Sempre gostei muito de palíndromos, aquelas combinações de letras que formam palavras que podem ser lidas da esquerda para a direita (nossa maneira normal) ou da direita para a esquerda, sem perder o sentido. E, da mesma forma, o título deste texto pode ser lido como um palíndromo de palavras. O sentido da leitura não altera seu significado.
Acompanho com interesse profissional e pessoal tudo que Automotive Business faz, que sempre é de excelente qualidade e colabora de verdade para o melhor entendimento do nosso setor e para a melhoria contínua dos negócios.
Lendo a newsletter do dia 7 de junho, três notícias chamaram a minha atenção e reproduzo aqui as manchetes de cada uma delas: (1) Fiat deixará de vender carro a combustão até 2030, (2) Nova bateria vertical pode aumentar a autonomia do carro elétrico em 30%, e (3) Na contramão do mundo, carros elétricos serão só 10% das vendas no Brasil em 2030.
Achei curioso que as três estivessem numa mesma edição. Outra curiosidade foi que 2030 está aí, à nossa porta. E foram essas coincidências que me levaram a escrever esta reflexão sobre os quatro temas do título.
Há quase dois anos fui convidado pelo Rodrigo Carneiro, presidente da ANDAP (Associação Nacional dos Distribuidores Atacadistas de Autopeças) a conduzir um painel sobre eletrificação veicular e seus impactos no mercado de reposição (o aftermarket). Para enriquecer o painel chamei dois experts: o professor Mauro Alves, do Senai, e Silvio Cândido, proprietário da oficina Peghasus.
Para começar o painel, propus aos participantes um cenário hipotético: imaginem que como ato derradeiro de Michel Temer na presidência ele decretasse o final da produção de veículos como motor de combustão interna (MCI) a partir de 1º de janeiro de 2019. O impacto deste ato junto às montadoras, sistemistas, fabricantes de autopeças, indústria petroquímica, concessionários, seria brutal. Mas e o aftermarket?
Para esta simulação o time da Fraga Inteligência Automotiva calculou o que batizamos de “Efeito Cuba”, ou seja, se não produzíssemos mais veículos MCI no Brasil até quando haveria manutenção dos veículos em circulação? A resposta foi estarrecedora: até 2080!
Passaríamos a ser um nicho de mercado, tão especializado quanto quem conserta máquinas de escrever e aparelhos de videocassete. Veríamos a representação clássica de uma curva de ciclo de vida de produto como aprendemos nos manuais de marketing.
Porém, e sempre há um porém, algumas premissas do modelo de eletrificação veicular não podem ser gravadas na pedra. E para entender onde está esse gargalo é importante olhar para o macroambiente, para aquelas variáveis incontroláveis que afetam o seu, meu, o negócio de todos. Vamos a elas.
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O APELO SUSTENTÁVEL |
É inegável que a queima de combustíveis fósseis traz problemas para o planeta, além de serem economicamente complicadas, visto se tratar de fontes não renováveis. Mas, em estudo realizado em 2014, pesquisadores ligados à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo e à Faculdade de Saúde Pública estudaram os dados de congestionamento e qualidade do ar na cidade de São Paulo entre 1999 e 2006, e os resultados mostraram um coeficiente de correlação negativa. O aumento dos congestionamentos, tanto em duração temporal quanto em extensão, causou uma diminuição de poluentes. A explicação é tecnológica.
Desde a adoção do Programa de Controle de Emissões Veiculares (Proconve) em 1986, a obrigatoriedade dos convertedores catalíticos (catalisadores) trouxe uma melhora significativa na quantidade e na qualidade das emissões.
E ainda no capítulo tecnologia, o que dizer a respeito do uso do etanol no Brasil? Uma fonte de energia renovável, que remonta a meados dos anos 1970. Passado o período de introdução (no mesmo gráfico de ciclo de vida de um produto), em que os carros movidos a etanol não davam partida em manhãs frias, à adoção do tanquinho de gasolina até às tecnologias atuais para partida a frio, o que vimos foi um avanço nesta inovação, fazendo com que quase 70% da frota circulante seja composta por veículos flex fuel.
Voltando ao macroambiente, o apelo sustentável de veículos elétricos na América do Norte e na Europa pode ser reputado a questões geopolíticas.
De Nixon (1969-1974) a Obama (2009-2017), a dependência de petróleo de origem estrangeira nos Estados Unidos passou de 36,1% para 66,2%, ou seja, dois terços de todo o petróleo consumido por lá vem de outros países, principalmente Venezuela, Nigéria e Arabia Saudita. Some-se a isso o fato de toda a economia doméstica norte-americana depender da mobilidade.
Com exceção das grandes cidades que dispõem de um sistema de transporte público estruturado (como Chicago ou Nova York), o uso de veículos é indispensável na maioria das cidades. Uma estatística comparativa mostra que por lá a proporção é de 797 veículos a cada 1.000 habitantes. Aqui, são 249 veículos a cada 1.000 habitantes.
Na Europa a situação da mobilidade é assunto de há muito discutido. Nas históricas cidades de Paris, Roma, Londres, o sistema de transporte público é o preferido, ainda que as proporções de veículos por 1.000 habitantes sejam maiores que as brasileiras (França: 578/1.000, Alemanha: 572/1.000, Itália: 679/1.000).
A dependência de petróleo russo (27%), iraquiano (9%), nigeriano e saudita (8% cada), também colocam a União Europeia em situação de vulnerabilidade geopolítica.
Se em geral os habitantes do Velho Continente (ingleses incluídos) tendem a ser mais “verdes” que os vizinhos do outro lado do Atlântico Norte, a motivação econômica para uma mudança na matriz energética da mobilidade para a eletricidade, tampouco é sustentável já que o uso de termoelétricas abastecidas com gás ucraniano ou usinas nucleares não são exatamente fontes renováveis.
Neste sentido, o nosso etanol de cana-de-açúcar, a construção de fazendas solares e parques eólicos são, inexoravelmente, fontes de energia renovável e acima de tudo sustentáveis.
Ameaçados como estamos de um eventual racionamento de energia no segundo semestre, vamos recarregar os carros elétricos onde? Há, mas existe a regeneração de energia durante o uso do veículo, mas é suficiente? E em largas distâncias em que só há aceleração e pouca frenagem, o que vai carregar este veículo? Daí a chamada da nova bateria vertical, para aumento da autonomia.
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UM DISCURSO LUDDITA? |
Os ludditas se notabilizaram no início da Revolução Industrial na Inglaterra por serem contrários ao desenvolvimento tecnológico advindo com a mecanização da indústria têxtil e como forma de protesto, quebravam as máquinas.
Longe de propor um discurso ludditas, minha reflexão se dá no campo da lógica inexorável dos negócios, das vantagens comparativas e das vantagens competitivas.
Não há nada mais sustentável que o mercado de reposição. É prática comum e corrente nas organizações a adoção dos princípios dos 3Rs (reduzir, reciclar e reutilizar). O mercado de reposição agrega um quarto R a estes princípios: reparar.
Fortalecer o mercado de reposição é ser sustentável. A legislação ambiental transformou as oficinas (da rede de concessionárias ou independentes) em modelos de referência sobre práticas ambientalmente corretas. O desafio é a capilaridade deste nosso país continental, mas como quase tudo no mundo business trata-se de uma equação de retorno diretamente ligada ao esforço.
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PARA ONDE VAMOS? |
Me parece razoável pensar que a terceira chamada da newsletter sobre o Brasil na contramão do mundo, seja justamente o contrário se a razão de ser da eletrificação veicular esteja pautada na sustentabilidade.
Matéria recente de Valor Econômico apontou que só 12,4% das rodovias brasileiras são pavimentadas. Como estabelecer uma infraestrutura de postos para recarregar veículos elétricos em situações como esta?
Se a eletrificação tem um apelo sustentável, que particularmente discordo, como implementá-la se não temos energia, nem estradas, nem infraestrutura?
Voltando à contramão, me lembrei de um conto em que um motorista está trafegando numa avenida e escuta no rádio: “atenção tem um veículo na contramão na avenida”, ele olha para os lados e afirma: “um não, vários”.
O que você acha?
Marcelo Gabriel é diretor de desenvolvimento de negócios da Latin America for Business – LA4B. Seu contato é [email protected]

