A obsessão por atingir os objetivos faz a Volvo se cercar de alternativas em materiais de produção (aço de alta resistência, alumínios, formatos alternativos de peças), em recursos (pedais que destravam em caso de batida) e tecnologias (cinto que se retrai quando carro sai da faixa de rolamento), mas uma barreira quase intransponível posterga o objetivo final: o motorista. Conforme pesquisas citadas pela montadora, a falha humana é responsável por 95% dos acidentes de trânsito.
“Todo sistema que depende do ser humano não é confiável”, decretou Anders Eugensson, diretor global de relações governamentais da Volvo Cars, que é o coordenador do projeto 2020 da companhia na Suécia, explicando que a única certeza da viabilidade da meta é a chegada do carro autônomo. Ele garantiu que a partir de 2017 a tecnologia estará rodando nas ruas, já em nível comercial.
Anders explicou, em apresentação durante a 2ª Conferência Global de Alto Nível sobre Segurança no Trânsito, em Brasília (DF), na semana passada, que todas as tecnologias que estão sendo desenvolvidas em relação a segurança estarão contempladas no carro autônomo. A empresa já dispõe de sistema que detecta para onde o motorista está olhando, verifica o que está ocorrendo e alerta para o perigo. O sistema de frenagem inteligente consegue detectar um carro que avança no cruzamento ou um pedestre que atravessa a rua de repente, acionando o freio e evitando ou reduzindo as consequências do acidente.
Mas o carro autônomo vai além da segurança; ele atende a nova geração de usuários, para quem – segundo Anders – “dirigir é se distrair do ato de estar conectado”, ao contrário dos velhos (ou atuais) motoristas (e também dos códigos de trânsito), que entendem a conexão como distração da direção. “O consumidor das novas gerações prefere um carro que dirija por ele e assim usa melhor o tempo, conectando-se com o mundo através do celular enquanto o carro se encarrega de levá-lo para onde quiser”, acha.
Mas a condução autônoma não é apenas mais confortável e segura. É também mais econômica (por manter velocidade constante), melhora o fluxo do trânsito, a mobilidade e permite que os gestores públicos planejem a mobilidade urbana.
O projeto Drive Me, da Volvo, referente aos carros que dirigem sozinhos, entra na primeira etapa real em 2017, ao custo de US$ 70 milhões. Cerca de cem veículos totalmente automatizados vão circular num raio de 50 km na área urbana na cidade de Gotemburgo, na Suécia, sendo que os usuários serão motoristas comuns, que vão avaliar os carros no dia a dia.
A cara do carro autônomo não vai mudar radicalmente; o banco do motorista será preservado, até porque a pessoa poderá assumir a condução não automática a qualquer momento, se assim o desejar. Mas o banco poderá ser recuado, o volante recolhido, de forma a criar um ambiente mais adequado para a pessoa ler jornal, usar o computador ou tomar um lanche.
Essas mudanças implicam em adequações dos sistemas de segurança, sobretudo os airbags, que hoje são ajustados para as posições estáticas de motorista e passageiros. A propósito, o carro é conectado a uma central que avisa o ocupante caso entenda que é necessário ele assumir o comando do veículo. Pane? Improvável: o carro funciona com um sistema stand by que entra em operação em caso de necessidade.
Duas questões ainda não resolvidas estão sendo estudadas para permitir que o carro autônomo ganhe as ruas de Gotemburgo a partir de 2017: a legislação e o impacto que ele pode causar: a reação das pessoas ao ter que conviver com um carro sem motorista. Em caso de acidente, de quem será a responsabilidade? A legislação não permite que o motorista tire as mãos do volante.
Além disso, é preciso criar um protocolo para a comunicação entre os carros autônomos porque cada empresa está desenvolvendo o seu projeto (e são muitas) com tecnologia própria, com características distintas. Uma coisa é certa: o carro autônomo só vai funcionar se a estrutura das vias for compatível, com sinalizações verticais e horizontais padronizadas e que se mantenham em perfeitas condições.
Este artigo foi publicado originalmente na Agência Autoinforme
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