
O Brasil tem todas as vantagens competitivas para ser protagonista no mercado global de baterias de lítio, se tiver os incentivos na hora certa. Essa é a aposta dos executivos da Moura e da BorgWarner que estiveram no Automotive Business Experience – #ABX24.
Cristiane Assis, gerente geral de eletrificação veicular da Moura, e Marcelo Rezende, diretor para sistemas de baterias da BorgWarner, participaram de um painel “O papel do Brasil na cadeia global de produção de baterias”, e compartilharam as estratégias de suas empresas para o futuro. A mediação ficou a cargo de Cristiano Doria, sócio da Roland Berger.
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A BorgWarner tem planos concretos de desenvolver toda a cadeia de baterias para veículos elétricos a médio prazo no país.
“Já temos definido no nosso planejamento estratégico produzir bateria inteira no Brasil, comprando só a célula [da Alemanha ou Estados Unidos]. Essa seria a fase 2 do nosso plano estratégico. Nos próximos 5 a 10 anos já devemos ter essa cadeia toda desenvolvida no país”, afirmou Rezende.
Para Cristiane, o Brasil tem muito potencial. Poém, é preciso pensar na infraestrutura. “Temos uma cadeia automotiva que vai nos suportar muito nesse processo, mas temos que pensar em como preparar a cadeia para produzir cada parte da bateria.”
Na visão dos executivos, o país tem todas as condições favoráveis para esse protagonismo na cadeia global de baterias: minérios disponíveis, potencial de mineração, produção de células, tecnologia e know-how, além de uma ampla matriz energética verde.
“Esses são alguns pilares que nos deixam em uma posição especial para que possamos ser protagonistas no futuro”, disse o diretor da BorgWarner.
Setor automotivo puxa indústria de baterias de lítio
Cristiane Assis observa que o setor automotivo está puxando a demanda por baterias de lítio e, por isso, as fabricantes se preparam para mudanças no processo de produção.
O objetivo das empresas é depender cada vez menos da importação de células e módulos de baterias, e encontrar uma forma de produzi-los nacionalmente.
Atualmente, no segmento de leves e pesados a Moura importa a célula e o módulo para montar o pack da bateria aqui. “Estamos mudando a estratégia e daqui um ano já vamos importar direto a célula, então, não vai precisar passar pelo módulo e o pack”, explicou ela.
Além disso, ela ressaltou que a Moura valoriza a indústria nacional. “Aquilo que já faz sentido nacionalizar já é feito. Um dos produtos automotivos pesados já conta com mais de 600 componentes nacionais, assim já agregamos valor ao que é local”, disse Cristiane.
O portfólio de baterias lítio da Moura inclui também baterias estacionárias (para torres de telefonia ou painéis fotovoltaicos), segmento tracionário (empilhadeiras e maquinários) e o sistema de armazenagem de energia BESS – esse último é uma das grandes apostas para ajudar a desenvolver a infraestrutura de carregamento de carros elétricos.
Já a BorgWarner está focada em ganhar o mercado de veículos comerciais (furgões, vans e caminhões). Na visão da empresa, é o segmento que puxa o mercado.
“Quando a BorgWarner adquiriu a Akasol, fabricante alemã de baterias, desenvolveu um ótimo know-how, com altíssima densidade energética com foco nos veículos comerciais. O pack tem 98kWh e é muito adequado para aplicações que demandam muita energia”, disse Rezende.
Incentivos são necessários
Em relação aos incentivos no país, os executivos elogiaram o Programa Mover pelo protagonismo e visibilidade que traz ao tema de eletrificação e da descarbonização, mas apontaram ressalvas sobre a falta de clareza da legislação.
“O Mover tem sido o carro-chefe na questão da descarbonização, junto com o Proconve, mas precisamos olhar com cuidado”, disse Cristiane. “Temos que entender as necessidades do país para atingir metas com o apoio de uma legislação focada e programas que abracem a descarbonização.”
O executivo da BorgWarner concorda. “O Mover traz sim uma certa visibilidade e incentivos para toda a cadeia de veículos elétricos e descarbonização, então, foi um passo importante”, disse Rezende.
“No entanto, ainda há muito a ser detalhado e desenvolvido nas leis para que a gente possa ter respaldo e segurança jurídica para continuar investindo no país.”
Rezende sugeriu ainda que algo semelhante ao Mover pudesse ser feito com o programa Caminho da Escola para incentivar o uso de ônibus elétricos no projeto federal.
“Vemos incentivo para fabricação de ônibus, mas não vemos nada puxando para a descarbonização. Precisa ter esse incentivo para os ônibus escolares serem elétricos. Talvez nos lugares mais afastados ainda não seja o momento, mas já temos infraestrutura para atender aos grandes centros”, concluiu Rezende.