
Reindustrializar o Brasil é acompanhar as tendências dos mercados mundiais, mas sem esquecer da capacidade que a indústria nacional tem. É o que disse Igor Calvet, presidente da Anfavea, no painel da ABX26. Ele cita que o Brasil tem capacidade produtiva de reindustrializar, a exemplo da conectividade presente nos automóveis em toda a frota brasileira, bem como a base industrial avançada, preparada para as mudanças na forma de produzir e para os processos de eletrificação.
O país, no entanto, enfrenta diversos desafios nesse meio, principalmente diante da competição com o exterior. “O mercado brasileiro se ampliou, mas isso não foi sinônimo de crescimento da produção, especialmente com a importação de veículos subindo”, disse Márcio de Lima Leite, vice-presidente sênior jurídico e de relações institucionais da Stellantis.
Importações avançam 29,8% no acumulado do ano
Só entre janeiro e agosto de 2026, 406,7 mil veículos importados foram emplacados no país, o que representou uma alta de 29,8% em comparação com o mesmo período do ano passado. Os dados são da Anfavea, divulgados no balanço de setembro deste ano.
Márcio defende que o desafio de reindustrializar o país tem que ser enfrentado com velocidade e assertividade diante das transformações aceleradas da indústria mundial, que expõem o Brasil ao risco de ficar para trás.
Para preservar a competitividade no mercado local, Igor Calvet afirma que é necessário pensar em medidas a curto e médio prazo e cita que enquanto países como a China, a Europa e os Estados Unidos já tomam providências para proteger o mercado, o Brasil parece andar a passos mais lentos.
Uma dessas ações de regulação, segundo Calvet, é reequilibrar as alíquotas de importação junto com medidas de incentivo à produção e ao consumo de conteúdo nacional para que fornecedores que fabricam e vendem aqui não sejam prejudicados com os preços competitivos dos produtos importados.
Reforma tributária amplia incerteza no setor automotivo
Mas para isso também existem dificuldades. Segundo Rafael Palácio, diretor da Kearney Brasil, um outro obstáculo está relacionado ao ambiente pouco estável atual no Brasil, levando em conta mudanças previstas com a reforma tributária e os impostos seletivos que devem incidir sobre os veículos, mas cujas alíquotas ainda não foram definidas.
“Para criar medidas que auxiliem o país nessa reindustrialização, é necessário um ambiente mais estável, que hoje conta com incertezas acerca dos impostos seletivos para carros e mudanças que vêm com a reforma tributária”, mencionou.
Finalizando o debate, Márcio ressaltou que o Brasil ainda tem tempo de acompanhar o passo das mudanças na indústria em todo o mundo, mas o impacto no Brasil tem sido inevitável. “Nós ainda temos tempo de fazer algo, então haverá uma reconfiguração. As fabricantes e as montadoras têm condições de entrar no jogo. A gente muda a chave rápido, mas terá um impacto na indústria brasileira”.