
Essa era a projeção que ele mesmo fazia para 2008, antes da quebra do Lehman Brothers e de um expressivo estoque acumulado em pátios de montadoras e concessionárias.
Para caminhões e ônibus as vendas devem ficar ao redor de 120 mil unidades este ano, graças ao incentivo do IPI e aos financiamentos via BNDES que ajudaram a esquentar a demanda.
Belini estima um avanço de pelo menos 5% no mercado interno em 2010, para algo como 3,15 milhões de unidades. Contando caminhões e ônibus o total chegará a 3,3 milhões de veículos. “Mas o cenário não está completamente claro. Há a questão do IPI em pendência e uma possibilidade de crescimento da inflação, fatores que podem mudar os números” — adverte.
Para a Argentina as estimativas indicam um mercado estável no próximo ano, equivalente às 800 mil unidades que devem ser emplacadas em 2009.
A Fiat Automóveis caminha para a produção de um milhão de unidades, somando as instalações de Betim e Córdoba.
Apesar do volume expressivo de investimentos prometidos para o Brasil no setor automotivo, Belini ressalta que há perda de competitividade da indústria. Este ano as exportações de veículo devem somar 420 mil unidades, mas as importações chegarão a 460 mil unidades.
Lançamentos
Belini sabe que o mercado deve ser alimentado por novidades. “Teremos muitas em 2010, talvez vinte. E uma grande surpresa” — explicou, sem dizer qual será a grande surpresa. Ele pode estar pensando no novo Uno, que pode aproveitar partes do Fiat Panda?
23,3% do PIB
Segundo Belini a indústria automobilística local já alcançou a capacidade de montar 4 milhões de veículos por ano. Há 25 fabricantes e outras 200 mil empresas na cadeia produtiva e de serviços. O setor, que registra um faturamento de R$ 146 bilhões e paga R$ 40 bilhões em tributos, representa 23,3% do PIB industrial e 5,5% do PIB total.
Cenário internacional
O executivo avalia que o cenário internacional para a indústria automobilística ainda traz grandes desafios. Este ano o mercado mundial deverá absorver 54 milhões de veículos, contra 70 milhões de 2008. No próximo ano as vendas devem avançar para 60 milhões e só em 2012 somarão 75 milhões.
O excesso de capacidade de produção mundial em 2009 é da ordem de 33 milhões de unidades. Em 2010 a sobra cairá para 26 milhões e em 2011 para 19 milhões.
A queda dos mercados foi diferente para cada região do planeta. A Russia registra uma queda de 51%, os Estados Unidos 25%, a Alemanha 26%, o Japão 12%. Poucos países saíram do vermelho, como o Brasil (7%) e a China (45%).
Com as mudanças na geografia global, os BRICs passam a representar 28% do mercado automotivo global. Em 2001 o índice era de apenas 9,8%.
Importações
As importações preocupam os fabricantes locais, já que há quase uma unanimidade sobre a continuidade de uma relação cambial favorável às compras externas. A Fiat só traz de fora o Cinquecento. Nem mesmo componentes a empresa tem importado: deixou essa decisão para os próprios fornecedores.
Exportações
As vendas externas despencaram. Em boa parte devido à relação cambial. De outro lado por que a demanda lá fora desapareceu e há uma enorme sobra de capacidade instalada. Os fabricantes de outros países, assim, enxergam o Brasil como uma boa oportunidade para colocar o excesso de produção e manter as linhas de montagem em funcionamento.
O Brasil, segundo a Fiat, exporta 5,8% de impostos embutidos nas vendas internacionais de seus veículos.
Acordo com UE
Belini é totalmente favorável a um acordo entre o Mercosul automotivo e a União Européia, mas adverte que não pode haver abertura generalizada para importações com baixa nas alíquotas. Deveria haver uma gradualidade e uma fase de transição, como aconteceu com o México.
Para o executivo o acordo bilateral é um bom caminho, que permite desenvolver produtos e plataformas, com alta escala para o mercado interno e exportação. Seria lógico complementar a distribuição local com alguma importação.
Escala
Volume elevado de vendas é importante para ganhar escala de produção. A região possui apenas 5 plataformas com vendas anuais superiores a 200 mil veículos — pouco para chegar aos 5 milhões de unidades que elevariam a competitividade. Na Ásia há 42. Na América do Norte e na Europa, 23.
Aço caro
A Fiat Automóveis compra aço no mercado interno 30% mais caro do que na Turquia e Itália e até 40% mais caro do que na Índia e China. Há uma grande discussão a respeito em todo o setor automotivo, que atribui parte da diferença ao efeito cambial.
Investimentos
A Fiat aplica R$ 6,2 bilhões no País no período 2008 a 2010, dos quais R$ 1 bilhão esta sendo destinado à retomada da fábrica da CNH em Sorocaba, SP, para colheitadeiras de alta tecnologia. Segundo o executivo, o País precisa de bons equipamentos no campo, já que existe um enorme desperdício na colheita – algo equivalente a toda a produção agrícola da Itália.
O próximo ciclo de investimentos ainda não está definido — a não ser nas silenciosas divagações de Belini.
Receita
Em 2008 a Fiat faturou R$ 19,5 bilhões na região. O lucro da operação ficou em R$ 1,9 bilhão, com um avanço de 10,5% sobre 2007. Em 2009 haverá lucro — garante Belini.
Capacidade
“Sempre conseguimos avançar na capacidade de montar mais veículos em Betim. Podemos pensar em até uns cem mil a mais. Temos alguma sobra de capacidade em Córdoba, onde produzimos o Palio e o Siena e podemos chegar a 460 veículos/dia. Hoje a Fiat pode monta cerca de três mil veículos por dia. Se for preciso, vamos em frente.” — diz o executivo.
Liderança
É importante ser líder de mercado. Claro. Mas a visão de Belini avança para uma gestão de resultados, capaz de empolgar os acionistas que vão decidir sobre novos investimentos no Brasil.
Por que a Fiat perdeu a liderança na venda de automóveis, embora ganhe na soma com comerciais leves? Resposta do seu presidente: ‘no começo do ano pisamos no freio. Faltaram alguns produtos na ocasião, que fizeram diferença’.
Chrysler
A operação da Chrysler é independente da Fiat no Brasil. O suporte local é dado pela Daimler, mas será assumido pela montadora italiana em 2011. As redes de distribuição devem manter a independência.
Preço por quilo
Belini costuma fazer uma curiosa comparação para mostrar que o carro não é tão caro assim. Ele explica que um veículo custa o equivalente a R$ 27 por quilo, enquanto a comida num restaurante fica em R$ 30, uma TV de plasma em R$ 95 e um quilo de iPod vale R$ 5 mil.
Vendas diárias
Belini entende que o Brasil foi o primeiro país a sair da crise financeira internacional e receberá um forte fluxo de recursos em investimentos no setor automotivo. “O mercado local é muito atrativo e já representa o quinto maior do mundo” – disse.
A média diária de vendas de veículos, indicador que considera o mais expressivo dos negócios no setor, foi de 14,7 mil unidades em setembro. Logo depois da quebra do banco Lehman Brothers o nível de 11,5 mil unidades diárias comercializadas no País despencou para 8,3 mil e sobrou um grande estoque de veículos. Coube ao estímulo do governo, por meio da redução do IPI, desmanchar o enorme encalhe.
Argentina na frente
Para o presidente do Grupo Fiat o potencial de crescimento das vendas de veículos no País é muito grande. Enquanto aqui há um carro para cada 7,4 habitantes, nos Estados Unidos o índice é de 1,2; na Europa, de 1,6 a 1,8; na Argentina, de 4,8.
“Para chegarmos ao nível de densidade da Argentina precisamos colocar no mercado 15 milhões de veículos. Para alcançar a Europa, 70 milhões” – calcula Belini.