
“Nem tudo no Inovar-Auto está claro, como por exemplo a rastreabilidade das peças para saber seu exato grau de nacionalização e o quanto poderá ser abatido do imposto”, diz Martens, que na sexta-feira, 7, esteve com o novo ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges Lemos, exatamente para mostrar o projeto da Audi e saber dele se atendem as regras do Inovar-Auto. “Pedimos a reunião para esclarecer alguns pontos, pois nossa conta de geração de créditos (de IPI) não fechou ainda. Precisamos saber disso com certeza para desenvolver os fornecedores.”
Segundo Martens, o novo ministro (que antes presidia a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, responsável pela execução da política industrial do governo), “é uma pessoa bem técnica, que mostra ter grande conhecimento do regime”. Por isso o executivo avalia que a reunião “foi boa para reduzir as dúvidas e mostrar ao governo os pontos que precisam ser melhorados ou melhor esclarecidos”.
SINERGIAS COM A VW
Enquanto faz as “contas” para atender o Inovar-Auto, Martens garante que a agenda da fábrica brasileira está em dia para iniciar a operação na segunda metade de 2015. “Temos a vantagem de já ter os produtos desenvolvidos e de trabalhar em conjunto com a Volkswagen”, diz. De acordo com ele, diversas operações serão executadas em sinergia com a marca irmã, a começar pela cadeia de suprimentos. Quatro funcionários da Audi já trabalham dentro do departamento de compras da Volkswagen no Brasil e o número tende a crescer nos próximos meses. “Esta deverá ser uma vantagem competitiva que teremos no Brasil, pois já existem fornecedores desenvolvidos pela empresa do mesmo grupo, temos de aproveitar isso. Faz sentido não só para nós, mas também para o fornecedor, que pode negociar volumes maiores.”
Outra vantagem é que o espaço para montar os Audi em São José dos Pinhais já existe. Não há obras civis de grande porte a fazer, as paredes e o teto estão prontos e as linhas de armação de carroceria, pintura e montagem final serão também divididas com a Volkswagen. “A fábrica do Paraná foi pensada para fazer três carros quando foi inaugurada (em 1999): o Golf, o Audi A3 e o Passat. Como o Passat nunca foi feito lá, sobrou esse espaço que agora vamos ocupar”, esclarece Martens. “Talvez ainda tenhamos de construir um prédio de logística, para abrigar peças”, completa.
Na mesma linha onde será montado o A3 Sedan também será produzido o VW Golf, com os mesmos funcionários – a Audi sozinha deve provocar a contratação de cerca de 350 pessoas. E como A3 e Golf são feitos sobre a plataforma MQB, existem grande potencial de sinergias para compras conjuntas de componentes.
O executivo explica que os R$ 440 milhões que a Audi investirá no Paraná (praticamente o mesmo valor que a VW) serão usados para ampliar as áreas de armação (solda) e pintura e criar a nova linha de montagem final conjunta do A3 Sedan e Golf. Já para o Q3, que tem previsão de ser produzido na mesma fábrica a partir de 2016, será instalada uma outra linha de montagem. A capacidade dedicada à Audi será de 26 mil unidades/ano, 16 mil para o A3 Sedan e 10 mil para o Q3. Tudo será destinado ao mercado nacional, não há planos de exportar.
Já está certo que as grandes peças estampadas da carroceria virão importadas, não se sabe ainda se da Europa ou do México, pois a Volkswagen já produz o novo Golf na planta mexicana e deverá trazer de lá as partes estampadas do carro. “Esses componentes exigem grandes investimentos (em prensas e ferramental) para localizar a produção, por isso vamos importar. Mas deveremos comprar estampados menores de fornecedores no Brasil”, conta Martens.
Para nacionalizar componentes dos Audi montados no Brasil, dois critérios estão sendo considerados. “O primeiro é comprar localmente aquelas peças que têm alto custo de transporte”, diz Martens, citando partes como tanque de combustível, bancos e vidros. As grandes partes estampadas da carroceria poderiam ser incluídas nesse critério, mas não são porque custaria muito caro o ferramental para produzí-las no País. O segundo aspecto é o de agregar valor ao veículo para abater dos 30 pontos porcentuais adicionais de IPI criados pelo Inovar-Auto.
Por essa razão a Audi já está em adiantadas negociações com a Volkswagen para produzir na fábrica de motores de São Carlos (SP) o propulsor 1.4 turbo que equipará as versões mais baratas do A3 Sedan – as motorizações maiores da gama, como a 1.8, seguirão sendo importadas. “Claro que é um componente que agrega importante valor para abater do imposto e a Volkswagen pode fazer para nós”, revela Martens. Outra possibilidade é produzir uma versão com câmbio manual e trazer o componente da planta de transmissões da Argentina, também da VW. “Já as transmissões automáticas não são feitas no Brasil e terão de ser importadas.”
Martens acrescenta que outro fator que a Audi buscar maior nacionalização de componentes é a desvalorização do real. “Isso não ajuda quando se fabrica um carro com grande quantidade de peças importadas. Uma medida para equalizar essa questão é localizar mais”, revela.
O INTERESSE PELO BRASIL
Desde 2006, quando parou de produzir a antiga versão do hatch A3 em São José dos Pinhais, a Audi pareceu ter perdido interesse pelo mercado brasileiro. As vendas despencaram e chegaram a ficar abaixo de 3 mil unidades por ano. Quando ensaiava nova retomada, veio a sobretaxação sobre os importados, em 2012, que continuou com o Inovar-Auto, em 2013. Mesmo assim, a primeira opção de voltar a produzir na América Latina foi no México, onde a Audi constrói fábrica para fazer o novo Q5 a partir de 2016, de olho no grande mercado de SUVs nos Estados Unidos.
“O Brasil começou a ser visto de forma mais positiva do que outros emergentes como Índia e Rússia, que também competiam por uma fábrica. Aí veio o Inovar-Auto e trouxe incentivos para a produção local e decidimos voltar a produzir no Paraná”, resume Martens, que defende a política industrial desenhada pelo governo para o setor automotivo no País. “Acho que é uma boa estratégia para desenvolver o setor. O Inovar-Auto trouxe os incentivos para atrair empresas que não iriam vir antes.”
Na terça-feira, 11, em seu discurso durante a conferência anual de imprensa para divulgar os resultados da companhia em 2013, Rupert Stadler, CEO do Grupo Audi, procurou afastar as preocupações recentemente levantadas com mercados emergentes, especialmente sobre o Brasil. “Depois de anos de crescimento, as pessoas agora estão ficando ansiosas, é o que estamos ouvindo ultimamente. Porque o fim da política de ultraexpansão monetária do Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos) está colocando pressão sobre a economia e as moedas esses mercados. Nós vemos as coisas diferentemente. O resultado de longo prazo depende menos do status de país emergente do que das questões a serem resolvidas em suas estruturas econômicas”, disse.
Nesse aspecto, Stadler mostrou-se bastante otimista com o Brasil: “Vemos o País em boa posição no longo prazo. As dívidas pública e externa são pequenas em relação a outros mercados emergentes. O País é rico em matérias-primas, o que garante fontes confiáveis de recursos. Tem um sistema educacional efetivo. A população é jovem e a classe média está crescendo. De acordo com os mais recentes estudos, a demanda por carros premium no Brasil vai dobrar – e alguns dizem que deve quase triplicar – até 2020. Nós queremos utilizar este potencial de mercado para a Audi. Vamos criar as condições certas para isso ao desenvolver nossa capacidade de produção lá”, enfatizou.
A Audi projeta um mercado de carros premium no Brasil de 100 mil unidades/ano até 2020 e quer um pedaço em torno de 30%, considerando a capacidade máxima da fábrica de 26 mil/ano e as importações. Já este ano, pela primeira vez desde que deixou de produzir no Paraná, as vendas deverão ultrapassar os 10 mil veículos, após recordes registrados em janeiro e fevereiro, com mais de mil vendas em cada mês. “Os modelos premium importados eram oferecidos a preços proibitivos com a sobretaxação. Com o Inovar-Auto e a atração de produção local o mercado deve crescer naturalmente”, avalia Martens.