós na indústria trabalhamos muito sobre isso, a nossa capacidade de criar, de inventar, de prestar o melhor serviço, de cuidar das nossas marcas, vai ser a forma que nós vamos nos defender. Mas tem uma coisa que a gente tem que aprender: a nossa velocidade tem que ser oriental e não mais ocidental”, completou.
