
“Aqui o trânsito não tem hora para aparecer”, disse o simpático motorista do Uber segundos antes de entrarmos em um congestionamento digno de uma véspera de feriado prolongado no Brasil. O senhor mexicano tinha razão, já que eram 14h de uma terça-feira e levamos mais de uma hora para completar um percurso de 20 quilômetros.
A Cidade do México é a quinta maior cidade do planeta e a mais populosa da América do Norte. Levando em consideração apenas as capitais, a metrópole tem exatos 9.209.944 habitantes, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI). Destes, mais de 4,8 milhões são mulheres e 4,4 milhões, homens.
Metrópoles que se confundem
Sua grandiosidade torna inevitável a comparação com São Paulo, até por conta das similaridades entre as cidades. A capital paulista tem pero de 12,4 milhões de habitantes, segundo estimativa do IBGE em 2021. Ocupa uma área de 1,521 milhões de km², contra 1,485 milhões de km² da cidade mexicana. Contabilizando a população da região metropolitana, a Cidade do México passa dos 21,8 milhões de habitantes, pouco abaixo dos 22 milhões de toda a Grande São Paulo.
As semelhanças não se limitam aos números. Como toda metrópole, a mobilidade é um dos grandes problemas nas duas capitais.
Nos seis dias em que estive lá, ouvi de muitos habitantes que o transporte público é bastante precário. As críticas mais frequentes foram direcionadas à superlotação (sobretudo nos horários de pico) e à infraestrutura ruim, o que inclui uma malha muito pequena para uma cidade tão grande.
Uma cidade congestionada
Dados do INEGI indicam que, em 2020, a frota mexicana tinha mais de 50,3 milhões de veículos registrados. Destes, quase 34 milhões eram automóveis de passeio. Na Cidade do México, estão registrados mais de 6,1 milhões de veículos, dos quais 5,5 milhões são automóveis.
Como é de se imaginar, a frota brasileira é muito maior: segundo o Denatran, dos 58 milhões de carros registrados no país, 19 milhões estão emplacados no Estado de São Paulo. Desse contingente, 6,2 milhões de automóveis estão registrados na capital paulista, o que representa 11% da frota nacional.
Mesmo assim, os congestionamentos são maiores na capital mexicana do que em São Paulo. De acordo com o levantamento anual de cidades mais congestionadas realizado pela TomTom Global Traffic, a Cidade do México ocupa a 28ª posição. São Paulo, por sua vez, aparece apenas na 68ª colocação, atrás, inclusive, de outras duas capitais brasileiras: Rio de Janeiro (39ª) e Recife (24ª).
A empresa analisa os índices de congestionamento em 416 municípios de 57 países em seis continentes. O índice é obtido por meio de cálculos que consideram o tempo de viagem da população em relação à distância a ser percorrida. Por meio de análises baseadas em registros diários, a TomTom Global Traffic aponta o fluxo contínuo da região em diferentes horários, incluindo os mais e menos movimentados.
Cenário preocupante
O trânsito na capital mexicana apresentou queda drástica durante a pandemia. Houve uma redução de até 85% nas fases mais restritivas. Entretanto, o cenário para o pós-pandemia é desanimador: uma estimativa realizada pelo Waze aponta um incremento de até 30% no já caótico trânsito mexicano por conta do aumento na compra de veículos.
“As tendências que observamos é de que o trânsito aumente de 20% a 40% nas metrópoles mais desenvolvidas. A previsão é bem parecida para o México, variando de 10% a mais em relação aos níveis pré-covid, podendo atingir um crescimento de até 30%”, afirmou Ingrid Avilés, country manager do Waze México, em entrevista concedida à Forbes México.
Uma das soluções mais curiosas para tentar driblar os congestionamentos é o “primeiro piso”. Trata-se de uma rede de viadutos que podem ser acessados mediante o pagamento de uma taxa.
A Secretaria do Meio Ambiente (SEDEMA) é a entidade responsável por realizar a Prueba de Verificación Vehicular, bem semelhante à inspeção veicular realizada em algumas cidades do Brasil.
A diferença é que as análises também determinam o estado de conservação dos carros. São verificadas características como o alinhamento do veículo e o funcionamento de partes importantes do automóvel, como amortecedores e freios.
Caso o veículo em questão seja aprovado e também esteja dentro do limite de emissões de poluentes estabelecidos no México, ele recebe um adesivo que deve ser fixado na janela do carro. Os carros mais novos (com até dois anos de fabricação) podem receber a classificação “00”, enquanto produzidos há até oito anos se classificam no grupo “0”.
‘Rodízio’ mexicano
Ao mesmo tempo, a prefeitura da Cidade do México estabelece algumas medidas para conter o índice de emissão de poluentes na metrópole.
Quem está acostumado com o Rodízio Municipal em São Paulo (SP) não vai estranhar o “Hoy no Circula”. Criado em 1989, ele é um “programa que restringe parcialmente a circulação de veículos produzidos há mais de nove anos. A intenção é controlar o índice de poluentes” na capital mexicana e outros 18 dos 125 municípios do Estado do México.
Existem dois tipos de restrições: a semanal limita a circulação em um dia de segunda a sexta-feira e a sabatina impede a circulação em dois ou todos os sábados do mês.
A restrição semanal é estabelecida de acordo com a cor de um adesivo que precisa ser colado na janela do veículo ou pelo último número da placa – como no rodízio adotado em São Paulo.
Na restrição sabatina, entram veículos com dois tipos de adesivos: os que têm adesivo do grupo 1 (com nove a 15 anos de idade) não circulam das 5h às 22h em dois sábados do mês, sendo que os veículos com placas com números finais ímpares não podem rodar no primeiro e terceiro sábados do mês. Nas placas com números finais pares, o veto se aplica ao segundo e quarto sábados de cada mês.
Já os veículos com adesivo do grupo 2 (com mais de 15 anos de idade) ou registrados fora do México não podem circular em nenhum dos sábados do mês. Carros deste grupo também não podem circular em meses com um quinto sábado.
Caso seja identificada alguma anormalidade nos índices de qualidade de ar, as restrições se tornam mais severas. A primeira fase se chama “Doble Hoy No Circula” e entra em ação quando os níveis de ozônio passam dos 151 pontos. Neste caso, as motocicletas e os veículos com adesivos “0” e “00” também são impedidos de circular.
A fase 2 da contingência acontece quando os níveis de ozônio superam os 200 pontos. Aí a restrição atinge 50% da frota de automóveis com adesivos dos grupos 1 e 2, utilizando como referência de proibição o número final da placa. Em um dia é vetada a circulação dos carros com placa final par e no outro, dos veículos com placa final ímpar.
É importante ressaltar que veículos eletrificados (híbridos e elétricos) ou identificados como clássicos e/ou de coleção não precisam seguir as regras do “Hoy No Circula”
Metrô sofre com problemas

Quem não pode arcar com os custos de ter um carro recorre ao transporte público. Um levantamento realizado pelo INEGI indicou que 99,7 milhões de pessoas utilizaram o transporte público em 2021. Deste volume, 63% recorreram ao metrô, enquanto 22% preferem o metrobús – um serviço de ônibus expresso que circula por corredores.
O metrô da Cidade do México foi inaugurado em 1969 e hoje conta com 12 linhas. Tem 226,4 quilômetros de extensão e 195 estações. No ano passado, o serviço transportou pouco mais de 22 milhões de passageiros.
Assim como em várias metrópoles, o serviço sofre com a superlotação, sobretudo em horários de pico. Mas existem outros problemas. Em 2021, uma reportagem da Televisa denunciou condições precárias de conservação de trens e equipamentos. O estopim foi um incêndio em um posto de controle do metrô, que resultou em 10 feridos e uma vítima fatal.
A má conservação dos trens é um problema relatado na imprensa mexicana desde 2015. As queixas incluem falta de iluminação nas cabines dos condutores e funcionamento deficiente de equipamentos básicos de segurança, como limpadores de pára-brisa e até as travas das portas dos vagões, fazendo com que muitos trens circulem com as portas abertas.
Viajei durante uma manhã inteira por quatro das 12 linhas do metrô e notei que o estado de conservação das estações varia bastante. Embora nenhuma delas apresentasse condições precárias, faltava iluminação e sinalização adequadas em algumas. Havia policiamento constante em todas as plataformas, sendo que algumas delas têm até uma base elevada para vigilância em horários de pico.
Ônibus têm frotas contrastantes

O México está entre os maiores mercados do Brasil para exportação de ônibus. Fabricantes como a Volkswagen Caminhões e Ônibus e encarroçadoras, como a Caio, costumam vender muitas unidades para o país.
A frota de ônibus da capital mexicana é controlada pela Rede de Transporte de Passageiros (RTP). O órgão público é administrado pelo governo local e, em 2020, reunia uma frota de 1.279 veículos.
Parte dos coletivos já sente o peso da idade e muitas linhas sofrem com a superlotação nos horários de pico. Inclusive, não é raro observar alguns veículos trafegando com as portas abertas.
O Metrobus é uma alternativa mais segura e confortável aos ônibus convencionais. A rede de ônibus expressos tem uma frota de 660 veículos articulados e biarticulados em ótimo estado de conservação que circulam por sete linhas em corredores exclusivos pela superfície.
Táxis são muitos e velhos

Os táxis são facilmente identificados pela inusitada pintura nas cores branca e rosa. Hoje, a quantidade de veículos passa das 141 mil unidades registradas em 2019.
O meio de transporte não é recomendado para turistas por conta da grande quantidade de táxis “piratas” circulando pela metrópole. É por isso que a própria Embaixada do Brasil no México desaconselha pegar táxis nas ruas por conta do risco de assaltos e até sequestros.
Não é difícil encontrar táxis velhos e/ou em péssimo estado de conservação. O Nissan Tsuru, uma versão simplificada da terceira geração do Sentra que foi fabricada de 1984 a 2017, ainda está entre os modelos preferidos pelos taxistas.
Em fevereiro deste ano, o governo da Cidade do México investiu 18 milhões de pesos para promover uma modernização na frota de táxis da capital mexicana. No total, 221 veículos foram substituídos por modelos 0km, sendo que 10 deles eram híbridos e 56 unidades contam com uma adaptação no banco do passageiro para facilitar o embarque de pessoas com algum tipo de deficiência.
Assim como em São Paulo e várias outras cidades brasileiras, os aplicativos de transporte particular despontam como alternativa mais segura e confortável aos táxis. Pesquisa realizada em 2020 aponta amplo domínio da Uber, que opera em 40 cidades mexicanas e é o serviço preferido de 80% dos usuários deste tipo de transporte. A Cabify e a chinesa DiDi também operam no país.
