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Alexandre Rodrigues, Agência Estado
Com a indefinição sobre a prorrogação do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), pelo qual o BNDES financia ônibus e caminhões com juros subsidiado desde 2009, o Banco Mercedes estuda outra linhas de financiamento para chegar a sua meta de crescer entre 10 e 15% em 2011. A principal aposta da instituição é aumentar os contratos pelo Crédito Direto ao Consumidor (CDC).
No acumulado de 2010 até novembro o Banco Mercedes-Benz ultrapassou a marca de R$ 3 bilhões no financiamento de 15.530 veículos da montadora, alta de 13% em relação ao mesmo período de 2009. Do total emprestado, 85% veio da linha Finame, do BNDES, ultrapassando os R$ 2,52 bilhões do banco estatal repassados pelo Mercedes em 2009.
Em entrevista à Agência Estado, o diretor comercial do Banco Mercedes, Angel Martínez, explicou que o crédito para ônibus, caminhões e vans Sprinter equivale a 90% da carteira de R$ 6,8 bilhões do Banco Mercedes, que também financia automóveis. Ele diz que o banco trabalha com dois cenários em relação ao fim do PSI, marcado para março, mas não acredita em redução significativa da demanda sem a prorrogação.
O executivo conta que o banco já está aprimorando modalidades alternativas, como o crédito direto ao consumidor (CDC), que respondeu por apenas 12% dos financiamentos fechados em 2010, mas teve um crescimento de 129% em relação a 2009. “Se o PSI for prorrogado, os recursos do BNDES serão menores este ano. Por isso, desenvolvemos novas modalidades para veículos comerciais. O CDC não tem juros tão baixos quanto o Finame PSI, hoje em 0,64% ao mês, mas já conseguimos oferecer 0,8% ao mês para alguns veículos”, conta.
Segundo Martínez, o Banco Mercedes tem acesso a fontes de captação no exterior para operar o CDC de longo prazo. Só concentra a captação no BNDES, admite, por causa do custo muito baixo do capital. “Nosso plano é não ser tão dependente apenas de um tipo de cliente ou de uma única fonte, queremos diversificar”, diz. “Nossa meta é crescer de 10 a 15% em 2011. Vamos atingir com o BNDES ou com recursos próprios.”
Criado em 2009 para estimular investimentos em meio à crise, o PSI contempla ônibus e caminhões como bens de capital com recursos do BNDES em operações intermediadas por bancos comerciais. Os juros foram reduzidos com subsídio do Tesouro Nacional e chegam ao tomador com taxas entre 7% e 8% ao ano, sendo ainda menor no programa para autônomos, o Procaminhoneiro. Antes, as taxas superavam 12%.
Depois de sucessivas prorrogações, o PSI tem até março para esgotar o orçamento de R$ 134 bilhões. O governo sinalizou ao setor de bens de capital que estuda uma forma alternativa de manter incentivos ao investimento, mas com menor custo fiscal. Com isso, a expectativa é de elevação das taxas do BNDES para veículos.
Entre julho de 2009 e outubro de 2010, o PSI financiou R$ 28 bilhões em veículos pesados pela Finame e outros R$ 6,7 bilhões pelo Procaminhoneiro. Segundo a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef), a linha Finame do BNDES, que financia bens de capital com juros reduzidos pelo PSI, foi utilizada em 71% das vendas de veículos comerciais em 2010.
As financeiras de montadoras, que já operavam com forte dependência do BNDES, aumentaram sua participação na lista de credenciados da instituição estatal. Dos R$ 85,8 bilhões liberados pelo BNDES em operações indiretas entre janeiro e novembro de 2010, cerca de 10% foram para essas instituições.
Em outubro, o Banco Volvo superou a marca de R$ 1 bilhão. O Banco Volks, que já repassava R$ 2,3 bilhões em 2008, atingiu R$ 3,1 bilhões em novembro. O banco Fidis, ligado à Iveco (Fiat), aumentou em 570% sua participação nos repasses do BNDES ao intermediar mais de R$ 48 milhões em 2010. O Banco Scania, que nem aparecia nos números do BNDES até 2009, repassou no ano passado R$ 41,49 milhões.
Décio Carbonari Almeida, presidente da Anef e do Banco Volks, admite que as condições tão favoráveis do crédito do BNDES inibem a busca de funding próprio nos bancos das montadoras. “Nem se tenta porque o BNDES hoje é o grande financiador. É o dinheiro mais barato que tem”, diz, lembrando que os bancos ficam com o risco. “Toda a operação é nossa.”
Almeida acredita que as medidas de incentivo ao crédito privado de longo prazo lançadas pelo governo em dezembro poderão estimular a captação própria dos bancos, mas lentamente. “O plano foi bem recebido, mas ainda vai demorar para se ter volume de captação por esses instrumentos. Os bancos vão começar aos poucos, mas pelo menos nos próximos dois anos o BNDES continuará muito importante”, afirmou Almeida.
Foto: Angel Martínez, diretor comercial do banco Mercedes-Benz.