
A transformação da mobilidade está redesenhando não apenas os veículos, mas toda a cadeia ao seu redor. Conectividade, software, inteligência artificial, eletrificação e novos comportamentos dos consumidores estão criando oportunidades que atravessam os serviços financeiros, os seguros e novos modelos de negócio.
Apresentado no Automotive Business Experience (ABX) 2026, o painel “Mobilidade sem fronteiras: como a inovação aberta está construindo o novo ecossistema da mobilidade” reuniu especialistas para debater essa guinada. Com mediação de Tiago Bockholt, do CESAR, o painel contou com as visões de Reinaldo Aparecido Contessotto, da Marelli, e Fabio Favaron, vice-presidente da Honda Serviços Financeiros.
O debate mostrou que o setor passa por uma transformação industrial e econômica: a transição do automóvel de um produto mecânico para um dispositivo de mobilidade inteligente, conectado e sustentável.
Essa mudança vai muito além da substituição do motor a combustão pelo elétrico. Ela rompe com o modelo tradicional do setor automotivo e redesenha ecossistemas inteiros de negócios, exigindo cooperação entre montadoras, empresas de tecnologia, seguradoras e fintechs.
Os quatro pilares da transformação
- Eletrificação e sustentabilidade: a descarbonização reconstrói a cadeia energética global, exigindo infraestrutura robusta de recarga, mineração responsável de insumos críticos, como lítio e cobalto, e soluções avançadas de economia circular e reciclagem de baterias.
- Software e inteligência artificial: os veículos consolidam-se como Software-Defined Vehicles, ou computadores sobre rodas. O centro de gravidade do valor migra do hardware para o código, impulsionando atualizações remotas, manutenção preditiva e sistemas avançados de assistência ao motorista guiados por IA.
- Conectividade total: integrado à Internet das Coisas, o automóvel interage em tempo real com a infraestrutura urbana inteligente, com outros veículos e com o ecossistema digital pessoal do usuário, com potencial para ampliar a segurança e a conveniência.
- Novos comportamentos de consumo: a preferência pelo uso em detrimento da posse redefine o mercado. Modelos de mobilidade como serviço, frotas compartilhadas e veículos por assinatura ganham espaço como alternativas à aquisição tradicional.
Inovação aberta e novos modelos de negócio
Durante o debate, os executivos destacaram como as empresas estão se movimentando em um mercado “cada vez menos produto, cada vez mais experiência”.
“As iniciativas de inovação global começaram antes da pandemia e se intensificaram durante ela na Honda Innovations, no Vale do Silício”, diz Fabio Favaron.
No Brasil, segundo o executivo, a Honda Serviços Financeiros atua com mobilidade como serviço, por meio de parcerias com diferentes ecossistemas, como o Learning Village, e de pontos de contato com empresas que oferecem soluções e serviços para carros conectados.
Para Reinaldo Aparecido Contessotto, o ritmo exige agilidade e bases tecnológicas sólidas: “Somos uma empresa com mais de 100 anos e temos a inovação na veia. Muitas empresas e montadoras ainda não estão atentas a isso. Na Marelli, aproveitamos essa oportunidade. Daqui a pouco, o sistema de atualização do veículo será totalmente acionado à distância”.
Reforçando o impacto no dia a dia do consumidor, Favaron pontuou que o seguro conectado já é uma realidade, principalmente no Japão e nos Estados Unidos, ajustando-se com base no comportamento real de direção do cliente. Além disso, destacou que já é possível oferecer garantias estendidas personalizadas pela central multimídia.
O futuro: software, hardware e segurança
Questionados sobre o que está por vir em termos de tecnologia e parcerias e quais serão as maiores rupturas dos próximos três anos, os especialistas apontaram caminhos claros.
Reinaldo destacou o papel da infraestrutura de pesquisa e cooperação: “Em dois anos, no máximo, já devemos ter produtos muito mais avançados, integrados à Embrapii, Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, que tem 12 centros de excelência para discutir o futuro e se preparar para ele. São 400 pessoas focadas em tecnologia e salas de cibersegurança nos carros do futuro. A mesma segurança que preciso ter no celular terei que ter no carro”.
Ele completou: “Somos uma empresa de tecnologia de base e temos a visão de que, quanto mais avançarmos com cibersegurança, podemos mirar em um preço melhor para o consumidor final. Unir a mobilidade, a tecnologia e as universidades para esse fim pode encurtar esse caminho”.
Olhando para o horizonte de rupturas do setor, Favaron concluiu: “O futuro da mobilidade passa por serviços financeiros, inovação, parceria com universidades e ecossistemas abertos, além do uso intensivo de dados com a inteligência artificial. Em um futuro não muito distante, poderemos entregar experiências customizadas sob medida, com alta qualidade e a identidade de cada consumidor. Um produto e uma solução financeira genuinamente com a cara do cliente”.
Ao encerrar o painel no ABX26, o recado coletivo foi direto: é preciso acompanhar o ritmo global por meio de feiras e conexões de mercado. Como sintetizou Reinaldo: “Vamos respirar inovação!”.