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Cheque especial no porta-luvas, custo brasil no porta-malas!

Declaração recente de um presidente de Montadora, sobre o corte de milhares de veículos de suas exportações, ressaltava que em cada veículo que sua fábrica despachava ia um cheque no porta-luvas, por conta da valorização
do real.
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Redação AB

01 jul 2006

4 minutos de leitura

Eu acho que lhe faltou acrescentar que no seu bagageiro também mandava uma mala (sem alça) com a etiqueta de Custo Brasil. É esse sobrepeso, mais do que o câmbio, que tem feito a indústria brasileira perder competitividade e ver reverter sua expansão no comércio mundial.

Dias atrás eu escrevia que a falta de reformas, como a trabalhista e a tributária, era a causa apontada por organismos internacionais da queda de posição do Brasil no ranking global da competitividade. Hoje trago dados de relatório do McKinsey Global Institute que destaca as barreiras estruturais e não-estruturais responsáveis pelo nosso distanciamento das economias desenvolvidas, as quais têm permitido que China e Índia ocupem espaço que, em passado recente, disputávamos com sucesso. Atrevo-me a reproduzir na integra porque diagnostica problemas e indica soluções que valem a pena serem debatidas por nossos líderes.

As barreiras estruturais são duas: o baixo poder aquisitivo da população e o alto custo do capital. A primeira faz com que os consumidores favoreçam produtos e serviços de baixo preço, onde o carro 1.0 é o exemplo mais expressivo. A segunda é o que inibe a indústria de investir em equipamentos sofisticados que melhoraria a produtividade. Nossa mão de obra, hoje ainda com custo mais competitivo que o custo do dinheiro, proíbe a inversão em processos com maior produtividade. Um terço da distância da produtividade do Brasil, vis-à-vis aos Estados Unidos, advém dessas duas circunstâncias.

As barreiras não-estruturais são as responsáveis pelos remanescentes dois terços que nos separam deles.

O fator mais importante desse segundo grupo, que responde por quase a metade da distância não-estrutural, é a brutal economia informal brasileira, que chamo de metroeconomia para não usar o termo underground. Evitando impostos (a carga tributária é grande incentivo), ignorando padrões de qualidade e de segurança, ou infringindo patentes e direitos autorais, empresas reduzem seus custos e competem com vantagem com as empresas que respeitam as leis e pagam
impostos devidamente. As companhias honestas perdem participação de mercado e lucros, sobrando-lhes menos dinheiro para investir em tecnologia e melhora da produtividade.

O segundo fator deste grupo é a instabilidade econômica. O alto grau de incerteza em que vivemos obriga nossas autoridades econômicas a policiarem a inflação através da taxa de juros e os nossos executivos em dedicarem mais tempo à sua eficiência financeira do que à operacional, em detrimento do crescimento da empresa. Essa instabilidade desencoraja investimentos de longo prazo, inibe empréstimos de médio prazo, inviabiliza os de longo prazo e prioriza
altos retornos devido ao risco envolvido.

As leis que limitam a produtividade, como as que regulam o trabalho, ou as que fixam impostos, ou as que criam barreiras comerciais ou subsídios, são igualmente problemáticas e fazem parte do terceiro grupo das não-estruturais. Aqui o exemplo mais destacado é a carga tributária superior a 30% do preço dos automóveis em comparação com os
7% cobrados nos Estados Unidos.

Serviços públicos ineficientes fazem parte do quarto grupo. Um quarto da população brasileira não tem educação secundária. 15 milhões de brasileiros não sabem escrever ou ler. No setor agrícola, que emprega 20% da força de trabalho, essa deficiência impede a modernização da nossa agricultura. Enfim, limitações na infra-estrutura como nas
estradas, portos, ferrovias e geração de energia causam os mais diversos empecilhos ao desenvolvimento do país.

Os impactos dessas barreiras variam para cada setor da economia, mas a informalidade é o maior obstáculo ao crescimento da produtividade em setores intensivos em mão de obra, enquanto a incerteza econômica é o fator
que mais prejudica os setores intensivos em capital.

Para finalizar, o relatório preconiza que todos os problemas acima relatados podem ser resolvidos através de políticas sociais e econômicas. Complemento então dizendo que precisaríamos, para isso, de empenho dos agentes econômicos, apoio da sociedade e um Governo obstinado em fazer do Brasil uma potência global em produtos manufaturados.

Essa é uma solução permanente para recuperar a competitividade.
Deixemos o câmbio flutuar em paz, como o querem os puristas.
Artigo publicado na Revista SAE/Engenharia Automotiva, edição Julho 2006.
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www.hugoferreira.com.br