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#ABX26 – Além do topo: equidade, interseccionalidade e o poder da intencionalidade na indústria

Líderes debatem por que a representatividade feminina na indústria ainda não se traduz em permanência

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Cristiane Batista

01 out 2026

4 minutos de leitura

Como sintetizado durante o terceiro painel do AB Diversidade na ABX 2026, “não basta contar quantas mulheres chegaram ao topo; é preciso observar quais continuam ficando para trás e por quê.” A partir dessa provocação, o evento aprofundou o debate sobre interseccionalidade e as barreiras que ainda limitam o acesso feminino aos cargos de decisão.

Com mediação de Vini Michelucci, consultora e CEO da Travessia, o debate reuniu grandes nomes dos setores de engenharia, tecnologia e liderança industrial:

  • Carolina Ignarra — CEO da Talento Incluir
  • Larissa Gambrell — Presidente da DAF Caminhões
  • Mafoane Odara — Executiva de RH
  • Raquel Mizoe — Gerente sênior de engenharia de produtos da General Motors América do Sul e Diretora da AEA

Mais do que celebrar conquistas isoladas, a conversa confrontou os obstáculos estruturais que fazem com que muitas profissionais fiquem pelo caminho, questionando o real significado de “chegar lá” à luz de marcadores como raça, deficiência e regionalidade.

Os desafios da jornada e a metáfora da escada

O painel provocou uma profunda reflexão sobre o processo de chegada e as trajetórias pessoais de mulheres de diferentes contextos, idades, regiões e condições. Ao questionar “o que é chegar lá?”, a discussão expôs as barreiras estruturais invisíveis:

A visão da IA e a realidade: Enquanto a inteligência artificial ilustra o topo com um homem subindo degraus, para uma mulher a imagem frequentemente a posiciona na metade da escada; para uma mulher com deficiência, a barreira se mostra ainda mais evidente na base ou diante da estrutura.

O protagonismo a partir do incômodo: Carolina Ignarra destacou sua trajetória de empreendedorismo gerada pela inconformidade, e não por cotas: “Comecei a empreender a partir de um incômodo, a partir da pessoa e não da cota. Hoje tenho 40 pessoas trabalhando comigo, sou protagonista de um pacto global na ONU, fui indicada como uma das ‘101 pessoas que mudam o futuro’ no jornal O Globo, tive um perfil na revista Forbes. Somos ainda raras e poucas. Mas chegar lá ainda é um desafio.”

A importância da intencionalidade

Para evitar que a ascensão feminina seja fruto do acaso, a organização das indústrias exige intencionalidade estratégica. Nesse cenário, a postura diante dos vieses corporativos ganha destaque.

Como relatou Larissa Gambrell, a autonomia emocional é vital para blindar a carreira: “Tomei a decisão de esquecer que são homens e de que os problemas são das pessoas e não meus. É muito importante aprender e saber o seu valor, o que você pensa de você mesma, o valor que se dá para não criar outro problema.”

Raquel Mizoe reforça a transformação em curso nas ciências exatas: “Na engenharia e nas ciências em geral ainda temos poucas mulheres, mas isso está mudando e estamos no caminho certo, abrindo caminhos para outras em cargos de liderança e áreas técnicas, com conversas e escutas. Sempre encarei as dificuldades como desafios.”

Representatividade, prevenção de assédio e espaços equânimes

Como ter representatividade e quais são as melhores práticas para prevenir a discriminação e o assédio, promovendo um espaço favorável e equânime no setor automotivo, na engenharia, no chão de fábrica e no operacional?

Mafoane Odara trouxe reflexões cruciais sobre autoconhecimento e o jogo corporativo: “Aprendi a ser uma liderança negra, entendendo minhas vulnerabilidades e onde gostaria de chegar. Quando você sabe quem você é, o mundo não te confunde. Depois desse autoconhecimento: qual é o jogo, os interesses e as regras no local de trabalho, como o ambiente te avalia.”

Os desafios e as vozes da mudança

Além dos números, a realidade exige transformar a exceção em regra. Como disse Carolina Ignarra, a seu próprio respeito: “Mesmo acumulando marcos expressivos, como liderar dezenas de colaboradores, atuar em pactos globais da ONU e figurar na Forbes, a constatação permanece amarga: ‘Somos ainda raras e poucas. Chegar lá continua sendo um desafio.'” Superar esse cenário demanda substituir o acaso por processos intencionais e estratégicos nas organizações industriais, desmantelando vieses inconscientes e construindo redes de apoio ativas.

Paralelamente, a gestão relacional deve ser encarada como a próxima revolução corporativa, entendendo que o equilíbrio pessoal e o suporte ativo da liderança direta são tão cruciais quanto as entregas técnicas. Tudo isso se completa com o domínio dos códigos sociais, que utiliza a inteligência estratégica e a compreensão das regras corporativas a favor do próprio crescimento, mantendo sempre a firmeza e o posicionamento autêntico.

Nesse percurso, o autoconhecimento é vital, como destacou Mafoane Odara ao lembrar que a jornada profissional exige compreender a própria identidade e vulnerabilidades: “O trabalho é mais do que o trabalho; envolve o equilíbrio pessoal. Quando você sabe quem é, o mundo não te confunde.”