logo

none

Competitividade, subfaturamento e Receita em ação

Matéria com destaque na edição do Estadão desta quinta-feira, assinada por Renata Veríssimo e Adriana Fernandes, mostra que sob forte pressão das montadoras a Receita Federal investiga o aumento das importações de automóveis da Coréia do Sul. A inspeção está sendo realizada na aduana, na chegada dos carros, para verificação de eventual subfaturamento.
Author image

paulo

11 jun 2010

4 minutos de leitura

G_noticia_7076.gif

O artigo mostra que as importações de automóveis cresceram 75,1% de janeiro a maio, em relação ao mesmo período de 2009. A Hyundai trouxe 46,1 mil unidades, contra 15,9 mil; a Kia 20,7 mil, o triplo dos 6,1 mil importados nos primeiros cincoi meses do ano passado. A SsangYong saltou de 599 veículos para 1.800.

Não é preciso ir tão longe para encontrar indícios de subfaturamento nessas operações. No portal da Receita Federal é possível consultar o preço FOB declarado pelos embarcadores coreanos e chineses. O resultado é surpreendente, mostrando valores pouco acima de US$ 5 mil ou de US$ 10 mil no caso de SUVs sofisticados. Para ter uma indicação do custo desses veículos no País, em reais, vale multiplicar o preço FOB por um número próximo de 3,5.


Musculatura

Se os preços FOB revelados pela Receita Federal trazem boa-fé embutida, as operações brasileiras estarão realmente em dificuldade. Se há subfaturamento, é preciso encontrar maneiras de por fim a essa prática que coloca em xeque o fabricante local.

A boa ‘musculatura’ adquirida pelas operações asiáticas é inegável e atinge níveis de excelência sob o ponto de vista logístico. Aliado à fraca posição atual dos mercados europeus e norte-americanos, esse vigor de coreanos e chineses passa a ser dirigido ao território brasileiro.

Na matéria de capa da revista Exame que está circulando com o título “Os chineses chegaram’. Segundo a revista, em 2010 a China será o maior investidor estrangeiro no Brasil. No que se refere ao setor automotivo, a incursão começou pelo aftermarket e já se estende por dez operações voltadas para a importação de veículos, com destaque para a Chery, JAC e ao impulso que pode tomar a CN Auto, sob o comando do experiente diretor geral Ricardo Strunz.

“Em cinco anos a China vai desfilar lado a lado com as marcas tradicionais europeias, japonesas ou americanas. Por esta razão a CN Auto já tem o seu Projeto 2015”, ressalta Strunz.


Hyundai e Kia


O próprio presidente da Abeiva, que também comanda a Kia Motors no Brasil, já se vangloriou da competitividade de seus produtos no mercado brasileiro. José Luis Gandini explica na edição desta quinta-feira do Estadão que desconhece fiscalização nas suas associadas coreanas: “Nossos preços são certos e não existe qualquer tipo de subfaturamento”, afirmou, referindo-se à Kia. “Mas não posso falar pela outra empresa”. A outra empresa é a Hyundai, claro.

Já o presidente do grupo Caoa, Carlos Alberto de Oliveira Andrade, admitiu que a Hyundai, que representa no Brasil, já passou por fiscalização em 2008. A desvalorização do won sul-coreano seria a explicação para o avanço das vendas da marca em todo o mundo.

Choque

A proposição do novo presidente da Anfavea, Cledorvino Belini, para um choque de competitividade no setor automotivo, com reflexos em toda a indústria brasileira, coincide com um momento crítico para o desenvolvimento do País. O Brasil está numa encruzilhada entre tornar-se um montador de sistemas e componentes importados ou praticar efetivamente a manufatura em toda a cadeia de produção, a partir da matéria-prima.

Os indicadores relativos à importação de veículos completos e de componentes automotivos revela que estamos perdendo terreno nessa batalha, apesar dos investimentos superiores a R$ 40 bilhões (confira na edição número 3 da revista Automotive Business) prometidos por montadoras e empresas de autopeças até 2015 para a modernização de fábricas e produtos.

A investigação de subfaturamento na importação de veículos coreanos pela Receita Federal será apenas um artifício pequeno em defesa da indústria nacional diante da pressão maciça dos asiáticos – em especial coreanos e chineses — em direção ao mercado brasileiro.

Ao mesmo tempo, proteger o setor de autopeças com a eliminação do redutor de 40% que incide sobre a importação de autopeças destinadas às linhas de montagem não será a solução final para estimular a fabricação local de componentes automotivos. Trata-se de um paliativo para compensar o custo Brasil que torna os players instalados no País menos competitivos. A maioria das empresas considera que só mesmo reformas corajosas vão recolocar a indústria de autopeças em patamar de competir de frente com os asiáticos.

Melhor ouvir Cledorvino Belini.