

Desde o início de junho, a conta de luz ficou mais cara para os brasileiros. E vai doer mais ainda no bolso: tudo porque o setor de energia está em estado de alerta devido ao maior desabastecimento dos últimos 20 anos nas principais hidrelétricas do país. O risco de racionamento e até apagão se tornou crescente. Assim, como fica o setor de veículos elétricos?
As vendas de modelos com a tecnologia ainda são incipientes no Brasil, respondendo por menos de 1% do mercado. Ainda assim, depois de anos de estagnação, recentemente este mercado enfim dava os primeiros passos de seu crescimento, com a ampliação da oferta de carros, de estrutura de recarga e de demanda de clientes finais e também de empresas. Até vir a crise energética.
Segundo alertas do Operador Nacional de Sistema Elétrico, os reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste devem atingir seu menor nível até o final deste ano por causa da seca. No Brasil, a crise de energia não é algo novo. Em 2001, o apagão afetou todo o território nacional e obrigou a população a mudar drasticamente seus hábitos de consumo de eletricidade.
CRISE NÃO SERÁ TÃO INTENSA
Para especialistas ouvidos por Automotive Business, a conjuntura atual é bem menos alarmante e terá pouco reflexo no setor de veículos elétricos, já que este é um mercado ainda muito inicial.
“Enxergamos como algo circunstancial. A nossa matriz energética hoje, apesar da grande participação das hidrelétricas, tem um equilíbrio muito maior, diferentemente de 2001, quando tivemos os apagões”, afirma o diretor-executivo da Roland Berger, Frederico Sato.
As hidrelétricas são a principal matriz do país, responsáveis por cerca de 63% da geração de energia, de acordo com o Ministério de Minas e Energia. Outras fontes renováveis ganharam relevância nos últimos anos. A energia eólica corresponde a 8,6%, biomassa, 8,4%, e a energia solar, 1,4%.
Já Augusto Amorim, consultor da LMC Automotive, avalia que, ainda que em pequena escala, a crise atual desestimula a eletrificação da frota:
“Pode atrasar a adoção de veículos elétricos no Brasil porque existe o medo coletivo de comprar um carro sem ter a certeza de como será o abastecimento, apesar de o veículo movido à bateria ter maior eficiência que o motor à combustão”, diz o especialista.
IMPACTO DA RECARGA NO BOLSO
Outra preocupação é com o custo para recarregar os veículos. No começo deste ano, a crise de energia no Texas, nos Estados Unidos, fez o preço de recarga de carros elétricos chegar a preços alarmantes de R$ 5 mil.
No Brasil, isso pode ser gerenciado pelas bandeiras tarifárias. Recentemente, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou reajuste de 52% na bandeira vermelha 2, taxa extra aplicada na conta de luz.
“Os proprietários de carros elétricos são pessoas de alto poder aquisitivo, um aumento assim não vai pesar no bolso deles. Outro ponto é que muitos também têm um veículo elétrico e outro à combustão, então podem optar por utilizar o que for mais econômico agora”, diz Amorim.
Apesar disso, ambos os especialistas apontam que, dentro de todo o cenário da mobilidade urbana no Brasil, existem problemas maiores que atrasam a eletrificação da frota. Atualmente, há apenas 40 mil veículos entre puros e híbridos.
E o ritmo da transição energética da mobilidade não dá sinais de que vai acelerar de forma significativa: os carros com a tecnologia serão só 10% das vendas no país em 2030, aponta um estudo do Boston Consulting Group. Segundo o executivo da Roland Berger, o Brasil será uma das últimas regiões a se desenvolver em mobilidade elétrica do ponto de vista global por causa de diversos fatores, como a falta de incentivos do governo, infraestrutura de recarga e o alto preço do veículo.
No caso da tarifa de luz, a longo prazo, ele entende que o impacto será positivo. “A perspectiva é ter uma tarifa mais atrativa para o consumidor final porque estão sendo discutidas uma série de reformas no setor para geração e distribuição de energia que devem trazer mais eficiência. Esperamos que esses ganhos sejam repassados para o consumidor final”, afirma Sato.