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Pedro Kutney, AB
O que três concessionárias de marcas concorrentes, localizadas em uma mesma avenida de São Paulo, estariam fazendo juntas em um mesmo cartaz (foto) de feirão? Resposta: elas estão dividindo os custos de publicidade para tentar se livrar de um problema comum às três: carros demais no pátio e consumidores de menos nas lojas.
“É um evento inédito”, diz Ayrton Fontes, economista da agência de varejo automotivo MSantos. “Neste fim de semana (sábado, 16, e domingo, 17), três concessionárias concorrentes, Chevrolet Itororó, Fiat Amazonas e Nissan Tókio, estão fechando parte da Avenida Nazaré (no bairro do Ipiranga, em São Paulo) para fazer um feirão de rua e desovar seus estoques. Foi a maneira que encontraram, rateando os investimentos em publicidade, para tentar vender, apesar de serem concorrentes”, conta Fontes.
O economista revela que muitas concessionárias estão com o mesmo problema: “Notamos claramente um esgotamento do poder de compra dos consumidores para veículos zero-quilômetro”, diz. “Os pátios estão lotados, diminuiu a circulação de clientes nas concessionárias da Grande São Paulo. Em junho as vendas foram menores do que em maio e deveriam ter sido bem menores se não fosse o rapel, em que foram emplacados mais de 58 mil unidades (sem compradores) pelos concessionários nos três últimos dias do mês passado. Agora eles estão com o mico”, avalia
Crédito apertado, concessionárias pressionadas
Fontes enxerga que a situação está se agravando desde dezembro, quando o Banco Central baixou medidas que tornaram mais caros os planos de financiamento mais longos e sem entrada. Com o aperto no crédito, prestações saltaram de R$ 500 para R$ 650 ou R$ 700, o que ficou acima do tamanho do bolso de muitos consumidores.
Aliado a isso, o endividamento cada vez maior da população está fazendo a inadimplência aumentar, causando na mesma medida o aumento do rigor das financeiras para aprovar novas concessões de financiamentos. “Os bancos estão muito mais exigentes nas aprovações das fichas, exigindo entrada, principalmente nos financiamentos acima de 60 meses”, conta Fontes.
Esses dois fatores – estoques inflados pelas montadoras que exigem cotas de vendas de seus revendedores e crédito mais caro – armou uma bomba de efeito retardado nos concessionários, segundo avalia Fontes. “Muitos estavam vendendo carros sem nenhuma margem, para ganhar com as comissões das financeiras. Mas depois do aperto do BC as comissões acabaram e só sobraram os estoques. Conheço alguns grupos que querem se desfazer do negócio.”