Ao longo de dez anos até 2012, a situação de pleno emprego, renda em elevação e crédito fácil criou essa miragem, permitindo a análise um tanto quanto frouxa da realidade nacional. Criou-se a expectativa de que no meio desta década, precisamente este ano, o mercado nacional de veículos estaria virando a esquina das 4 milhões de unidades, para se catapultar aos 5 milhões na virada da década. Em vez disso, a realidade é que o setor entra em seu terceiro ano consecutivo de retrocesso, em queda de quase 30% na comparação 2014/2015, devendo mal passar das 2,5 milhões de unidades vendidas, resultado 1 milhão menor que o do ano anterior – que também já não tinha sido bom, com recuo de 7% sobre 2013.
O pior é o legado negativo que contagia a próxima década inteira. Agora, em efeito manada, a maior parte dos analistas só vê o mercado voltar a ultrapassar a barreira de 3 milhões de unidades após 2020, ficando ainda bastante abaixo do pico histórico de 3,8 milhões registrado em 2012. Basicamente, como que por mágica, dez anos previstos de crescimento robusto sumiram do horizonte, para dar lugar à previsão de tímidos passos de recuperação somente a partir do último trimestre de 2016, na melhor das hipóteses. Tudo mudou – a miragem se foi.
VOO DE GALINHA
É fato que a instabilidade política e econômica pela qual passa o País gera insegurança para consumir, mas tamanha retração de demanda não pode nem deve ser creditada exclusivamente à teoria geral da falta de confiança. Talvez a elasticidade da demanda brasileira tenha sido mal calculada, reduzindo projeções a pó, porque não estavam lastreadas na realidade.
E qual é essa realidade? Um país de renda muito baixa para ter um mercado tão grande quanto 4 milhões ou 5 milhões de veículos por ano. Esse fato foi momentaneamente compensado por descontos tributários e crédito fácil, que fizeram prestações caber no bolso a despeito de preços relativos elevados e juros estratosféricos. Por isso mesmo a inadimplência bateu em níveis recordes – com boa ajuda de concessionárias incentivadas em ganhar mais dinheiro em comissões vendendo financiamentos do que carros.
O ápice desse voo de galinha ocorreu em 2012, último ano de crescimento em que o mercado ainda se sustentava em insustentáveis incentivos, com desconto de imposto (IPI) que foi sendo renovado até o fim de 2014, já sem tanto efeito, quando o governo finalmente admitiu que gastou mais do que podia. O crédito também foi definhando, de um lado porque os bancos não podiam mais perder dinheiro com inadimplentes e assim tornaram-se mais restritivos nas concessões, mas também porque as gordas comissões dadas às concessionárias foram transformadas pelo BC em comportadas taxas de prestação de serviços como correspondentes bancários, reduzindo bastante o interesse em se vender financiamentos. Nem mesmo a aprovação de legislação que facilita a retomada de automóveis em caso de inadimplência foi capaz de reavivar o interesse em conceder ou tomar crédito para comprar veículos.
A retração da economia e do emprego, iniciada já em 2014, com alta de juros e renda corroída pela inflação, fizeram o resto do trabalho, dissipando a miragem que atende pelo nome de “potencial”, um quase antônimo de real.
MOTORIZAÇÃO X RENDA
O tal potencial está na relação habitante por veículo, que já evoluiu muito no Brasil, passando de 11 para um em 1994 para os atuais 5,1 para um. É um número que faz brilhar os olhos de qualquer otimista, já que na vizinha e combalida Argentina esse índice é de 3,6, o mesmo do México. Justamente aí reside a miragem.
Claro que há potencial para crescer mais, tanto que a projeção da associação dos fabricantes de veículos, a Anfavea, é de que em mais 20 anos o País se coloque na mesma posição de nações desenvolvidas hoje, com 2 a 2,5 habitantes por veículo em circulação, com vendas que poderiam variar de 6 milhões a 8 milhões de veículos/ano (outra miragem?).
A dificuldade nada desprezível não computada aí é a baixa renda do País, que no ritmo atual vai demorar muito mais tempo para crescer e assim não sustenta a expansão esperada pela indústria automotiva.
É admirável o fato de algo como 40 milhões de pessoas nos últimos dez anos terem adentrado à classe média no Brasil, mas isso significa salário médio não muito maior que R$ 2 mil, o que é pouco para comprar um carro pelos preços relativos praticados aqui. Segundo dados do IBGE, a renda real média dos brasileiros é de R$ 1,9 mil, que sobe para R$ 2,2 mil quando considerada a média só das cinco maiores capitais nacionais. Ao se considerar que isso é uma média e que no País apenas 1% da população concentra 60% da riqueza, cai ainda mais o número de pessoas em condições reais de adquirir um bem tão caro quanto um automóvel.
Essa desigualdade se acentua na comparação entre Norte e Sul do País. São Paulo, por exemplo, é a cidade mais rica e, ainda assim, a renda média aferida pelo IBGE é de R$ 2.223, mas o índice de motorização é equivalente ao de nações desenvolvidas, entre 2 e 2,5 veículos por habitante, porque há grande contingente de pessoas com maior rendimento. Já no Nordeste essa relação passa de sete para um, mas a renda é a metade. Por isso mesmo, enquanto no Sudeste existe ao menos um carro na garagem de 61% dos lares, no Norte e Nordeste essa proporção é substancialmente mais baixa, mal passa de 21%.
Mesmo em capitais nordestinas os salários são menores: em Recife a renda média real é de R$ 1.572, valor 29% menor do que em São Paulo; quase o mesmo acontece em Salvador, onde o trabalhador recebe em média R$ 1.618 por mês. Portanto, nos mercados onde as vendas têm mais espaço para avançar, também há menos dinheiro e pessoas que podem comprar um bem tão caro quanto o veículo. Nesse caso, o tal potencial não passa de potencial.
Existem sinais de saturação do mercado brasileiro antecipada por falta de crescimento econômico, com consequente elevação do desemprego e retração da renda. É uma desculpa aceitável para justificar a enorme retração das vendas de veículos. Mas a pergunta que fica sem resposta é: mesmo que não houvesse crise ou falta de confiança, nem que o perdido ano de 2015 tivesse acontecido, a renda atual dos brasileiros teria capacidade sustentar vendas de 4 milhões ou 5 milhões de unidades/ano?
Quem acreditou que a resposta seria sim investiu em ampliação de capacidade para atender a demanda projetada e têm hoje fábricas operando com ociosidade entre 40% e 50%. Só nas montadoras existe excedente de pessoal em torno de 30 mil empregados (além dos 23 mil já demitidos nos últimos dois anos).
Artificialmente inflado por incentivos que não se sustentam ao longo do tempo, o mercado-miragem já pagou generosos bônus reais a alguns tomadores de decisões da indústria automotiva. Agora, assim como o Tesouro Nacional, chegou a hora de pagar a conta do cálculo mal feito – e não é barato.