
O alvoroço em torno da presença da BYD no Brasil não está relacionado apenas à performance da empresa no mercado, mas também ao flagra de trabalhadores em condições similares à escravidão na fábrica que a companhia constrói em Camaçari (BA). No fim de 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) flagrou pessoas em condições que ferem a dignidade humana no empreendimento.
Os funcionários eram terceirizados da construtora chinesa Jinjiang, mas, vale lembrar, que sofriam maus tratos dentro dos portões da BYD. Agora, quase dois meses depois, a empresa enfim dá satisfação do que planeja para fazer o básico: cumprir a legislação brasileira e evitar que situações parecidas se repitam. Na tarde da quinta-feira, 16, a empresa contou quais são seus próximos passos para seguir com o cronograma previsto para a planta baiana.
Em comunicado, a companhia garante que começará a montar carros ali em regime SKD ainda em 2025, mas sem detalhar datas. No começo de dezembro, logo após o escândalo trabalhista estourar, a BYD apontou que essa operação teria início já em março e que, em agosto, faria a produção completa dos carros na unidade, com estamparia e pintura.
Não por coincidência, a empresa buscou atrair atenção positiva na época ao divulgar que empregará diretamente 10 mil pessoas na unidade agora em 2025 e, no próximo ano, dobrará esse número para 20 mil trabalhadores.
BYD traz construtora brasileira, mas ainda sem todas as definições
A fabricante de carros eletrificados anunciou duas principais medidas. A primeira é a contratação de uma construtora brasileira para fazer na obra de Camaçari os ajustes exigidos pelo (MTE). Dessa forma, os embargos para que o projeto seguisse plenamente caem.
Em nenhum momento a construção da fábrica foi totalmente interrompida. Segundo a BYD, o embargo tinha efeito em duas operações que foram consideradas inseguras: parte das escavações e a atividade de uma serra circular – ambas ficavam sob o comando da Jinjiang, com quem a companhia encerrou contrato no fim de 2024.
A promessa é divulgar em breve o nome dessa empreiteira que vai adequar as operações, além do plano de ação para a obra. A montadora também define neste momento qual construtora vai assumir, em definitivo, as operações que eram de responsabilidade da Jinjiang.
Comitê de compliance para impedir trabalho similar ao escravo na BYD
A segunda grande medida divulgada pela BYD para garantir que a construção da fábrica de Camaçari siga a legislação brasileira foi a criação de um comitê de compliance que acompanhará todo o projeto. O grupo é formado por profissionais da montadora, escritórios de advocacia, especialistas em direito e segurança do trabalho e um consultor independente.
A ideia é que o comitê verifique se o empreendimento está adequado à legislação brasileira e tenha autonomia para acompanhar as condições de trabalho, implementar melhorias nos processos e corrigir eventuais falhas nas obras da fábrica.



A nova situação dos trabalhadores da fábrica da BYD
Ao distribuir o comunicado, a BYD fez questão de compartilhar fotos que, segundo a companhia, retratam as condições atuais dos trabalhadores envolvidos na obra da fábrica. Segundo a empresa, as equipes agora almoçam no refeitório, em situação adequada.
No fim do ano, o MTE flagrou alimentos armazenados em condições insalubres, além de alojamentos que desrespeitavam a dignidade humana, com camas sem colchões e higiene inadequada. A apuração também descobriu que as pessoas eram submetidas a jornadas exaustivas de trabalho, tinham parte dos salários retidos e viviam em situação de privação de liberdade.
A BYD aponta que os 163 trabalhadores resgatados da obra em condições de maus tratos voltaram à China. O contrato dos profissionais com a Jinjiang foi encerrado, com as devidas verbas rescisórias pagas.
Segundo a montadora, atualmente os estrangeiros que não saíram do Brasil e trabalham para outras construtoras chinesas envolvidas no projeto estão hospedados em hotéis. Em breve, serão realocados para moradias adequadas.
A expectativa é de que o grave desrespeito aos direitos humanos cometido dentro dos portões da fábrica da BYD sirva, ao menos, como um grande aprendizado. Dessa forma, os 20 mil trabalhadores que devem ser empregados ali em um futuro próximo poderão confiar que receberão a mais básica das promessas trabalhistas: tratamento digno.
