
“Não há nada melhor do que o aumento dos salários e dos benefícios para impulsionar o consumo, mas isso só é bom desde que seja acompanhado por um ganho de produtividade da indústria. Não é o que acontece no Brasil”, afirmou Pastore.
A ponderação está fundamentada no estudo apresentado por André Portela Souza, professor da escola de economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que também durante o Fórum RH falou sobre o custo do trabalho na indústria. Segundo a pesquisa, enquanto a linha que representa a evolução da produtividade se mantém quase que em reta (linha tracejada azul), a de custo de trabalho é uma curva ascendente (linha tracejada verde), conforme mostra o gráfico abaixo, que considera o período entre 1998 e 2011.
“Percebemos que a produtividade não cresceu na mesma proporção que o custo médio de remuneração e essa equação é o que mais dói no bolso das empresas. O custo real do trabalho chega a ser 183% maior que o total bruto assinado em carteira”, justifica Portela.
Na opinião de Pastore, as empresas lidam com essa equação de duas maneiras: aumentando o preço do produto ou diminuindo seu lucro. No caso da indústria automobilística, o professor diz que a primeira alternativa é a que tem sido adotada.
“Em visita a uma empresa coreana, perguntei por que mantém uma unidade no Brasil. A resposta foi a seguinte: O Brasil tem o maior custo para se produzir um veículo, mas também é lá que consigo vender o carro mais caro do mundo. Eu me pergunto até quando o consumidor vai se submeter a pagar mais por um bem que lá fora sai muito mais barato. Do jeito que temos caminhado, daqui a sete anos, teremos uma grande perda de produtividade e de competitividade. O setor automotivo já mostra isso claramente. Se abríssemos as nossas portas para as importações, o problema seria ainda pior.”
Ele lembra que o custo do trabalho não está relacionado apenas à explosão dos salários, como também ao aumento de todos os benefícios pagos aos funcionários, como cesta básica, vale transporte, vale refeição, plano de saúde, transporte, entre outros. A pesquisa apresentada por Portela também revela esses dados: 2001 e 2011, o custo unitário do trabalho, ou seja, o custo de uma hora do trabalhador brasileiro na indústria subiu 70%, passando de US$ 3/hora para US$ 11/hora.
“Não é um valor tão alto, mas o custo no Brasil foi um dos que mais cresceram neste período entre os 34 países pesquisados: perde apenas para República Tcheca, Estônia e Eslováquia”, revela Portela.
Como consequência, a indústria sente pressão pelo aumento da demanda pelos produtos e pela falta de mão de obra disponível para atendê-la. Pastore acredita que as soluções passam também pelos departamentos de RH, que têm de atuar cada vez mais próximos dos empregados, dos sindicatos patronais e das associações setoriais de forma proativa, fortalecendo o associativismo. Na visão dele, uma reforma trabalhista será viável a longo prazo, trabalhando por partes e constantemente, rumo à modernização dos direitos trabalhistas.
“A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) não é ruim, mas está ultrapassada. Por que um trabalhador portador de deficiência física não tem direito a dois ou três dias de folga para fazer suas fisioterapias? Por que ainda temos uma carteira de trabalho impressa e não em cartão magnético? São medidas simples que, aos poucos, fariam toda diferença. A doença do Brasil é a sua fraca capacidade de produzir. Temos uma massa salarial robusta e expansão do crédito. Contudo, o Brasil não consegue superar a fragilidade dos investimentos e a disparidade dos preços. Essa é uma questão que vai muito além da geração de empregos”, conclui.