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Como a Rússia em guerra fez Renault e Nissan investirem mais no Brasil

Não é coincidência que as duas principais marcas da aliança franco-nipônica tenham anunciado investimentos robustos em nosso mercado
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Leonardo Felix

13 nov 2023

4 minutos de leitura

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Muita gente se surpreendeu com os recentes volumes de investimentos anunciados por Renault e Nissan para o Brasil nos próximos anos. Este singelo colunista já informara, em agosto deste ano, que a marca francesa preparava uma ofensiva com diversos novos produtos derivados da plataforma CMF-B para nosso mercado.

A primeira parte do plano, estimada pela própria companhia em R$ 2 bilhões, já tem confirmados o SUV de entrada Kardian e a versão de produção da picape conceito Niagara, ambos apresentados recentemente a jornalistas sul-americanos.


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O primeiro será feito em São José dos Pinhais (PR), junto do inédito motor 1.0 TCe turbo flex de até 125 cv de potência e 22,4 kgfm de torque, aliado ao câmbio automatizado EDC, de dupla embreagem. A segunda, na Argentina, com direito a uma irmã gêmea Nissan e possível motorização híbrida flex com tração 4×4.

Os lançamentos previstos para a Renault

Mas a lista não ficará só neles. Há pelo menos outros três produtos com produção na América do Sul em curso. Para 2025, a marca já prepara uma derivação SUV cupê do Dacia Duster de terceira geração. Com visual e carroceria bem diferentes, não se chamará Duster no Brasil e conviverá com o Duster B0, que será reestilizado no ano que vem.

Já o Dacia Bigster, aquele SUV de sete lugares apresentado como conceito no evento Renaultlution, em 2021, deve chegar em 2026, também com visual drasticamente modificado para receber a insígnia da Renault e outro nome no mercado nacional. O objetivo da marca é se dissociar por completo da subsidiária romena de baixo custo. 

Por fim, teremos a picape média Alaskan profundamente reestilizada, também prevista para vir entre 25 e 26, e desta vez com lançamento “mandatório” no Brasil.

A estratégia da Nissan no Brasil

Já a Nissan ampliou de R$ 1,2 bilhão para R$ 2,8 bilhões seu plano de investimentos para o Brasil nos próximos anos. Além da segunda geração do SUV compacto Kicks, a marca japonesa produzirá outro SUV na fábrica de Resende (RJ) entre 2025 e 26, de porte e posicionamento ainda incertos, mas certamente compartilhando a base CMF-B com o irmão.

Também anunciou que produzirá um novo motor turbo na região. Minha aposta é que seja o 1.3 TCe, a ser aproveitado tanto por seus produtos quanto pelos Renault nacionais. Seria uma estratégia complementar à nacionalização do 1.0 TCe a ser feito pela coirmã francesa no Paraná.

Lembremos que a produção de motores da aliança franco-nipônica foi terceirizada a uma nova subsidiária, chamada Horse, o que justificaria esta ação mais sinérgica por parte das duas fabricantes, que sempre pareceram não quererem se bicar ou se ajudar muito por aqui.

Guerra no Leste Europeu repercute nos planos locais da Renault-Nissan

Todas essas notícias e especulações parecem muito generosas e alvissareiras, até coincidentes, mas não são. Em boa medida, os novos e pesados investimentos de Nissan e Renault no Brasil são consequência da guerra entre Rússia e Ucrânia no Leste Europeu.

Vejamos: ambas as marcas deixaram recentemente o mercado russo em retaliação ao ataque promovido por este país contra territórios ucranianos. Suas fábricas foram fechadas repentinamente e vendidas, a preços simbólicos, a duas estatais de lá. A da Renault, para a Autovaz, detentora da icônica marca Lada. A da Nissan, para a Nami, um instituto local especializado em pesquisa e desenvolvimento para o mercado automobilístico).

Além do Brasil, o programa global do SUV Kardian previa produção na Rússia, tanto que protótipos dele chegaram a ser flagrados lá, em estado de abandono. E aí precisamos lembrar do nosso Captur, derivado do Kaptur russo, e que teve de ser tirado de linha aqui porque boa parte de seus componentes vinha do gigante euroasiático.

Sem a Rússia na jogada, a aliança Renault-Nissan precisou redirecionar seus investimentos e dar mais relevância a mercados como… A América do Sul. Não que já não houvesse intenção de se investir aqui, é preciso que fique claro. Estamos falando de um incremento nos planos de investimentos.

E se você ainda não acredita que tudo esteja relacionado, lembremos do caso da GWM. A chinesa só aportou R$ 10 bilhões no Brasil porque o governo da Índia fez jogo duro para permitir que a fabricante se instalasse em uma desativada planta da GM naquele país.

O dinheiro não é infinito e, no complexo xadrez geopolítico global, em todos esses casos o Brasil surgiu, de repente, como um local mais atrativo para essas companhias investirem. Agora é ver se nosso mercado interno e de exportação conseguirá responder à altura. A Reforma Tributária, se bem aplicada, me parece um passo fundamental para isso.


Leonardo Felix é jornalista especializado na área automobilística há 10 anos. Com passagens por UOL Carros, Quatro Rodas e, agora, como editor-chefe da Mobiauto, adora analisar e apurar os movimentos das fabricantes instaladas no país para antecipar tendências e futuros lançamentos.

*Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business