
À primeira vista, Bogotá é um caos. A capital da Colômbia não tem metrô e seu sistema de VLT será inaugurado apenas em 2028. Por conseguinte, seus mais de 7 milhões de habitantes têm de encarar um trânsito de chatear até mesmo bicho-preguiça. O tráfego é composto por um emaranhado de motos, caminhões, táxis (em sua maioria Hyundai Actos e Kia Picanto) e, claro, ônibus.
Bogotá, como o parágrafo acima deixa evidente, demorou a organizar seu sistema de transporte público. Há, ainda, poucas alternativas para a população. No entanto, a capital colombiana está muito à frente de outras grandes cidades da América Latina, inclusive São Paulo, no quesito ônibus elétricos.
A cidade se preparou, de modo inteligente, a fim de mitigar emissões por meio desses veículos. Atualmente, cerca de 1.500 ônibus elétricos, quase todos da BYD, circulam pelas ruas de Bogotá. O número representa aproximadamente 15% da frota total do município.
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A comparação com São Paulo chega a entristecer um coração brasileiro. Atualmente, a frota da capital paulista é composta por quase 13,3 mil ônibus. Destes, apenas 117 são elétricos.
Vale lembrar que, lá nos idos de 2021, o prefeito da cidade, Ricardo Nunes, havia prometido que 2,6 mil veículos do tipo estariam circulando pelo município até o fim de 2024. Bom… Já estamos em abril.
Mas voltemos ao polo econômico da Colômbia. Os ônibus elétricos que rodam por Bogotá atuam como alimentadores, fora dos corredores do BRT. No entanto, já estão sendo realizados testes com articulados que utilizam tal tecnologia dentro desses limites.
A gestão do transporte público em Bogotá fica a cargo da TransMilenio. Além dos ônibus, a “SPTrans colombiana” administra os teleféricos (que ajudam em uma cidade com topografia acidentada) e os 27 bicicletários do município.

Atualmente, são registradas diariamente 1,97 milhão de passagens no BRT e 2 milhões nos alimentadores. Em São Paulo, por exemplo, cerca de 7 milhões de passageiros/ dia utilizam o modal.
Segundo Deysi Rodriguez, diretora de planejamento da TransMilenio, o BRT de Bogotá tomou como base o case de Curitiba (PR).
“É um sistema retroalimentado, dinâmico e que reaproveita espaço público de forma a garantir ao município áreas verdes. Trabalhamos forte nos últimos dez anos rumo ao processo de descarbonização e vamos reduzir as emissões em 50% até 2030 com base no Acordo de Paris”, disse.
Hoje, a cidade dispõe de 111,4 km de corredores de ônibus. Rodriguez garante que, até 2025, mais 78,6 km serão entregues a fim de ampliar a malha para os usuários do serviço.
Eletrificação: Infraestrutura e investimento
Quem chegou até o intertítulo já deve ter questionado, lá nas primeiras linhas deste texto mambembe, o custo da eletrificação de parte da frota de ônibus de Bogotá. Pois bem. Estima-se que o investimento tenha sido na casa de R$ 1 bilhão. O montante, vale frisar, serviu tanto para a compra das unidades quanto para a implantação da infraestrutura de recarga.
E é aí que, na comparação, a rocha quebra para São Paulo. Ao contrário da capital paulista, Bogotá optou por encetar seu processo de eletrificação da frota não pela galinha, mas sim pelo ovo. A cidade colombiana aplicou recursos em infraestrutura ao passo que adquiriu os ônibus.

Enquanto isso, em São Paulo, pode até existir amor. No entanto, não há infraestrutura para atender aos 2,6 mil ônibus elétricos prometidos para o fim deste ano. Além disso, bom destacar, sequer existem normas de segurança definidas para que tais veículos operem com segurança.
Vale frisar ainda que a Prefeitura de São Paulo recebeu, em linha de crédito, R$ 5,75 bilhões para comprar os ônibus elétricos. Todavia, a administração de Ricardo Nunes diz que a Enel, concessionária de energia do município, pede R$ 1,6 bi para levantar a infraestrutura a fim de atender aos modelos. O impasse entre as partes faz com que a coisa não vá adiante.
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E como isso foi feito na Colômbia? Em Bogotá existem modelos distintos, mais flexíveis do que a forma paulistana. A compra da energia, por exemplo, pode ser realizada no livre mercado, sem depender de uma única distribuidora.
Ademais, as licitações foram realizadas de modo separado. Dessa forma, as companhias foram capazes de escolher se ficariam responsáveis pela operação, pela infraestrutura e pelos ônibus. Tal garantiu às empresas maior segurança jurídica e, especialmente, flexibilidade.
“Esse formato facilitou bastante a entrada de empresas estrangeiras no processo, que se deu de forma ágil. Assim, além dos incentivos do governo, pudemos buscar o apoio de instituições financeiras locais e também do exterior”, destacou Lara Zhang, diretora regional da BYD para a América Latina.
Ainda de acordo com Zhang, a própria montadora serviu de ponte entre poder público e atores do mercado internacional.
Bogotá tem maior garagem de ônibus elétricos da AL e solução de recarga suspensa
Prova da agilidade no processo é a garagem da Green Movil, empresa que tem 50% de participação da francesa Transdev e 50% da colombiana Fanalca. O espaço tem área de 400 mil metros quadrados e abriga 406 ônibus elétricos e 381 pontos de recarga. O centro logístico foi construído em apenas um ano e foi inaugurado em abril de 2022.
O projeto, de fato, impressiona. Tanto é que trata-se da maior garagem de ônibus elétricos da América Latina e da Europa. O centro logístico movimenta energia elétrica suficiente, de acordo com o diretor de planejamento da Green Movil, para alimentar uma cidade de 200 mil habitantes.
Neste caso, a energia é distribuída pela Enel, mas quem a vende é a Terpel, tradicional empresa colombiana do ramo de óleo e gás. Os ônibus da Green Movil, bom dizer, transportam 80 mil passageiros por dia. A companhia opera 14 linhas, divididas em dois contratos.
Outra empresa focada nos ônibus elétricos em Bogotá é a La Rolita, que tem como acionista majoritária a TransMilenio e, por conseguinte, pertence ao governo. A companhia dispõe de 195 veículos em sua garagem, todos com chassis BYD.
O espaço é otimizado de modo muito interessante. Conta com uma solução aérea de recarga, com 21 carregadores (com mais de uma mangueira) espalhados por cinco ilhas, totalizando 183 estações. Eles podem recuperar a autonomia de mais de um ônibus simultaneamente, entregando entre 30 kW e 120 kW.

Com todas as ilhas ocupadas, o tempo de recarga dos veículos é de, no máximo, sete horas. No entanto, o processo é feito de modo escalonado, já que a TransMilenio exige período máximo de cinco horas para recuperação de autonomia dos ônibus.
A garagem, que tem área útil de 28 mil metros quadrados, recebe energia de duas subestações que ficam localizadas próximas ao espaço. Os ônibus elétricos da La Rolita transportam diariamente 44 mil pessoas em 10 linhas.
