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Algo de novo no mercado, enfim

Desde que chegaram ao Brasil, nos anos 90, as novas marcas de veículos leves, chamadas de newcomers (nome que, aliás, já ficou velho), nunca desafiaram com consistência o reinado das quatro grandes fabricantes tradicionais (Fiat, Volkswagen, General Motors e Ford), que mesmo depois de quase vinte anos da chegada de uma dezena de concorrentes, continuaram a dominar mais de 80% das vendas do mercado brasileiro, seja pelo maior número de concessionárias ou de produtos. O ano passado, contudo, mostrou que esse quadro pode estar começando a mudar.
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pedro

12 jan 2011

6 minutos de leitura

Pela primeira vez no ranking das dez marcas mais vendidas no País, as seis imediatamente abaixo das quatro tradicionais abocanharam, em 2010, pouco mais de 20% das vendas domésticas de veículos leves. E pelo terceiro ano consecutivo os emplacamentos somados de Fiat, Volkswagen, GM e Ford ficaram abaixo de 80%. É fato que a fatia delas vem diminuindo ano a ano, mas de forma bastante gradual. No ano passado a perda foi expressiva: as quatro cederam nada menos que 3,45 pontos porcentuais, de 77,1% em 2009 para 73,65% em 2010.

Tombo parecido já havia ocorrido em 2008, quando as quatro perderam quase quatro pontos e ficaram com 76,83% das vendas, pela primeira vez abaixo dos 80%. As novatas, naquele ano, foram responsáveis por 19% dos emplacamentos e no ano seguinte, em 2009, perderam produção com a crise financeira, retrocederam para 18,6% e as tradicionais voltaram a ganhar participação, para 77%.

O que há de diferente, desta vez, é que as marcas do quinto ao décimo lugar do ranking nacional aumentaram a participação para inéditos 20%, enquanto as duas primeiras tiveram perdas expressivas de mercado e terceiro e quarto colocados suaram para empatar com 2009 e manter o market share apenas estável.

Das quatro grandes, Volkswagen e Fiat, nesta ordem, foram as que mais perderam participação em 2010 e tiveram os menores crescimentos, bem abaixo da média de mercado de 10,6%. A VW avançou só 1,9%, cedeu 1,8 ponto porcentual e ficou em segundo no ranking com 20,95% das vendas. A Fiat cresceu minguados 3,2%, conseguiu sustentar sua liderança de nove anos, mas perdeu 1,65 ponto e reduziu a fatia para 22,84%.

Na VW, ao que parece, o problema foi a falta de lançamentos relevantes e pouca flexibilidade nos preços. Após lançar as novas gerações de seus campeões no País – o Gol no fim de 2008 e o Fox um ano depois –, responsáveis por mais de 60% das vendas, a Volkswagen registrou significativo crescimento de 17% em 2009 e voltou a liderar o segmento de automóveis. Mas em 2010, sob duro contra-ataque da concorrência, vendeu cerca de 25 mil automóveis a menos e anotou recuo de 4% justamente no segmento de maior peso. O que impediu tombo maior foi o avanço de 65% em comerciais leves, graças à nova Saveiro.

Já a Fiat teve a seu favor o mais importante lançamento do ano, o novo Uno, apresentado em maio, que rapidamente se tornou o segundo carro mais vendido do País. O problema é que o modelo também tirou clientes do Palio, que caiu da segunda para a quinta posição no ranking. Entre ganhos e perdas, o saldo ficou negativo: em média, em 2010 foram 5,6 mil Palio a menos vendidos por mês e 4,8 mil Uno a mais (incluindo o Mille), deixando um déficit de 800 unidades/mês.

Já GM e Ford conseguiram se manter estáveis com algumas renovações de produtos e muitas promoções. Assim cresceram quase no mesmo ritmo do mercado: 10,45% e 10,62%, respectivamente. A GM ficou com 19,76% dos emplacamentos (redução mínima de 0,03 ponto sobre 2009) e a Ford empatou, mantendo seu share em 10,1% de um ano para outro.


Novos consumidores

O comportamento dos consumidores em 2010 prenuncia a necessidade de uma ofensiva de marketing em 2011 e nos próximos anos, com as quatro grandes lutando para não perder mais terreno, e todas as outras – inclusive as que estão abaixo do décimo lugar – brigando para tomar espaço.

Isso ocorre, ao que parece, em virtude de dois fatores simultâneos que estão mudando a face do mercado brasileiro. Por um lado, existem alguns milhões de novos consumidores de carros no Brasil (só a classe C cresceu algo como 30 milhões de pessoas desde 2003 e 3,4 milhões ascenderam à classe B), e muitos não têm apego a nenhuma marca – serão fisgados por quem oferece mais novidades, melhor custo/benefício e tiver maior exposição. Este é justamente o segundo grande fator de mudança: o número de produtos e concessionárias das newcomers está crescendo ano a ano, muitas já têm mais de 150 lojas e algumas vão ultrapassar as 200 em breve. Isso aumenta a exposição e, consequentemente, as vendas.

A Renault é um exemplo desse movimento: conseguiu manobrar bem seu portfólio para ofertar carros com bons preços, ao mesmo tempo em que chegou a 180 concessionárias – e deverá ter 200 até o fim deste ano. Com isso, a marca francesa cresceu expressivos 36,4%, subiu do sexto para o quinto lugar no ranking e foi a que mais ampliou seu share em 2010, ganhando 0,91 ponto porcentual, ficando com 4,82% das vendas – participação da qual não chegou perto em nenhum dos últimos dez anos.

A avaliação das dez marcas mais vendidas mostra o quanto a vida está ficando difícil por aqui. Das dez, só três ampliaram o share, uma empatou com 2009 e seis perderam – além de Fiat, VW e GM, a Honda teve recuo de 0,39 ponto e caiu da quinta para a sexta posição, a Toyota cedeu 0,12 e desceu da sétima para a oitava, e a Peugeot, quase estável, perdeu 0,01, mas caiu do oitavo para o nono lugar.

A PSA compensou o desempenho mediano da Peugeot com a Citroën, cujas vendas no ano cresceram significativos 21,3%, com ganho 0,22 ponto de participação, mas ainda assim a marca recuou do nono para o décimo lugar.

Quem causou tamanha mobilidade do ranking foi a Hyundai, que já está entre as dez mais desde 2009 e, no ano passado, foi a segunda marca (depois da Renault) que mais ganhou share: 0,82 ponto, para 3,18%, com crescimento nas vendas de 49,2%, subindo assim do décimo para o sétimo lugar. Isso tudo só vendendo carros importados – o Tucson é montado aqui, mas tem apenas 20% de nacionalização.

As dez mais representavam 98,2% das vendas em 2006 e esse porcentual caiu para 95,7% no ano passado. Trata-se de clara evidência de que as novas marcas importadas estão ganhando espaço, nem tanto os carros de alto luxo, mas principalmente as que trazem produtos comuns, como é o caso das chinesas e especialmente da coreana Kia – esta teve expansão de 109% em 2010 e já é a 11ª mais vendida do País.

Tudo isso posto, o problema das quatro grandes é o próprio gigantismo. Elas são grandes demais para um mercado com tantos concorrentes (são 42 marcas e mais de 600 modelos e versões). Assim é natural que em algum momento tenham de ceder terreno para as menores. As duas líderes, pela ordem Fiat e Volkswagem, dizem que pretendem vender 1 milhão de unidades a partir de 2012 e assim ficar, cada uma, com 20% de um mercado total estimado em 4 milhões de unidades. Pelo que 2010 já mostrou, vão precisar suar muito para conseguir ficar desse tamanho.