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Como são as políticas de diversidade nas melhores montadoras para pessoas LGTBQIA+

Ford, Nissan e Volkswagen mantêm grupos de afinidade e pensam em ações de conscientização dos funcionários no ambiente corporativo
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Vitor Matsubara

28 jun 2024

7 minutos de leitura

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A edição mais recente da pesquisa Diversidade no Setor Automotivo, promovida por Automotive Business, indicou que a pauta LGBTQIA+ foi uma das que mais avançaram nas empresas automotivas nos últimos anos.

Mesmo assim, sua representatividade ainda está muito aquém do desejável: as pessoas LGBTQIA+ correspondem a apenas 1% do quadro de funcionários do setor automotivo.


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– Lideranças LGBTI+ do setor automotivo que você precisa conhecer


“Toda a sociedade ainda tem algumas resistências à presença de pessoas LGBTQIA+ no ambiente profissional, mas a indústria automotiva é um dos setores nos quais essa barreira é um pouco maior”, afirma Guilherme Bara, sócio e consultor em diversidade, protagonismo e ambiente inclusivo da MAC Consultoria em Diversidade.

De todo modo, algumas iniciativas tentam mudar o cenário com um só objetivo: minimizar e, quem sabe, até mesmo erradicar o preconceito dentro das companhias.

Ford, Nissan e Volkswagen, por exemplo, despontam entre as montadoras com ações destinadas para este grupo. Não à toa, foram as únicas fabricantes de carros a receberem o certificado de melhores empresas para pessoas LGBTQIA+ trabalharem – reconhecimento obtido por meio da pesquisa HRC Equidade BR.

Grupo de afinidade tem atuação ativa na Nissan

A Nissan tem uma série de ações voltadas com foco nas pessoas LGBTQIA+, incluindo o grupo de afinidade True Colors. Formado por voluntários de diversas áreas da empresa, ele “busca trazer sempre novas ideias e projetos que possam ser implementados”. 

“Existe um compromisso da organização em seguir construindo um ambiente diverso, equitativo, inclusivo e seguro para a comunidade. Todos os anos desenvolvemos um plano estratégico de trabalho com metas e ações para sermos cada vez mais inclusivos”, conta Vinicius Valim, que há dois anos atua como analista de recursos humanos da empresa.

Entre os benefícios para seus funcionários, a Nissan fornece auxílio-creche e licença parental (maternidade e paternidade) de acordo com a lei para qualquer cuidador, independentemente do gênero, que assuma a responsabilidade por uma criança.

Valim afirma que “cada colaborador tem a responsabilidade de fazer da diversidade e da inclusão uma realidade na Nissan”, e crê que qualquer contribuição para estabelecer um ambiente mais inclusivo e livre de preconceitos é válida. 

“Todos temos um papel essencial nessa jornada, propondo ideias, apoiando as ações e tendo um comportamento mais inclusivo. Acredito que, ao transformar esse ambiente interno, já estamos ajudando a transformar a sociedade de alguma maneira”.

Alta liderança respalda decisões na Ford

A Ford também trabalha para garantir um ambiente mais inclusivo em toda os seus campos de atuação na América do Sul. Além de manter uma área dedicada a esse assunto, a empresa tem cinco grupos de afinidades – entre eles o Pride, que cria um ambiente de trabalho seguro para pessoas LGBTQIA+.

“As políticas de incentivo e valorização da diversidade são essenciais para criar um ambiente de trabalho inclusivo, inovador e justo. A diversidade não só traz diferentes perspectivas e ideias, mas também promove uma cultura de respeito e colaboração, e a Ford vem trabalhando fortemente a área de diversidade e inclusão há um bom tempo na região”, afirma Vinicius Brassarola, gerente de digital e CRM da Ford América do Sul.

De acordo com a empresa, a alta liderança “tem um papel fundamental no suporte a esses grupos e no fomento de políticas e práticas inclusivas”, como programas afirmativos de contratação e pactos com organizações externas que são referência em diversidade e inclusão.

Brassarola aprova qualquer iniciativa que assegure o bem-estar das pessoas LGBTQIA+, especialmente na sociedade.

“Acho super importante sempre defender os direitos da comunidade LGBTQIA+ participando de eventos e campanhas de conscientização. Todos merecem ser tratados com respeito e dignidade”, afirma.

VW assume compromisso com direitos LGBTQIA+

Faz alguns anos que a Volkswagen prega a diversidade dentro da empresa. Por aqui, a fabricante participa do Programa Global de Equidade no Trabalho, em parceria com o Instituto Mais Diversidade e o Forúm de Empresas e Direitos LGBTI+

Entre as iniciativas realizadas no ano passado, a montadora e a Fundação Grupo Volkswagen se uniram em apoio à ONG Casa Neon Cunha, em São Bernardo do Campo (SP), onde fica sua sede.

A iniciativa incluiu a doação de R$ 70 mil para a manutenção de suas atividades de acolhimento, abrigo e apoio psicossocial e jurídico junto à população LGBTI+ em situação de vulnerabilidade na região do Grande ABC.

A política de diversidade da companhia conta ainda com a criação de um grupo de diálogo chamado Colorindo, ações de conscientização entre os colaboradores e a realização do “Mês do Orgulho na VW”, que oferece webinars sobre o tema.

Assumir sexualidade depende do ambiente de trabalho

Apesar de algumas empresas realizarem várias ações voltadas ao acolhimento, muitas pessoas ainda se sentem inseguras em relação à aceitação de sua sexualidade no ambiente de trabalho.

Guilherme Bara, da MAC Consultoria em Diversidade, acredita que assumir a orientação sexual é uma decisão tomada pelo profissional muito por conta do ambiente que encontra no dia-a-dia.

“Se ela ouve constantemente piadas ou comentários debochados sobre temas LGBT, ela percebe que está em um ambiente hostil e muitas vezes vai acabar vivendo dentro do armário. Com isso, essa pessoa passa a ter uma vida dupla. É como se ela vestisse um personagem no trabalho e só quando saísse de lá é que pudesse ser ela mesma”, diz.

“Enquanto todo mundo fala o que fez no fim de semana com o namorado ou namorada, ela sempre fala que estava com um amigo ou amiga. E isso traz um sofrimento muito grande”, completa.

Código de ética é ignorado em muitas empresas

O consultor acredita que várias empresas não aplicam aquilo que apregoam em seus códigos de ética, e grande parte da culpa dessa postura omissa está nos líderes dos principais setores de uma companhia.

“Qualquer empresa que tenha um mínimo de governança possui um código de ética que proíbe a discriminação. Quando entramos em uma empresa, nós lemos os valores dela, mas, em muitos casos, as lideranças não se apropriam deles. Muitas empresas escrevem o código de ética como se fosse um protocolo formal que é assinado e ninguém nunca mais olha”. 

“Um líder precisa saber que não se trata de ‘mimimi’. Qualquer brincadeira que agride sistematicamente qualquer grupo social é, tecnicamente, uma discriminação”.

Empresas não sabem como confortar pessoas LGBTQIA+

A forma equivocada como o tema é tratado dentro de muitas empresas também acaba prejudicando a vida das pessoas LGBTQIA+ no mundo corporativo.

“Em muitos casos, as empresas tentam endereçar esse tema de forma errada por meio de palestras que trazem questões subjetivas e linguagem neutra que não conversam com as objetividades do tema. Muitas vezes isso gera mais polêmica do que engajamento. Hoje se fala muito mais de ‘todes’, que é uma narrativa que só afasta as pessoas, e pouco se fala de que comentários homofóbicos não devem ser tolerados de maneira alguma porque isso está no código de ética”.

Para Guilherme, é preciso promover a igualdade entre os colaboradores de forma respeitosa e profissional, como as empresas especificam em seus códigos de ética.

“A ideia não é convencer os colaboradores a irem a uma parada LGBT com uma bandeira com as cores do arco-íris. Se eles quiserem ir, eles vão – e tá tudo certo. O que a gente quer é garantir um ambiente onde as pessoas e suas características sejam respeitadas dentro da empresa”.