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Autopeças: importar ou nacionalizar, eis a questão

Por Susete Davi
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Redação AB

17 nov 2009

4 minutos de leitura

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Com o poder de fogo do acréscimo de R$ 140 milhões anuais em compras locais, a Robert Bosch América Latina abriu as conversações com seus fornecedores brasileiros de autopeças e de matérias-primas rumo ao plano de nacionalização de seus itens importados.

Os planos da fabricante alemã são de aumentar de 70% para 80% o fornecimento local de componentes no Brasil no prazo de até 24 meses. Os outros 20% restantes são itens de elevado conteúdo tecnológico, que o mundo importa da Ásia, e que por sua complexidade não seriam tecnicamente viáveis à fabricação local.

A ação não é novidade na empresa. Faz parte, há mais de dez anos, de sua estratégia mundial de produzir no próprio país o que a ele será destinado.

A iniciativa da Bosch não surpreenderia se não fosse este o momento em que a valorização do Real está empurrando empresas de vários setores da economia aos produtos importados, por mera questão de custo.

A empresa escolheu trilhar outro caminho. “Não vemos futuro na importação de componentes nem de matéria-prima, esse é um modelo saturado, disse a Automotive Business o diretor de Compras da Bosch América Latina, Paulo Rocca.

O executivo defende que é importante preparar a cadeia para o mercado futuro, a fim de garantir a competitividade do negócio. Ele enfatiza que a viabilidade econômica é imprescindível, mas que existem outras maneiras de alcançá-la.

Balança no vermelho

Cledorvino Belini, presidente do Grupo Fiat para a América Latina, declarou a uma platéia de jovens líderes empresariais durante workshop em São Paulo na quinta-feira, 12, que até 2015 o País tem plenas condições de produzir cinco milhões de veículos por ano (um milhão para exportação) e que espera uma retomada das exportações brasileiras.

Em matéria publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, a Organização Mundial do Comércio (OMC), atribui ao Brasil expansão das importações em algo acima de 60% nos últimos oito meses, uma das maiores altas porcentuais entre as principais economias. Em valores, outros países tiveram aumentos maiores.

Dados do MDIC/Secex/Depla apontam que o déficit da balança comercial brasileira de autopeças é crescente. As exportações brasileiras de janeiro a setembro para 170 países, somaram US$ 4,5 bilhões, valor 43% menor que o registrado em igual período de 2008.

As importações, de 128 mercados, diminuíram 35%, passando a US$ 6,3 bilhões. Com esses resultados, o déficit da balança comercial subiu de US$ 1,75 bilhão para US$ 1,76 bilhão.

O faturamento do setor de autopeças acumulado de janeiro a setembro, em reais deflacionados, foi 22,3% inferior ao de iguais meses de 2008. Os indicadores de pesquisa conjuntural nacional com 93 empresas associadas ao Sindipeças que representam 42% do faturamento total do setor de autopeças mostram, entretanto, que a recuperação está em curso apesar dos índices negativos. Os porcentuais vêm se reduzindo gradualmente no decorrer do ano.

Na análise de David Wong, diretor Kaiser Associates, consultoria internacional de estratégia, é prematuro afirmar que a valorização do real esteja de fato provocando uma desindustrialização no setor brasileiro de autopeças: “Não temos dados suficientes para afirmar qualquer coisa”, declarou ele a Automotive Business. Mas aponta que é preciso considerar a queda da produção nacional de veículos, em torno de 10% em toda essa equação.

A quatro mãos

Apostando em um crescimento do mercado interno de veículos 5% ao ano, o executivo de compras da Bosch espera colher os frutos do plano de nacionalização da empresa em até dois anos.

Paulo Rocca saiu satisfeito com os sinais positivos de seus parceiros após o término do 4º Encontro Anual com Fornecedores, realizado em Campinas, SP, (participaram 120 fabricantes de componentes automotivos, cem deles fornecedores tradicionais e vinte escolhidos pela equipe de compras por seu potencial), que teve por pauta o tema da nacionalização.

Rocca encerrou o evento com a adesão de quatro importantes parceiros. Três são os fornecedores de matéria-prima Gerdau e Mangels, aço em barra e aço plano, respectivamente, e Redici, resinas plásticas de engenharia. O quarto, é o BNDES, que enviou um representante ao encontro para falar das linhas de financiamento caso alguém manifestasse interesse em investir. O executivo acredita que investimentos importantes em novas instalações e equipamentos serão necessários para algumas das autopeças.

“A Bosch e seus parceiros estão olhando na mesma direção. Vamos trabalhar juntos para tornar o plano viável em todos os seus aspectos”, destacou Rocca. Ele ressaltou ainda que o fato de que, enquanto o Brasil acena com crescimento saudável e investimentos em infraestrutura nos próximos cinco anos, “lá fora a ociosidade ainda é elevada, embora existam sinais de recuperação”.

Dentro da política de gestão adotada em suas operações, a Bosch está oferecendo aos fornecedores suporte técnico para o desenvolvimento nacional das peças e sua produção e conta com programa de desenvolvimento de fornecedores baseado no princípio de produção lean.