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Avanço do biocombustível no Brasil gera oportunidades internas e externas

Aumento da produtividade e experiência que o país tem com o etanol podem facilitar transição energética e ajudar na exportação de know-how
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Lucia Camargo Nunes

17 out 2024

4 minutos de leitura

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A importância do biocombustível para o Brasil e o mundo foi o assunto discutido no painel “O que falta para que os biocombustíveis cresçam como solução global para a descarbonização”, durante o durante o Automotive Business Experience – #ABX24.

A eletromobilidade avança de uma forma tão ampla que já criou uma sinergia com o biocombustível. Clemente Gauer, diretor da Associação Brasileira de Veículo Elétrico (ABVE), citou que boa parte da energia elétrica que recarrega os veículos elétricos hoje vem da bioenergia, com a queima do bagaço de cana, por exemplo. 


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Em grandes centros, faz mais sentido ter um carro 100% elétrico, pelo custo da energia e de maior infraestrutura de recarga. Em locais onde isso é escasso, o biocombustível é excelente.

“Um movimento similar fez a Noruega, maior produtor de petróleo do mundo. Hoje, é 100% eletrificado. O que eles fazem com o petróleo? Eles exportam e esse dinheiro fica para o país. Então eu acho que o Brasil pode ir muito nessa direção, exportar etanol. Temos muita energia, muito sol, a energia solar agora é extremamente barata. Não é um ou outro, são os dois. Cabe à gente permitir que os dois, à luz do livre mercado, possam concorrer com igualdade”, afirma Gauer. 

País precisa pensar infraestrutura

Para David Wong, diretor senior da Álvares Marçal, o Brasil está atrasado em relação ao biocombustível como parte da solução energética de transporte, seja biocombustível, combustível avançado ou sintético.

Enquanto globalmente o biocombustível representa cerca 8% da energia no transporte em relação ao petróleo, o Brasil tem uma posição privilegiada com 38% na parte etanol e 10% na parte biodiesel. 

“As organizações entendem que é preciso aumentar o biocombustível além do processo de eletrificação. Vários países têm biocombustível como parte da estratégia de descarbonização”, explica Wong.

“A grande questão é que o Brasil, Estados Unidos e parte da Europa representam 80% da produção global e 40% de biocombustível de forma geral. Ela é parte da solução de transição energética, no longo prazo também concordo que será a eletrificação, mas é necessária uma coisa que nós não temos, que é a infraestrutura”, completa.

Para ele, é preciso mais biocombustível e não basta só a cana de primeira ou o milho, mas também a segunda e a terceira gerações para várias soluções de biocombustível, que necessita triplicar até o fim da década.

Brasil se antecipou e é protagonista

Os veículos flex e a experiência que o Brasil tem com biocombustíveis já o colocam numa posição de protagonista, sugere Raquel Mizoi, diretora de emissões e consumo de veículos leves da Associação de Engenharia Automotiva (AEA). 

Para enfrentar o desafio do aquecimento global, Luciano Rodrigues, diretor de inteligência setorial da Única, afirma que várias soluções serão empregadas, e a bioenergia no Brasil traz opções adicionais que outros países não têm. 

E o Brasil se antecipou em alguns aspectos, como plantas com pegada de carbono auditadas. Outra discussão é sobre o desmatamento: desde 2018, caso haja um único hectare de uma fazenda desmatado, a fazenda inteira fica de fora da Política Nacional de Biocombustíveis.

Ele cita que houve um aumento do portfólio do etanol, que é aproveitado da cana e do milho de segunda safra. A produção cresceu em estados como Maranhão e Bahia.

“Nosso objetivo principal não é exportar produto e sim know-how. Temos um avanço para tentar estimular a produção lá fora e depois, obviamente, no futuro, algum avanço no mercado de etanol”, comenta Rodrigues. 

Híbrido flex é o caminho

Para Raquel, o Brasil tem que continuar aprimorando os veículos flex com hibridização. “Mas não podemos perder o olhar no elétrico ou numa fase PHEV porque senão, como engenharia e parque industrial, ficaremos para trás”, avalia a diretora da AEA. 

A associação da engenharia automotiva entende que é preciso trabalhar em todas essas tecnologias ao mesmo tempo.

Raquel também enfatiza que a discussão do berço ao túmulo deve ser considerada na descarbonização. “Quando a gente fala do berço ao túmulo é preciso fazer de uma forma bastante técnica, detalhada, para ter bons argumentos e poder comparar uma tecnologia com a outra.”

Rodrigues, da Unica, acredita que a bioenergia trouxe para o setor automotivo a engenharia nacional, relacionada ao avanço do etanol com o veículo flex. “Imagino que isso tem uma força aqui dentro e traz para o Brasil outras opções que países que não têm bioenergia não têm. Temos uma condição diferenciada e que talvez ela traga condições e soluções de médio e longo prazo distintas do que outros países”, avalia.

Na matriz mundial, menos de 8% são de fontes renováveis, enquanto mais de 90% vêm do carvão, óleo e gás, o que no seu entendimento torna a redução desses 90% em um desafio comum, ou seja, o processo de desfossilização. E para o Brasil, conclui o diretor da Unica, o desafio é articular essas diferentes soluções.