A sensação é de que a velocidade com que estas mudanças vêm acontecendo é maior do que o esperado. Como se a chegada das novas gerações “abertura”, nascidas quando o Brasil, no fim dos anos 80, iniciou a abrir seu mercado, chegassem com uma espécie de DNA de mudanças. Elas não têm com os carros a mesma relação de afeto e culto que nós, cinquentões, temos. Parece que chegam acelerando não veículos, mas o ritmo das mudanças. No campo da inovação, e mais especificamente na área das inovações guiadas pelo design*, esta combinação de mudanças socioculturais impactando mercados tem nome. Chama-se inovação de significado. E é o que está acontecendo com os carros no mundo e chega com força também ao Brasil.
Inovações de significado, em outros mercados, há tempos vêm acontecendo. Para as empresas que dominam o método e aplicam o conceito representam oportunidades concretas de conquista de margens robustas somente possíveis em inovações radicais e vencedoras.
O Nintendo Wii, por exemplo, mudou o significado dos jogos eletrônicos tirando o jogador de uma realidade virtual que tentava imitar cenários reais e trazendo-o para o mundo concreto, dos movimentos e da simplicidade. Há dezenas de outros exemplos.
Voltando ao mundo do auto e à revolução dos significados, o mesmo carrão que para nós significava liberdade e status, para estes jovens pode ser apenas um vilão poluidor. Em termos de prazer de dirigir – outro importante significado – mesmo os novos e atraentes modelos esportivos, não suscitam nestes jovens as mesmas reações e palpitações que lhes gera um game eletrônico.
Nos nossos tempos, quanto mais um videogame se parecesse com um carro de verdade, mais emoção ele geraria e mais desejado seria. Nos dias de hoje houve uma radical inversão. Quanto mais um carro se parecer com um videogame, mais desejado ele será.
Qual será então o cenário futuro quando terminar a poderosa onda de motorização das classes emergentes que sustenta atualmente as vendas da indústria? Quando terminar a onda das pessoas, de todas as idades, que estão comprando seu primeiro carro ou trocando suas latas velhas? É provável que os veículos sejam “reinventados” e projetados em função de seus significados.
Os significados futuros ninguém ainda sabe. Agora os significados originais poderiam ser resumidos a três, que estão no corredor da morte:
Meio de transporte – novos sistemas de pools de automóveis sem dono e inovações radicais no modelo de negócio de transportar pessoas irão se configurar constituindo uma realidade totalmente diferente da atual;
Liberdade e prazer de dirigir – a oferta de serviços de dirigir e apropriar-se por tempo indeterminado de veículos esportivos e superesportivos irá proporcionar isto. Não nas cidades onde não faz sentido rodar em uma Ferrari, mas em lugares adequados para se andar com um carro destes. Este mercado para aviões e helicópteros cresce 30% ao ano no Brasil;
Status – status… este é o mais efêmero dos significados e ninguém mais tem duvidas de como isto está mudando. Em breve, vai ser bacana andar de ônibus também no Brasil.
Evidentemente estas mudanças irão reduzir o volume total das vendas de veículos. Enquanto estes fatores se articulam criando um novo cenário para a mobilidade, duas poderosas ondas se consolidam: big data – processamento de grandes volumes de dados e geração de conhecimento aplicável em negócios. E, de outro lado, os microchips “vestíveis” ou implantáveis que, muito em breve, estarão em nós. Imagine: estas tecnologias combinadas possibilitarão, por exemplo, reduzir enormemente a improdutividade de sistemas de transporte como os táxis. Aquele tempo que o taxista está parado, dormindo ou rodando vazio.
Sistemas eletrônicos inteligentes “aprenderão” nossas rotinas e permitirão racionalizar e otimizar a disponibilidade e uso desses veículos com consistentes reduções de custos e preços. Os aplicativos que já existem de compartilhamento de corridas são uma pequena indicação disto.
Agora é surpreendente que as indústrias de veículos estejam olhando para o big data apenas como uma forma de se relacionarem melhor com os clientes, acompanharem o ciclo de vida dos veículos e se concentrarem no veículo sem motorista. Há uma revolução muito mais profunda se aproximando.
Parece que há uma espécie de perigosa miopia, diante da aproximação de serviços de frotas super eficientes e baratos, da possibilidade de compartilhamento de veículos esportivos pelas mesmas pessoas que compartilham aviões em uma Netjets, por exemplo, e frente à mudança do significado que ganhara andar de ônibus e de status. Fazer carros sem motoristas será considerado fácil, quando comparado às dificuldades de operar a indústria em uma nova realidade sem consumidores.
Enfim, uma nova e surpreendente realidade da mobilidade. Imagine seu celular oferecendo-lhe a possibilidade de amanhã, a um baixíssimo custo, alguém pegá-lo e levá-lo ao trabalho? No fim de semana a possibilidade de dirigir uma Ferrari na serra mais próxima à sua cidade e você cheio de orgulho cool falando aos amigos de seus filhos que não tem mais carro e que anda de ônibus?
Parece engraçado, mas pode ser trágico para as indústrias que não se prepararem para estas mudanças. O que é essencial é que os inovadores da indústria automobilística comecem, o quanto antes, a trabalhar novos significados. Há riscos de que sejam surpreendidos por uma nova realidade sendo oferecida aos seus velhos consumidores por empresas que nada tem a ver com automóveis. Empresas de tecnologia e serviços invadindo o mundo da mobilidade como a NetFlix invadiu o mundo dos filmes derrubando o gigante Blockbuster.
Novas companhias de base tecnológica com quem a indústria terá que aprender a se relacionar já que justamente eles é que serão os clientes. Os cerca de 500 milhões de smartphones existentes no mundo, segundo estudo da Gartner Group, complementam a infraestrutura necessária para esta realidade.
Esperamos para ver o que o futuro nos reserva? Ou saímos já para construí-lo?
*Conceito criado pelo Professor Roberto Verganti do Politecnico di Milano