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Brasil será o fiel depositário do motor a combustão no mundo automotivo elétrico?

Muitos países, mesmo alguns que não fazem parte do chamado Primeiro Mundo, já definiram ou estão definindo uma data para a proibição da produção de veículos com motores a combustão, também determinando que esses veículos deixem de circular – algumas cidades já proíbem a circulação em determinados locais e horários conforme o ano de fabricação do modelo. A Noruega determinou essa proibição para 2025 (2023 para os táxis), Israel 2030, Índia 2030, Califórnia 2035 e Inglaterra 2035, só para citar alguns exemplos.
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Redação AB

11 out 2019

4 minutos de leitura

No Brasil há um Projeto de Lei no Senado Federal propondo a proibição gradual dos motores a combustão, iniciando em 2030, com proibição total até 2060.

As emissões de poluentes e CO2, gás de efeito estufa, motivam as leis de eliminação dos motores a combustão. Segundo o professor Paulo Saldiva, morar em São Paulo significa fumar de quatro a cinco cigarros por dia. A poluição veicular atinge principalmente quem espera seu ônibus nos corredores devido à concentração de ar poluído nas avenidas.

Ainda segundo o professor Saldiva, morrem na Região Metropolitana de São Paulo algo como 20 cidadãos por dia, vítimas do ar que respiram. Nesse número estão incluídos todos os níveis sociais, do gari ao PHD. Para além das tragédias pessoais e familiares que essas perdas significam, tem-se o efeito econômico para a sociedade, poder público, o País todo paga por isso.

Considerando essa realidade presente em inúmeras cidades brasileiras, em menor ou maior intensidade, não vemos aqui diretrizes governamentais efetivas para mitigar o problema da poluição veicular. A Inspeção Veicular foi implantada em São Paulo e, após poucos anos, foi desativada… Existe a legislação estabelecida pelo Proconve, o Programa de Controle de Emissões Veiculares, em vigor desde 1986, que apesar de ser uma conquista para redução dos níveis der poluição, avança vagarosamente na comparação com países desenvolvidos.

Apesar disso, os novos programas governamentais voltados a orientar o desenvolvimento da indústria automobilística no País, como o Rota 2030, não são tão enfáticos com a eletrificação dos veículos produzidos no Brasil e os benefícios que trariam para a redução das emissões.

O Rota 2030 incentiva a eletrificação sim, mas é mais condescendente com as novas tecnologias para motores a combustão, deixando a eletrificação para uma etapa posterior.

Essa falta de priorização parece abrir portas para as empresas já instaladas aqui ou novos entrantes a trazer, na esteira do Rota 2030, a transferência da produção daquilo que já tem data marcada para ser desativado em seus países de origem ou subsidiárias pelo mundo onde a proibição aos motores a combustão já foi estabelecida.

É grande o número de notícias sobre a produção, ou do aumento dela, de componentes anteriormente importados que passarão a ser nacionalizados e muitos exportados das nossas linhas. Eles alimentarão as linhas remanescentes de veículos a combustão em outros países, até a data da proibição de produção, e posteriormente abastecerão os mercados de reposição também até a data da proibição de circulação.

Temos observado, através de matérias recentes, que até Centros de Desenvolvimento de motores a combustão estão a caminho do Brasil, que dessa forma deixa de aproveitar suas potencialidades para a eletrificação dos veículos.

É preciso considerar que o Brasil:
• É um país rico em minérios para a produção de baterias e superímãs;
• Tem Sol abundante para produzir energia fotovoltaica (seu pior local de insolação é 40% melhor do que o melhor local na Alemanha);
• Tem potencial para 13 das 14 formas conhecidas de se produzir hidrogênio, outra fonte para produzir energia para carros elétricos com células de combustível;
• Tem matriz energética pouco dependente de termoelétricas, podendo substituí-las pelas energias eólica e solar (além da já largamente utilizada hidroeletricidade);
• Tem parque industrial automotivo de inúmeras marcas de alta tecnologia na eletrificação;
• Tem uma das maiores frotas de ônibus do planeta;
• Tem como principal modal de transporte de carga o rodoviário;
• Tem uma empresa nacional que é o terceiro maior fabricante mundial de motores elétricos.

Levando todos esses fatores em conta, fica a pergunta: O Rota 2030 beneficiará ou atrasará o Brasil no movimento mundial da eletrificação da tração?


* Luiz Roberto Imparato é economista com especialização em transportes, tem carreira de mais de 40 anos no setor automotivo, com passagens por empresas como Mercedes-Benz e Volkswagen Caminhões e Ônibus; atua como consultor de marketing automotivo e planejamento estratégico