
De todos os clichês que poderiam abrir esta entrevista, o repórter optou por escolher o mais óbvio. Por pura preguiça? Fleuma? Nada disso. Por ser, de fato, o mais apropriado. Segue: Bárbara Rodrigues é uma força da natureza.
A primeira e única chefe de equipe da Stock Car tem um magnetismo, um je ne sais quois na aura que poucos no universo do automobilismo têm. Passeia pelos boxes do autódromo José Carlos Pace como se fosse o quintal de casa – o que, de certo modo, é.
Embora graduada em Veterinária, teve, por circunstâncias da vida, de fincar os dois pés no esporte a motor. Seu pai, Amadeu Rodrigues, ex-piloto e fundador da Hot Car Competições, travou batalha contra um câncer em 2018. A partir daí, Bárbara – que atende pela carinhosa alcunha de Babi – tomou as rédeas de algumas funções dentro do time, a fim de auxiliar o progenitor e então comandante da equipe.
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Passado o primeiro baque, Babi, 34 anos, conseguiu voltar à sua profissão de origem. Todavia, em novembro de 2020, seu pai sofreu grave acidente de carro em Uberlândia (MG). Ele retornava da etapa da Endurance Brasil. Rodrigues, 65 à época, infelizmente, não resistiu aos ferimentos.
Em luto, engolfada por dúvidas e mais dúvidas, Babi teve de tomar a maior decisão de sua vida. A fim de preservar o árduo trabalho do pai, optou por dar prosseguimento ao legado da família Rodrigues. A dor sequer havia passado e, obstinada, já comandava a Hot Car no fim de semana subsequente à tragédia, na etapa de Curitiba.
De lá para cá, Babi só vem acumulando êxitos à frente da equipe. Além de ainda seguir como a única liderança mulher de um time da Stock, tornou-se a primeira comandante do sexo feminino a conquistar uma vitória na categoria. O histórico resultado veio em setembro de 2022, por meio de Felipe Lapenna, em etapa realizada no Velocitta.
A ideia inicial da reportagem era a de usar apenas alguns trechos da conversa que tivemos com Babi nos boxes de sua equipe, em Interlagos. No entanto, fluidez e pertinência foram o combustível, impeliram o escriba a publicar o papo na íntegra. Confira abaixo a entrevista esta figura que vem quebrando paradigmas no esporte a motor.Automotive Business: Como você se sentiu no ano passado, com a vitória do Felipe Lapenna? O que significa para você ser a primeira mulher na história da categoria a ter um carro vencedor? Como reverberou tal conquista?
Bárbara Rodrigues: Acho que é natural a gente se questionar, para saber se estamos fazendo a coisa certa, dando os passos certos. Principalmente numa história como a minha, onde minha vida mudou da água para o vinho.
Muitas vezes eu me perguntava se valia a pena, se eu tinha de insistir em fazer as coisas de forma diferente. E, quando tudo se encaixou, quando alcançamos essa primeira vitória, consegui transformar um sonho muito distante no começo do trabalho em realidade. É muito bom você perceber que suas ações estão corretas, e isso só me deu mais garra para continuar lutando.
Veio no meu coração um recado de que estou no lugar certo, fazendo a coisa certa. E, principalmente, fazendo a coisa que eu amo. Acho que é isso que faz [tudo] girar e é por isso que estamos crescendo tanto em performance ao longo desses anos em que estou comandando o time.
Remontando um pouco, como foi assumir a equipe em um momento tão delicado da sua vida pessoal e, claro, profissional também. Como foi este processo? Como você lidou com tudo isso?
Nem eu esperava ter tanta força assim. Menos de três dias após o velório do meu pai eu já estava carregando os carros para ir à [etapa de] Curitiba. Estava completamente dilacerada, mas ele sempre me falava para honrar os funcionários, a empresa, os patrocinadores, e foi isso que fiz.
Foi um esforço descomunal. No entanto, ver esses carros na pista, ver tudo acontecendo, é uma forma de homenagear meu pai, pois isso é uma grande paixão que ele transformou em negócio. Manter essa paixão viva, esse legado vivo, é muito importante. A cada vez que eu ligo esses carros é uma oração que faço para ele.
Acabou que, por fim, mantive meu pai vivo no meu dia a dia. Eu me sinto ainda mais próxima dele. E isso se reflete em algumas questões. Às vezes, não compreendia algumas ações dele, e até mesmo o julgava, o chamava de brabo… Hoje em dia, muita gente diz que sou brava [risos].

Atualmente, entendo a importância que ele tinha para o time e também o peso que você absorve ao administrar uma equipe. A tensão é grande, pois há muita coisa em jogo. É interessante, pois as pessoas que trabalhavam com ele veem muito dele em mim atualmente.
Antes eu questionava, perguntava o motivo de ficar até às 3 horas da manhã com o pessoal para carregar carreta, falava para ele ir descansar. E, hoje, vejo a importância de um real líder dentro de um time. Um bom líder muda resultados, melhora o ambiente e influencia nas relações entre todos. Você torna o ambiente mais produtivo e mais leve.
Você já vivenciava esse ambiente antes de ter de assumir, entre aspas, “a bronca”. Como foram os primeiros meses à frente de fato da Hot Car? Em quais pontos você considera ter evoluído e em quais você crê que ainda tem de trabalhar a fim de otimizar seu papel de liderança?
A vida me moldou para que eu estivesse na posição em que hoje estou. Passei minha vida inteira em autódromos, acompanhei o dia a dia no chão da oficina e sabia como a banda tocava nesse aspecto. Em 2018 tive meu maior aprendizado, quando meu pai foi diagnosticado com câncer e não sabíamos como ele reagiria ao tratamento. Aí resolvi largar tudo para apoiá-lo.
Nesse momento, o suporte serviu para que ele tirasse um tempo para realizar o tratamento, para entender tudo o que estava acontecendo. Fiquei, então, cuidando da parte administrativa e comecei a aprender o que era e como era ser um chefe de equipe de verdade, um líder positivo e inovador.
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Já em 2020, só continuei a história dele [meu pai], finalizei um ano que já estava planejado. No entanto, na hora que as empresas e os pilotos apostaram no meu potencial eu percebi que não tinha como ser uma imitação do meu pai. Até porque não conseguiria. Então, apostei em escrever a continuação da história, os próximos capítulos, com a minha própria letra.
E aí, claro, você pode acertar ou errar. Mas precisava dar o meu toque, trabalhar da minha maneira, tratar os funcionários como atletas, deixar o ambiente muito mais aberto para ideias e propostas. Todo mundo que trabalha hoje na Hot Car trabalha com liberdade, e sabe que irei apoiar, compreender e que quero ouvir o que está acontecendo. Além, claro, com a segurança de saberem que caso a ‘bucha estourar’ eu vou bater no peito e assumir.
Hoje a Hot Car tem quantos colaboradores diretos e indiretos?
Fixos nós temos 15 colaboradores, mas este número chega a 30 se contarmos os postos indiretos. Agora, dando uma pequena guinada, uma pesquisa recente da Leadership Circle apontou que lideranças femininas são mais eficazes que os homens nos mais variados níveis de gerenciamento e de faixa etária. Por que você acha que esse resultado se deu? E o que você, como liderança feminina, faz a gestão da equipe e contorna problemas e soluciona determinadas questões.
A competição, a vontade de ganhar, o sangue no olho eu sempre tive. Isso eu puxei da minha família. Nós somos muito lutadores e não desistimos fácil.
Acho que, como uma liderança mulher, consigo tratar todos os times de forma muito mais maternal. Consigo abraçar, todos se sentem num ambiente seguro para se abrir e colocar os problemas à mesa sem filtros e sem demora, pois isso é essencial: diagnosticar antes que aquilo vire uma bola de neve e exploda, principalmente, com maus resultados.
A mulher, além de ter uma capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, tendemos a ser mais amorosas e acolhedoras. Ou, pelo menos, é o que eu tento buscar aqui dentro do meu time.
Tenho orgulho de falar que, aqui, agimos como uma família e isso é essencial. O maior desafio é transformar um grupo de pessoas brilhantes em um time, para que este se torne bem sucedido.
Evidentemente, a gente sabe que o esporte a motor é um meio muito dominado por homens em todas as áreas do organograma. Você sente que houve uma evolução em termos de diversidade? Emendando, você crê que há margem para se melhorar em tal tópico?
Eu fui muito bem acolhida porque não era uma estranha no ninho. Já era uma pessoa conhecida dos líderes das outras equipes, o que facilitou o processo para mim. Só que já vivo uma fase diferente, em que uma mulher comandando um time vitorioso incomoda muito mais que um homem comandando um time vitorioso.
Às vezes você é melhor acolhida num ambiente predominantemente masculino se você está lá apenas cumprindo tabela. E eu não estou mais cumprindo tabela. Já estou aqui para incomodar, para ganhar, para disputar roda com os líderes.

Percebo que isso traz um desconforto maior, as pessoas querem buscar explicações pelo êxito ou, pior, querem procurar um nome masculino responsável pelo sucesso. E não é nada disso. É apenas um time integrado, preparado, que já está há três anos evoluindo para chegar aos resultados sólidos que estamos obtendo.
Ainda temos muito espaço, até porque agora é só o começo. Nós temos que ter mais mulheres [no esporte]. Mas, a partir disso, aumentando esse número, as pessoas têm que entender que não estamos aqui apenas para cumprir tabela, mas sim lutando de igual para igual pelo mesmo objetivo.
E como você se sente como uma desbravadora, como uma pioneira? Temos, de fato, espaço para mais mulheres em cargos de liderança como você não apenas na Stock, mas em outras categorias importantes no país?
Sem dúvidas. Observo diversas iniciativas muito bacanas trazendo mais mulheres para o esporte. E não trazendo apenas mulheres já formadas, que querem adentrar nosso meio, mas também incentivando meninas a entender que o automobilismo também é uma opção.
Hoje em dia temos uma carência de profissionais mulheres capacitadas no automobilismo porque lá atrás elas já foram tolhidas, barradas, porque era um tipo de profissão que não deveria sequer ser cogitada. Hoje em dia, tudo é possível. Nossa sociedade vem abrindo a cabeça para possibilidades que antes eram inconcebíveis.
Mas é aquilo: eu nunca vou contratar uma mulher por ela ser simplesmente uma mulher. Eu quero ajudar a formar mulheres capazes. Por isso, abro muito minha oficina para jovens profissionais que têm um sonho de trabalhar no automobilismo, mas ainda não tem a vivência. Acho que isso é muito importante para o nosso esporte, que é muito fechado.
E quanto a essa questão do seu pioneirismo no esporte?
Então… Eu sei da minha importância para o esporte. Até me assusto com mulheres que até se emocionam ao me encontrar, mas só estou vivendo meu dia a dia, fazendo o meu corre, perseguindo o meu sonho.
Quando alguém precisar de ajuda, conselhos, portas abertas, é aí a minha hora de brilhar. Só espero ser um bom exemplo para mulheres que vão ser ainda melhores do que eu e ainda mais espetaculares no futuro.
Já mencionamos rapidamente a relação com patrocinadores. E coloco nesse mesmo questionamento a relação com pilotos. Como você faz essa espécie de malabarismo, tanto para atender bem aos patrocinadores e ter bom relacionamento com os pilotos e também, claro, com o restante do time?
Navego muito bem por todas as formas de comunicação. Nossos patrocinadores, meus mecânicos e pilotos têm muito respeito por mim e pelo meu trabalho. Acabou que aprendi muito a negociar esse processo de patrocínio, que é muito complicado. A gente vai, conforme costumo brincar, corrigindo a aeronave durante o voo. Acredito que hoje estou muito mais madura e vejo que, antigamente, cometia erros por pura inexperiência. Atualmente isso não ocorre mais.
Busco sempre dar um passo de cada vez, mas um passo firme. Me perguntam o motivo, por exemplo, de não fazer outras categorias. Primeiro tenho de estar muito bem na minha principal categoria, no meu principal objetivo.
E, agora, talvez estejamos perto de dar esse próximo passo porque o meu time é sólido e as pessoas do automobilismo entenderam que eu vim para ficar e não sou apenas uma aventureira que deseja valorizar o passe [da equipe] para vender. O que também poderia ser uma opção, mas as pessoas já entenderam que este não é o caso da Hot Car.
Temos que entender os processos para caminhar corretamente. E, além disso, a humildade é importantíssima para que você encontre parceiros com a mesma intensidade e ética.
E com os pilotos? Como é a relação?
Tenho uma ótima relação com eles. Eles são mais jovens do que eu [a Hot Car tem a dupla mais nova do grid da Stock em 2023], então é uma relação também de respeito e de muita amizade.
Eles escutam muito o que eu falo e entendem que estou lutando por eles. Todos os pilotos que passaram por aqui, nessa nova geração, só tenho a agradecer. Mas é claro que a escolha cabe a mim e eu sempre seleciono pessoas que têm os mesmos princípios e ideias e formas de ação. Isso é fundamental para que tenhamos uma temporada de sucesso.

E aí, perdão pelo francês, mas se o piloto der aquelas escorregadas…
Sim [risos]. É quase uma relação maternal mesmo. Temos confiança, amizade, mas eles entendem que toda ação tem uma reação. Eles são pilotos profissionais e estão aqui para cumprir contratos muito sérios e não posso estar aqui apenas para elogiar. Até porque estamos aqui buscando o melhor, e para obter o melhor temos que exigir o máximo. Caso contrário não dá certo.
Dentro da seara de pilotos, Babi, também vemos uma maior presença feminina. Como você enxerga esse cenário? As categorias de topo também terão mulheres num futuro breve?
Se analisarmos o atual cenário no kart isso já nos dá uma resposta muito boa, muito positiva. Nosso berço é o kart e a participação de meninas no kartismo só aumenta. A consequência é ter uma participação no grid [da Stock] e também em outras categorias cada vez maior.
Quantos meninos não passaram pelo kart para termos hoje 32 pilotos no grid da Stock Car? O número de pilotos que conseguem chegar é ínfimo, muito pequeno. Se considerarmos que, desse total de pilotos que passaram pelo kartismo, 2% são mulheres, é muito mais difícil para uma piloto chegar até aqui.
Por isso admiro muito a Bia [Figueiredo], que chegou e fez muita história nessa categoria. Até porque, para ela passar por todo esse processo não foi nada fácil. E mais: não é fácil sobreviver de esporte no Brasil e não é fácil você estar na principal categoria, cujos valores, nível técnico e cobrança são altíssimos. Vejo nosso futuro com muita esperança. A nossa base vem realmente muito forte e composta por meninas muito talentosas.
Por fim, quais são as perspectivas para a temporada? Como você enxerga a temporada 2023 para a Hot Car?
Nossos carros estão no melhor nível técnico, acima até mesmo do carro do ano passado – que já era muito bom. Peguei todos os erros e acertos dos anos anteriores, tenho um engenheiro com muita experiência que é o Marcos Laborda, estudamos todos esses processos e montamos os carros do zero.
O nosso objetivo é entregar o melhor em pista. Já vimos um pequeno resumo de que o carro é rápido, consistente e que vamos dar trabalho.
O que espero para o Gaetano [Di Mauro] é no mínimo um top 10. É uma meta nossa de ficar entre os dez melhores classificados no campeonato. O Lucas [Kohl] é um piloto estreante e é normal ter um período de adaptação. Mas na primeira etapa [em Goiânia] ele já me surpreendeu e marcou pontos importantes. Ele é um menino rápido, mas com bastante experiência.
Para mim, esse ano temos tudo para ter um dos melhores resultados de uns bons anos da Hot Car na Stock Car.
Deixo agora o gravador aberto para que você deixe uma mensagem ou cite algo que tenha ficado de fora desse nosso papo.
Só tenho a agradecer a todo mundo pelo carinho. Uma coisa que faz muito a diferença aqui no nosso dia a dia é a torcida, é a vibração positiva dos fãs que nos acompanham, que nos seguem em nossas redes sociais.
Muitos, aliás, descobriram minha história e viram que fazemos tudo com muita paixão. Essa força é um combustível adicional para que a gente possa lutar e fazer bons resultados. Espero que todos sigam torcendo e, no que depender de mim, pretendo fazer muita história ainda no automobilismo nacional.
