
Entretanto, há necessidade de se modificar o código de trânsito e isso, decerto, vai demorar. Entre outras questões está quem responsabilizar em caso de acidente: o dono do carro ou o fabricante. Algo delicado, inclusive para o Google, cujo carro de testes, em fevereiro último na Califórnia, raspou a lateral de um ônibus a 5 km/h e ninguém se feriu. Tratou-se da primeira colisão com “culpa” do sistema autônomo. Outros 17 acidentes aconteceram desde 2009, em 3,4 milhões de quilômetros rodados, quando outros veículos abalroaram o modelo de teste por não captarem as manobras de segurança do automóvel do gigante da informática.
Com o avanço da conectividade entre carros e vias não há dúvidas de que os acidentes cairão drasticamente, embora sem certeza de que todas as combinações possíveis de situações de risco estejam contempladas. Talvez seja necessário introduzir a chamada inteligência artificial, algo que ainda divide a opinião de cientistas em amplos debates.
Mais próximo da realidade estão os ADAS (sigla em inglês para sistemas avançados de assistência ao motorista). Eles já permitem condução semiautônoma no tráfego de cidades e estradas, apesar de obrigar pelo menos uma mão no volante a intervalos regulares para que o sistema interprete a presença do motorista.
Um dos maiores especialistas mundiais no assunto é Lothar Groesch, que trabalha há mais de 40 anos em engenharia de segurança para indústrias, governos e como professor universitário. “As pessoas estão mais interessadas em aproveitar o tempo de direção para interagir por diversas mídias. Se precisar supervisionar o carro há certa frustração. O único meio de resolver o dilema é aperfeiçoar ao máximo a confiabilidade e a robustez dos ADAS, pois os sistemas ainda não podem lidar com uma plêiade de situações perigosas. Os fabricantes terão de se responsabilizar por acidentes no modo autônomo ou aceitar as sanções legislativas decorrentes. Se não, o sonho do trânsito livre de acidentes pode se tornar um pesadelo”, alerta Groesch.
Tudo indica que a direção totalmente autônoma ainda vai demorar. Também parece arriscado a convivência com veículos convencionais em vias comuns. Mais factíveis são ambientes segregados – avenidas expressas e estradas – em que toda a infraestrutura é projetada para integrar meios de transporte autônomos.
Em algum momento haverá definições. O processo está sendo acelerado por empresas como Uber, que já testa um Ford Fusion autônomo, e a concorrente Lyft, que recebeu injeção de capital por parte da GM. Para o Google ficou a alternativa recente com a FCA, sem efeito vinculante entre os dois grupos. Outros conglomerados automobilísticos partem para soluções próprias. Permanece ainda o mistério sobre os próximos passos da Apple.