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Briga de turma, agora!

Quem na adolescência não passou por um momento no qual tenha se sentido inferiorizado ou agredido? Quem nunca pensou em juntar os amigos e partir para a briga? Todo mundo sabe bem o que é isso. Pois foi justamente essa expressão – “briga de turma” – a escolhida, com sensibilidade, por Roberto Yokomizo e Ambra Nobre durante o Programa de Gestão de Inovação para Empresas de Roupas Profissionais. Roberto foi escolhido para ser o líder do grupo de trabalho e Ambra dirigiu o projeto, desenvolvido pela Associação Nacional da Indústria Têxtil (ABIT) com o objetivo de fortalecer a inovação em empresas desse setor. Os recursos vieram da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
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Redação AB

26 set 2014

4 minutos de leitura

Durante 20 meses, 18 empresas associadas da ABIT trabalharam em grupo para se tornarem mais competitivas e inovadoras. E conseguiram! “Elas alcançaram um grau de maturidade que é único”, afirmou Rafael Cervone, presidente da associação. Segundo Caetano Ulharuzo, da ABDI, “o segmento de roupas profissionais está em um momento de agregação de tecnologia e pode gerar uma alavancagem nacional e internacional de mercado”. O mesmo Ulharuzo afirma ser possível repetir esse tipo de trabalho em outras cadeias produtivas, empresas, fornecedores e clientes visando aumentar o grau de inovação nas indústrias-chave do Brasil.

Apresento esse caso aqui porque o considero um claro exemplo de como é possível deixar de lado temporariamente o individual e trabalhar em “cluster” – desde que haja desejo e disposição por parte dos dirigentes. Vale destacar que esse projeto aconteceu em um setor (indústria têxtil e de confecções) que vive as mesmas ameaças do setor de autopeças. São territórios nos quais as importações e a força industrial da China têm deixado um verdadeiro rastro de sangue.

As importações e a baixa produtividade e competitividade brasileiras têm levado inteiros setores à míngua e, com eles, milhares de empregos e possibilidades de geração de renda. O governo federal, por intermédio da ABDI, sabiamente destina recursos para projetos de fortalecimento desses setores. No caso do têxtil e de confecções, um conjunto de empresas selecionadas pela associação e dispostas a participar se uniu para encontrar no campo da inovação as adequações das quais precisam, e o mais rápido possível. O projeto permitiu a elas adquirir o conhecimento necessário para competir. As 18 empresas capacitadas concretizaram planos que definiam como a inovação passaria a fluir internamente. Os representantes delas passaram a operar em sinergia. Trocaram dicas, experiências, emprestaram recursos uns aos outros e se tornaram um grupo. Ao final, criaram um Comitê de Inovação do setor que seguirá com os trabalhos.

O projeto prova que é possível, e extremamente válido, atuar em grupos de empresas quando a crise bate, de verdade, à porta. Pena que tenha de chegar a esse extremo…

Lembremo-nos de que as entidades associativas foram concebidas justamente para conferir força às associadas. No entanto, raramente conseguem-se resultados significativos. Nas reuniões, a choradeira corre solta, há um monte de blefes e nada, de fato, se concretiza. É como se os participantes, em dias de reunião nas associações, acordassem de manhã e vestissem uma máscara com um sorriso falso. Tudo bem, tudo muito bonito, mas, por trás, vigora um espírito de “como é que eu vou levar vantagem sobre os demais”.

“Briga de turma” é bem diferente. É se unir contra o inimigo. Conhecer as reais vulnerabilidades de cada um dos participantes do grupo e compor-se para eliminá-las. É somar as poucas forças que restam para defender a ação do conjunto.

O sucesso do projeto envolvendo o setor têxtil deveria ser inspirador para o setor de autopeças. Em especial para as empresas de médio e pequeno porte, que, quando imaginam que chegaram ao fundo do poço da crise, descobrem que tudo pode piorar. São elas que estão cara a cara com o fantasma da desindustrialização.

A mesma estratégia de agrupamentos para reativar a competitividade aparece ao revisitarmos o que salvou a indústria de crises em outros momentos históricos e países. São múltiplos os casos de estruturação de “clusters” e arranjos produtivos, como os que ocorreram na Itália do final da década de 1970.

Espera-se que o caso de sucesso descrito seja inspirador também para o governo, e que ele destine mais recursos desse tipo para um maior número de setores em crise. E mais: que os recursos encontrem dirigentes que acreditem nisso e se disponham a aprender para crescer.

Antes que seja tarde demais.