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Pedro Kutney, AB
A espera pelo licenciamento obrigatório para importação de veículos, se demorar o prazo limite de 60 dias, pode emperrar o comércio de cerca de 58 mil veículos entre Brasil e Argentina, ou algo em torno de US$ 1 bilhão em estoque parado nos pátios das montadoras. A estimativa é de Rogelio Golfarb, diretor de assuntos governamentais e corporativos da Ford América do Sul e ex-presidente da Anfavea na gestão 2004-2007.
“Esse valor parado tem custo elevado, dos juros que renderia caso estivesse no banco”, alertou o executivo, ao comentar as restrições adotadas pelo Brasil na semana passada, que passou a exigir para importações de veículos a autorização prévia do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).
Golfarb destacou que a medida é uma restrição burocrática a mais, pois todos os veículos importados pelo Brasil já precisavam de licenciamento não-automático do Ibama, que confere a conformidade com a legislação local de emissões de poluentes. Mas essas licenças estavam sendo obtidas rapidamente. Já a nova burocracia do MDIC tem grande potencial de emperrar o comércio bilateral de veículos entre os dois países. “Não se sabe quanto tempo cada autorização vai demorar para sair, pode ser um dia ou dois meses. Isso causa grande insegurança e afeta todos os planos de importação e exportação”, explicou.
Ford em compasso de espera
O diretor disse que a Ford ainda não experimentou na prática a nova burocracia de importação no MDIC, pois pegou no meio do caminho, ainda no mar, o embarque mais recente de carros da marca feitos na Argentina e enviados para o Brasil. “Já entramos com o pedido, mas não sabemos em quanto tempo teremos a liberação”, acrescentou.
Em 2010 a Ford movimentou 60 mil veículos entre suas unidades no Mercosul, somando os Focus e Ranger trazidos da Argentina para o mercado brasileiro e os Ka, Fiesta e EcoSport enviados do Brasil para lá. “Isso demonstra como o comércio bilateral é importante para nossa competitividade na região”, ressaltou Marcos de Oliveira, presidente da Ford Mercosul. “No curto prazo não vemos problemas, mas precisamos de clareza e transparência para direcionar nossas ações.”
Golfarb admite que as medidas atrapalham substancialmente as operações de diversos fabricantes de veículos em ambos os lados da fronteira. Por isso a estratégia do setor, desde a semana passada, é a de fazer os dois lados negociarem o mais urgentemente possível. Isso deve começar na próxima semana. Após duas horas de conversa na manhã desta terça-feira, 17, entre o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Enio Cordeiro, e a ministra argentina da Indústria, Débora Giorgi, foi pré-agendada uma reunião de dois dias entre os secretários de Indústria da Argentina, Eduardo Bianchi, e o secretário-executivo do MDIC, Alessandro Teixeira.
Alkmin apoia medida “neste momento”
Presente ao mesmo evento promovido pela Ford na quinta-feira, em comemoração aos dez anos da linha de produção de caminhões em São Bernardo do Campo, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), ao ser questionado por jornalistas também comentou a decisão do governo federal de adotar licenças não-automáticas para a importação de veículos. Alkmin avalia que a “indústria brasileira não precisa de proteção”, mas ponderou que “neste momento a medida é importante”. Para o governador, não houve imposição de barreiras. “Eu não diria que são barreiras, são regras, e acho que é importante ter regras no comércio internacional e nas relações comerciais.”