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Redação AB, com Agência Estado
O Banco Central surpreendeu a maioria dos economistas e cortou a taxa básica de juro da economia (Selic) em 0,5 ponto porcentual, para 12% ao ano. Quase todos os analistas apostavam que o Comitê de Política Monetária (Copom) iria manter a Selic inalterada em 12,5%. Contudo, segundo comunicado divulgado ao fim da reunião desta quarta-feira, 31, pela primeira vez com duas páginas de explicações, o Copom admitiu estar pressionado pela percepção de que a crise deve manter a economia mundial em ritmo lento por “um período de tempo maior do que o antecipado”, por isso decidiu mudar sua política 180 graus.
A decisão, contudo, não foi unânime: cinco dos diretores do BC que integram o Copom votaram pela redução da taxa, enquanto dois defenderam a sua manutenção. Assim foi interrompido o ciclo de alta da Selic, após cinco aumentos seguidos do juro entre janeiro e julho passado, que somaram 1,75 ponto. É a primeira redução na gestão da presidente Dilma Rousseff.
Desde a segunda-feira passada a própria presidente e ministros como Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, e Guido Mantega, da Fazenda, vinham fazendo declarações sobre a possibilidade de cortes do juro. Todos disseram que a gestão abriu espaço para o BC reduzir a taxa com os cortes dos gastos públicos de R$ 10 bilhões, anunciados no início da semana, para aumentar o superávit primário, destinado justamente ao pagamento de juros da dívida pública.
O Copom mudou radicalmente de opinião em 45 dias e entendeu que não havia razão para continuar subindo o juro. Pelo contrário, os diretores do BC mostram que, após meses de trabalho para segurar a alta da inflação e esfriar a economia, agora é necessário acelerar a atividade econômica em reação à crise global. “O Comitê avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante”, cita o comunicado após a decisão.
Contaminação externa
A principal mudança para na avaliação do BC veio do exterior. O rebaixamento da nota de risco dos Estados Unidos no início do mês deflagrou uma série de revisões para pior das projeções dos economistas sobre o que deve acontecer com a economia mundial nos próximos meses. A percepção geral é que países centrais devem demorar ainda mais para sair da crise e crescer. Para o BC, esse quadro representa maior incerteza da influência externa sobre o mundo e, claro, sobre o Brasil.
“Para o Copom, a transmissão dos desenvolvimentos externos para a economia brasileira pode se materializar por intermédio de diversos canais, entre outros, redução da corrente de comércio, moderação do fluxo de investimentos, condições de crédito mais restritivas e piora no sentimento de consumidores e empresários”, cita o comunicado.
Se economias centrais crescerem menos, a demanda por produtos e serviços brasileiros seguirá fraca. Isso vai reduzir o ritmo da economia doméstica. O Bradesco, por exemplo, prevê que, se a economia mundial crescer 1 ponto porcentual a menos, a expansão no Brasil deve perder pelo menos 0,65 ponto. Menos crescimento reduz a pressão de alta nos preços e diminui a necessidade de elevar o juro para manter a inflação sob controle.
Mesmo sem o quadro externo, o noticiário local já aponta para o fim do ciclo de aperto dos juros. Um dos principais sinais veio do Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br), dado que antecipa o comportamento do PIB e mostrou em junho a primeira queda desde dezembro de 2008. No mercado de trabalho, a criação de empregos tem perdido força e o próprio BC divulgou números que mostram desaceleração no ritmo de concessão de empréstimos.
Com isso, a preocupação do BC com a inflação parece ter arrefecido, apesar de o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) seguir em nível elevado. Nos últimos 12 meses, a alta acumulada é de 6,87%, acima do teto da meta de inflação de 6,5%. Para os próximos 12 meses a expectativa para o IPCA é de 5,47%.
Apesar do corte, a decisão mantém a taxa de juros brasileira no topo do ranking mundial, bem à frente de Rússia e Egito (ambos com 8,25% ao ano), Índia (8%), China (6,56%) e Turquia (5,75%). Em economias desenvolvidas, como Estados Unidos, Japão e Grã-Bretanha, a taxa está próxima de zero.