
A Dunlop, marca do grupo Sumitomo Rubber, pode ser centenária e a casa do inventor dos pneumáticos, mas tem pouco mais de 10 anos de Brasil. Justamente por isso, a empresa já vem há algum tempo investindo no país, tanto a fim de modernizar o portfólio quanto para ampliar sua capacidade de produção e sua presença em território nacional.
A empresa fez aportes no país que, somados, totalizam cerca de R$ 2 bilhões. No entanto, a Dunlop admite que pode fazer novos investimentos em breve, principalmente na carona do Mover e dos recursos que vêm sendo aplicados pelas montadoras de veículos no Brasil nos últimos anos.
Para entender quais são os próximos passos da Dunlop no Brasil, a reportagem da Automotive Business conversou com Rodrigo Alonso, diretor de vendas reposição e marketing da Sumitomo Rubber. Há oito anos na companhia, o executivo, desde fevereiro, também é responsável pela seara de vendas de equipamentos originais. Confira, abaixo, a entrevista.
Vocês já fizeram um aporte no Brasil de cerca de R$ 2 bilhões. Destes, R$ 1,06 bi ainda está sendo aplicado. No que estão investindo no momento?
Antes do anúncio de R$ 1,06 bi, a gente já havia investido R$ 1,6 bilhão, até porque são anunciados investimentos e depois são feitos complementos anuais. Por isso já tínhamos esse R$ 1,6 bi integralizado.
Já esse R$ 1,06 bi servirá para ampliar a capacidade de [produção de] pneu pesado, que vai de mil unidades por dia de capacidade nominal para 2,2 mil. Isso porque vamos melhorando a eficiência de algumas máquinas.
Na linha leve vamos passar de 18 mil pneus por dia para 23 mil até o fim deste ano. No caso dos pesados dependemos de alguns fatores e pode ser que o número de 2,2 mil fique para 2025. Hoje, é importante destacar, já ampliamos a capacidade para 1,6 mil.
E sobre novos investimentos para o futuro no país?
Ainda estamos avaliando novos investimentos. Tenho uma viagem para o Japão no mês de abril para conversar sobre o cenário futuro. Por enquanto, não temos necessidade [de realizar novos aportes] nos próximos três, quatro anos. Tudo depende do Mover, projeto que vemos com muito bons olhos, que está movimentando a indústria automotiva e que pode fazer com que a gente antecipe alguns de nossos planos.
Por outro lado, no aftermarket vemos uma invasão de pneus importados, que dobraram a participação de mercado nos últimos dois anos. Então, também estamos analisando junto à associação para entender como fica essa situação.
No entanto, a ideia da empresa é seguir investindo no Brasil. A ideia é expandir, mas temos de ter mercado para isso. Hoje nós operamos em plena capacidade, mas, ao mesmo tempo, vemos duas concorrentes, até onde sei, promovendo lay-offs. O que é uma pena, pois é perda de emprego para o Brasil.
Infelizmente, não somos um país como Alemanha ou Estados Unidos. Acabamos sofrendo um ataque e às vezes o preço acaba sendo o primeiro diferencial. Depois, claro, o consumidor pode mudar de opinião, mas o preço é determinante.
E vocês já têm uma estratégia, imagino eu, predefinida para atacar essa invasão dos importados, além, evidentemente, dos investimentos, de modernização da unidade?
Estamos buscando eficiência. Procuramos ser mais enxutos e, ao mesmo tempo, ter mais produtividade. Assim podemos ser ainda mais competitivos. Claro que não abrimos mão de segurança e qualidade. Este é um pré-requisito para todos os nossos produtos.
Podemos ser mais eficientes, por exemplo, no consumo de energia e água, bem como evoluir na questão tecnológica. É o que buscamos de modo incessante.
Estive recentemente no centro de distribuição de peças da BYD. Lá, a montadora foi questionada sobre os pneus do Dolphin e comentou que já conversa com uma grande companhia instalada no país para se tornar fornecedora do componente para esse veículo. Como enxergam esse movimento? Vocês tiveram conversas com a fabricante?
Se fôssemos nós [esse grande fornecedor] eu não poderia dizer. Mas a gente, pelo menos, não é. Mesmo assim, fico feliz que a BYD esteja procurando produtos no Brasil.
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O mais importante para o nosso país seria que todas as empresas que vendem produtos aqui, produzissem aqui. Isso serve tanto para a montadora quanto para a empresa de pneus que produz no exterior. Dessa forma, você gera mais empregos, estimula a economia e faz com que todo mundo atue no mesmo campo. Quando todos jogam no mesmo campo, todos têm os mesmos direitos e deveres – o que é extremamente importante.
De volta aos investimentos, há planos de aumentar a capacidade de produção para 30 mil unidades até 2029, certo?
Isso, conforme comentei, depende da aprovação de novos investimentos. Até porque precisaríamos de mais duas unidades para chegar a essa capacidade.
Isso faz parte de um plano de médio e longo prazo da empresa. O que posso dizer é que, por enquanto, o último investimento aprovado é esse que a gente está integralizando até o fim do ano que vem.
Passando para o campo de reposição, se a gente levar em consideração essa relevância do mercado de reposição para vocês, como a empresa vem fomentando e fortalecendo este negócio?
Bom, no mercado de reposição hoje é claro que temos o impacto dos bons projetos que participamos no equipamento original. Vários carros para os quais vendemos são cases de sucesso, e isso ajuda bastante na construção dessa reputação.
No aftermarket eu diria que temos um line-up de produtos bastante completo. Nos últimos anos trabalhamos muito para ter esse portfólio completo, para atender praticamente todos os consumidores de carros de passeio, comerciais leves e pesados no Brasil.
Agora estamos trabalhando o rebranding no mercado de reposição. Passamos a falar sobre John Boyd Dunlop, inventor dos pneumáticos. A marca criou o pneumático há 136 anos, mas continua inovando e trabalhando com tecnologia de ponta.
Como o ciclo da troca de pneu é um pouco longo, normalmente de dois, três anos, as nossas campanhas têm como objetivo trazer o consumidor para mais perto e deixar a marca em evidência.
O que a gente espera é uma próxima pesquisa de awareness para entender como isso [nossas peças publicitárias] impactou o público, mas nesse momento, se olharmos os nossos indicadores, todos os pontos de contato que a conseguimos mensurar, já tivemos um ganho bastante relevante em relação à marca.
Obviamente que, ao gerar mais awareness se faz necessário o aumento do número de lojas. Já houve um crescimento no número de lojas oficiais e vocês têm ainda credenciadas e os contêineres voltados para pneus de carga. Mas qual é o cenário para 2024 e 2025?
Hoje temos mais de 370 lojas entre distribuidores, credenciadas, truck centers e contêineres. A partir do momento que as nossas vendas crescem e ampliamos o portfólio, a gente precisa estar cada vez em mais lugares. Isso, claro, além de oferecer um ótimo serviço de pós-venda.
Queremos ampliar o número de lojas de passeio nas cidades e também seguir ampliando os contêineres porque ajudam o caminhoneiro no trecho. No ano que vem certamente passaremos de 400 lojas.
Vocês já têm, evidentemente, parcerias estabelecidas há algum tempo. Como vocês estão trabalhando, explorando novas oportunidades de colaboração dentro da indústria com montadoras de veículos?
Seguimos com os projetos atuais, dos nossos atuais clientes tanto no segmento de leves quanto no de pesados. No entanto, já estamos conversando com outras fabricantes, no plural mesmo, que sairão com pneus nossos. Ainda este ano teremos uma montadora, por exemplo, com produto nosso. É um canal que a gente vem investindo, vem se aproximando e vamos seguir crescendo.
Até porque, atualmente o mix de vocês é 80%-20% entre reposição e montadoras, certo? Isso além do foco no Brasil…
Sim. Exportamos um pequeno volume para a Toyota da Argentina montar SW4 e Hilux, mas o grande foco, mais de 95% [dos nossos produtos], é Brasil. E assim seguirá. Continuaremos focados em atender ao mercado local.
Quanto ao mix podemos colocar dividir entre 80% reposição e 20% montadoras. Às vezes oscila, dependendo da demanda, mas queremos ampliar ambos os negócios.
