
A Mercedes-Benz vive um novo momento no Brasil e essa transformação não passa apenas pela eletrificação de parte de sua linha de produtos no mercado local. Passa também por importante redesenho do seu principal parque produtivo de caminhões na América Latina, em São Bernardo do Campo (SP), e também pela forma como enxerga a cadeia de suprimentos.
A respeito deste tema, a pandemia levou a montadora a ter uma operação mais flexível, ou seja, demandou a adoção de novos processos operacionais para mitigar a falta de semicondutores e outros componentes, e mais: se adequar a uma nova realidade na qual persisitirá o quadro global de abastecimento intermitente.
“Não são apenas semicondutores, muitas outras peças e partes estão faltando. Acredito que nos próximos anos não vamos voltar à realidade superestável a qual estávamos acostumados. Mas, vendo pelo lado positivo, nós aprendemos nesses dois anos a atuar e a reagir de forma mais flexível”, disse Karin Rådström, CEO global da montadora, durante o Salão de Hannover.
“O que eu quero dizer é que nossa prioridade é assegurar que os caminhões estão sendo montados com as peças disponíveis. Mesmo se não temos todas as peças, nós tentamos montar os veículos o mais rápido possível tão logo cheguem os componentes”, completou a executiva, que assumiu o posto máximo na empresa há cerca de um ano e meio, após carreira na Scania.
Montadora perdeu participação no segmento de caminhões
A falta de componentes desferiu um duro golpe nas fabricantes de caminhões como um todo, e não seria diferente com a Mercedes, que promoveu quatro paralisações parciais no ABC Paulista por causa da escassez. O quadro coincidiu com a perda de market share no segmento local de caminhões: se em agosto de 2021 era líder com fatia de 30%, em agosto deste ano a empresa deteve a segunda maior participação, 27,26%, conforme dados da Fenabrave.

Enquanto cuida dos meios para assegurar o abastecimento pleno de peças em suas linhas, a montadora também executa reestruturação da sua operação no país. Segundo seus cálculos, foi preciso articular um plano horizontal de produção, ou seja, de apostar mais na terceirização de tarefas que, antes, eram executadas por funcionários próprios.
Parceiro de logística já definido
Para garantir a sustentabilidade dos negócios a longo-prazo no Brasil, como informou em comunicado no início de setembro, a montadora recorreu ao mercado para buscar fornecedores. Segundo apurou reportagem da Automotive Business, já foi definida a operadora de logísitica da fábrica de São Bernardo, que executará o serviço de transporte interno de peças, armazenamento e de abastecimento de componentes com quadro formado por 800 funcionários. O nome do novo fornecedor segue em sigilo.
Procurada, a Mercedes-Benz informou que “não comentará o assunto neste momento, uma vez que as negociações com fornecedores ainda estão em andamento”.
Outras áreas da empresa que serão terceirizadas, de acordo com fonte ouvida por AB, são matéria de importante discussão entre a montadora e o sindicato dos metalúrgicos local. Os representantes dos trabalhadores participam de negociação que define quais outras áreas da fábrica da Mercedes serão geridas por meio de empresa terceirizada.
“Se olharmos nos últimos dez anos, fizemos muitos planos para melhorar a nossa situação. Porém, devido a diferentes razões, não conseguimos o resultado desejado. O Brasil é um país com mercado muito cíclico e o nosso desafio foi sempre buscar condições favoráveis no mercado, e essa é uma das razões que nos fez anunciar a terceirização de algumas atividades”, contou a CEO.
Os planos da empresa indicam que aproximadamente 2,2 mil trabalhadores serão dispensados, enquanto que 1,4 mil profissionais não terão seus contratos temporários renovados a partir de dezembro de 2022.
