
Thomas Schmall, presidente da Volkswagen do Brasil, costuma dizer que “liderança não paga o almoço, o importante é a rentabilidade do negócio”. Pode ser, mas ninguém vai ficar descontente se as duas coisas acontecerem juntas. Nesse caso, o Up! é a melhor chance dos últimos 13 anos que a fabricante tem de voltar ao topo do ranking de vendas do País, neste ou no próximo ano. É uma novidade que coloca mais um modelo da marca, além de Gol (em primeiro lugar) e Fox (na sexta posição em 2013), para brigar na lista dos seis carros mais vendidos, que juntos representam nada menos que 30% do mercado brasileiro. Nessa batalha, a versão mais barata e “pelada” do Up! quatro portas chega às concessionárias a partir desta quarta-feira, 5, por R$ 28,9 mil – a opção com duas portas só virá daqui a três meses, por R$ 26,9 mil.
Este preço inicial está entre R$ 4 mil e R$ 5 mil abaixo do Gol e Fox de entrada, mas acima do início da tabela do que deve ser seu principal concorrente, o Fiat Uno (R$ 26.990). Mas o valor do Up! completo fica bem “salgado” para um “popular”: passa dos R$ 40 mil, incluindo o sistema de multimídia Maps&More, opcional para todas as versões. Nesse caso, pode até dar para pagar vários “almoços” sem almejar a liderança.
Contudo, somando tudo e subtraindo as vendas que o Up! deverá roubar da própria Volkswagen, com preços em versões mais caras que passam dos R$ 35 mil, o carrinho com jeito de cachorrinho de estimação pode sim trazer as vendas que faltavam para atingir o topo do mercado. “O novo Gol (lançado em 2008) foi uma evolução em relação a um carro que já era líder, enquanto o Up! representa uma revolução que nos traz novos clientes”, afirma Juta Dierks, vice-presidente de vendas e marketing da Volkwagen do Brasil. Não por menos o carro vem sendo tratado não só como o mais importante lançamento da marca desde a renovação do Gol, mas também como uma das mais relevantes novidades automobilísticas de todos os tempos em solo brasileiro, capaz de trazer novos consumidores para o mundo do automóvel.
“O Up! inicia uma nova era no segmento, com mais tecnologia e melhorias”, destaca Schmall. “São seis versões de um carro urbano que reúne o melhor da engenharia da Volkswagen.” Para fazer o Up!, a fábrica de Taubaté (SP) foi totalmente modernizada e recebeu investimento de R$ 1,2 bilhão (leia aqui), valor mais que suficiente para fazer uma nova unidade de produção inteira.
AURA POSITIVA
Uma aura de notícias positivas foi construída em torno do Up! antes mesmo de seu lançamento. O carro foi classificado com cinco estrelas e obteve as melhores notas nos testes de impacto já feitos nos quatro anos de existência do Latin NCAP – ainda que uma nova avaliação não patrocinada deverá ser feita pela entidade após o início das vendas. “A estrutura da cabine ficou preservada e as portas abriram normalmente após a colisão a 64 km/h. É o melhor resultado que um veículo por ter em um crash test”, comemora Egon Feichter, vice-presidente de desenvolvimento de produto da Volkswagen do Brasil. O bom resultado é devido, principalmente, à estrutura da carroceria, fabricada com cinco tipos diferentes de aço com grande variações de resistência, capaz de absorver impactos e preservar a cabine.
Nos testes do Cesvi, patrocinado pelas seguradoras, em testes de impacto a baixa velocidade o Up! foi avaliado com o menor custo de reparos do mercado do Car Group, com nota 11, a mais baixa da história da entidade – o segundo colocado, o Citroën C3, tem nota 14. Contribui para isso a estrutura dianteira com três grandes peças que podem ser trocadas separadamente. Na traseira, uma placa de aço preserva a carroceria em caso de pequenas colisões.
Em consumo, na tabela de eficiência energética do Inmetro divulgada em janeiro o Up! obteve o melhor resultado para um carro equipado com direção assistida e ar-condicionado, com a marca de 1,57 megajoule por quilômetro – até então a melhor marca era do Fox Bluemotion equipado com o mesmo motor 1.0 de três cilindros, que atingiu 1,6 MJ/km. O concorrente Uno Way chegou 1,83 MJ/km.
O motor do Up!, o moderno EA 211, adiantado ao público no Fox Bluemotion mais de meio ano antes, serviu de boa propaganda para o novo carro da VW. É de fato a principal atração tecnológica do Up!, o 1.0 mais potente (82 cavalos com etanol) e econômico do mercado brasileiro, com avanços ainda pouco explorados no Brasil, como bloco e cabeçote de alumínio e sistema de partida a frio que dispensa o tanquinho de gasolina.
DESIGN BRASILEIRO
O bom arranjo tecnológico, sem grandes arroubos mas em linha com mercados mais desenvolvidos, casa bem com o desenho diferenciado, do tipo aquele-carrinho-bonitinho-que-sua-filha-vai-adorar. Essa é a principal atração do Up!, que chama a atenção com suas linhas simples que mais lembram um brinquedo de criança. “É tão simples que uma criança consegue entender”, costuma dizer o designer brasileiro Marco Pavone, o “autor” do Up!, que já tinha muito de Brasil antes mesmo de ser brasileiro.
Lançado na Europa em 2011 (desde então foram vendidas 250 mil unidades em 50 países), o carro foi desenhado por Pavone que é egresso do concurso de design que a montadora realiza todos os anos no País. Hoje ele trabalha no estúdio da companhia na Alemanha. “Isso é a essência da Volkswagen”, teria dito Walter de Silva, o chefe de design do grupo, quando viu os primeiros traços do Up! feitos por Pavone. Ele viu ali os três pilares que marcam a identidade visual da VW: simplicidade, robustez e precisão.
Luiz Alberto Veiga, gerente executivo de design da Volkswagen do Brasil – que já deu contribuições marcantes à atual identidade visual global da marca –, define o Up! como uma “interpretação do Fusca do futuro, mas desta vez com tudo que temos direito em tecnologia e segurança”. É isso mesmo: é um carro simples, para quem está iniciando a vida no mundo da motorização, com desenho diferente da média. Uma boa receita para o sucesso.
MUDANÇAS PARA O BRASIL
O Up! que começa a ser vendido no Brasil não é uma cópia simples do europeu. “Lá o carro tem outro foco e seria invendável aqui. Por isso fizemos todas as mudanças necessárias para agradar ao brasileiro, sem concessões”, diz Feichter.
O Up! feito em Taubaté ficou com 3,6 metros de comprimento, 6,5 centímetros maior do que o europeu, 1,64 m de largura e 1,5 m de altura, 2 cm a mais por causa da suspensão levantada para suportar o piso irregular do Brasil. O alongamento foi feito para vender um carro com capacidade para levar cinco pessoas – que até cabem, mas acomodar três adultos no banco traseiro por muito tempo seria forçar a amizade. Assim o Up! é para cinco, mas bom mesmo só para dois.
Com o maior comprimento, foram acrescentados 15 litros aos porta-malas, que acomoda 285 litros. As portas traseiras também foram redesenhadas para o Brasil, para guardar vidros deslizantes acionados por maçaneta, ao invés dos vidros basculantes com mínima abertura lateral do modelo europeu. Outra mudança: tanque de combustível de 50 litros, 15 litros maior, para garantir maior autonomia, principalmente quando o veículo é abastecido com etanol.
Também para atender às características típicas do Brasil, o Up! ganhou aqui protetor de polia do motor (para maior proteção contra sujeira), protetor inferior de aço (peito-de-aço) e alojamento de estepe maior.
VERSÕES
O Up! é vendido em seis versões diferentes, cujos nomes em inglês seguidos do nome do carro remetem à ascensão social do freguês: Take Up!, Move Up!, High Up! e BRW (de Black, Red, White). Todas têm de série os obrigatórios por lei airbags frontais e freios com ABS, mas nenhuma oferece, nem como opcional, o controle eletrônico de estabilidade (ESP ou ESC).
A Volkswagen avalia que a versão intermediária Move Up! será a mais vendida, até porque o nível de equipamentos da mais barata fica abaixo da crítica. Por R$ 28,9 mil o cliente terá um carro muito pelado, que nem sequer vem com visor digital no painel de instrumentos. A verdade é que o Up! só começa a ficar interessante a partir da versão High Up!, quando ganha de série a direção eletromecânica, que custa R$ 1.240 como opcional nas versões inferiores. A solução, segundo a Volkswagen, pode reduzir o consumo em até 3% na comparação com o sistema de assistência hidráulica convencional.
Melhor e bem mais cara é a versão topo de linha Black/Red/White, assim chamada por causa da cor externa repetida em detalhes do painel e nas rodas de liga leve. O carro vem completo, de série com ar-condicionado (custa R$ 2.750 como opcional), sensor de estacionamento, sistema de som, rodas de liga leve 15” com pneus de baixa resistência ao rolamento e acionamento elétrico de vidros e travas, entre outros equipamentos.
Opcional para todas as versões é o sistema de infoentretenimento Maps&More, que sai por R$ 1,2 mil. A tela sensível ao toque combina navegação, conexão com o celular e replica o sistema de som e dados do computador de bordo, incluindo o Blue Motion Training, que “ensina” o motorista a dirigir com maior economia de combustível.
Seguindo a “moda” das personalizações que servem para dar alguma exclusividade a carros populares, o Up! tem 46 combinações de cores e acabamento, e pode receber diversos adesivos internos e externos para tornar sua simplicidade menos simples. A Volkswagen garante que “tem um Up! para todos os gostos”. O slogan publicitário do modelo diz que “it’s up to you” (traduzindo, “depende de você”) – ou, melhor dizendo, depende de quanto você pode pagar.
Veja abaixo todos os preços do Up!:
– Take Up!: R$ 26.900 (2 portas) e R$ 28.900 (4 portas)
– Move Up!: R$ 28.300 (2 portas) e R$ 30.300 (4 portas)
– High Up!: R$ 34.990 (4 portas)
– Black/Red/White Up!: R$ 39.390 (4 portas)