Nessas situações torcemos que o instrutor não se lembre da gente e escolha outra vítima. Mas ele lançou a pergunta, e ficou circulando na sala, olhando, buscando alguém para dar sequência ao programa do dia. Levantei a mão. Além do português nativo, estava aprendendo espanhol em bom ritmo e meu inglês era suficiente para sobreviver. Estando ali, não havia dúvida, me comunicava bem ou, no mínimo, satisfatoriamente.
Bruce, americano, falava espanhol com desenvoltura. Convidou-me para ir até o centro da sala e explicar porque me considerava um bom comunicador. Falei sobre não ter medo de aprender e errar, disse que gostava de interagir com pessoas e falando, exercitando, havia atingido um nível razoável nos idiomas nos quais não era nativo e que, por isso e pela minha cara de pau, me considerava um bom comunicador. Não houve objeções (será que me entenderam?).
O que aconteceu depois, foi um momento especial, de bastante aprendizado. Bruce me convidou para acompanhá-lo até a mesa. Pediu para que eu escolhesse um entre os diversos cartões coloridos que tinha na mão. Peguei um e olhei para o objeto desenhado nele. Deu-me alguns minutos. Ele então pediu para aos demais que estavam na sala, aproximadamente 25 pessoas, pegassem uma folha de papel em branco e um lápis, e que se espalhassem pelas mesas de maneira que não fosse possível ver o que o outro desenhasse.
Eu estava concentrado no que via no cartão. Era uma figura geométrica que não se assemelhava a nada. Pontas, semicírculos, poliedros unidos de uma maneira estranha. Bruce então solicitou que eu descrevesse ao grupo, sem mostrar a figura, o que eu estava vendo. Lentamente, fui narrando àquelas pessoas o que via no cartão. Bruce nos deu mais alguns minutos para a tarefa.
Terminado o tempo, o psicólogo repetiu a pergunta: Ivan, você é um bom comunicador? “Acho que sim”, respondi. Ele pediu a todos que escrevessem o nome na folha e a pendurassem com durex na parede. Foi revelador! Nenhuma imagem era igual. Nem havia nada parecido ao objeto que eu havia visto no cartão.
Problemas de comunicação e suas consequências variam de mal-entendidos sem importância a acidentes fatais. Entre o que é dito e o que é ouvido, há uma infinidade de possibilidades de entendimento, todas altamente influenciadas pelo modelo mental de cada ouvinte. Não vou estender-me sobre as teorias da comunicação eficiente, tema fartamente documentado e que merece a atenção daqueles que buscam aumentar suas chances de sucesso. Mas esse episódio alertou-me sobre as confusões que eu poderia causar, certo de que me expressava bem e claramente.
Dizer que algo deu errado por problemas de comunicação é algo banal nas organizações. Mas de banal a comunicação não tem nada. Dominar as técnicas adequadas, cuidar dos detalhes, e certificar-se sempre que o recado foi dado e entendido é matéria básica para quem aspira ganhar posições no mundo corporativo.
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Um abraço!