
A qualidade é busca infindável do setor automotivo. No Brasil, a empresas ganharam novas ferramentas para alcançar patamares mais elevados nesse âmbito com a criação do Mover – Mobilidade Verde e Inovação, programa do governo federal que dá sequência ao Rota 2030.
A novidade, no entanto, só poderá ser incorporada pelas organizações se houver evolução da gestão. Isso mesmo: existe outra tecnologia além de TI, da ciência de dados ou dos aplicativos, mas que também avança e gera transformações sem parar. Falo da tecnologia de gestão. O chamado management, ou, como era vista antigamente, a teoria geral da administração.
O movimento evolutivo da gestão faz com que as mudanças que vieram antes se fortaleçam e solidifiquem. Foi assim em toda nova onda, desde o surgimento da linha de montagem até a era da inovação, passando pelas células de produção, a reengenharia e outros movimentos mais e menos representativos e impactantes. Agora, temos um novo patamar a alcançar.
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A relação entre mudanças na gestão, o Mover e a qualidade
A tecnologia da gestão acelera com as mudanças socioeconômicas e se transforma por novas descobertas e aprendizados. O trabalho remoto foi um dos grandes e recentes catalisadores de mudanças nos desenhos organizacionais. Mais rapidamente do que se podia esperar, as velhas estruturas piramidais deram lugar a redes articuladas compostas por pessoas em diversos lugares do mundo. No centro da nova maneira de gerenciar e liderar estão as práticas de inovação e gestão do conhecimento e o foco de ação, cada vez mais deslocado para a experiência dos consumidores e as responsabilidades ambientais, sociais e de governança – o ESG.
Programas de incentivos e políticas públicas também são eficazes agentes no avanço das técnicas e práticas de gestão. Isso fica evidente no recém-lançado Mover – Mobilidade Verde e Inovação, criado pelo Governo Federal para incentivar e fortalecer a inovação e a sustentabilidade no setor da mobilidade. Publicada ao apagar das luzes do ano passado, a medida provisória 1206, de 30 de dezembro de 2023, tem claras intersecções com a gestão e, em especial, com o movimento da qualidade total.
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No fim da década de 1980, a qualidade foi um dos grandes marcos de evolução da tecnologia de gestão. O Mover certamente alavancará a permanente busca por esse atributo e pela competitividade, e é importante que os gestores enxerguem isso com clareza.
A seguir, trago três grandes intersecções entre o Mover e a evolução da qualidade no setor automotiv:
1- Qualidade é adequação às leis, um preceito que também está no Mover
Para começar, o Mover é um programa de incentivos à inovação estabelecido com base em uma lei e regulamentos. Um dos preceitos básicos e conceituais do Sistema de Gestão da Qualidade é que a organização, para operar, tem de estar conforme às leis aplicáveis. A conformidade está atrelada às questões de compliance. No que se refere ao enquadramento ou não dos projetos candidatos a incentivos, teremos toda uma sequência de procedimentos, classificações e limites a respeitar. Isso, no nosso entendimento, configura claramente gestão da qualidade total.
2- Inovações relevantes para o setor automotivo
A segunda dimensão pela qual os incentivos do programa Mover irão fortalecer a qualidade está relacionada ao desempenho ou, em outras palavras, à qualidade das inovações criadas. Os novos produtos lançados devem ter sua qualidade assegurada. Em outras palavras, qualidade total e o Mover andando de mãos dadas. Sejam inovações radicais ou melhorias contínuas, a gestão da qualidade será essencial para garantir o pleno atendimento aos requisitos do cliente e a segurança.
Especificamente nesses casos, a aplicação completa e correta das ferramentas da qualidade automotivas, como PPAP e FMEA, é a maneira de o fabricante se certificar sobre o que coloca no mercado. Casos recentes e chocantes como o das aeronaves Boeing 737 Max 9 ilustram as graves consequências da não qualidade.
3- Abordagem sistêmica para a qualidade
A terceira dimensão não esgota outras possíveis intersecções entre qualidade e mobilidade verde, mas merece ser salientada: ambos têm configuração de sistemas de gestão. Em outras palavras, um conjunto de práticas e processos que tem na sua gênese a gestão sistêmica, o inesquecível framework de J.E. Deming, do PDCA (Planeje/Faça/Confira e Aja). Só na abordagem sistêmica é possível assegurar qualidade e inovação, por meio de processos estabilizados, indicadores de desempenho e governança.
Bom trabalho!
Valter Pieracciani é sócio-fundador da Pieracciani Consultoria. Empresário, pesquisador, consultor e escritor, é especialista em modelos inovadores de gestão. Dirigiu mais de 800 projetos em companhias-líderes como Nestlé, Ambev, Tetrapak, Pirelli e Avon, dentre outras. Atua como gestor de startup e de recuperação de empresas.
*Este texto traz a opinião do autor e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business